Beijo na Boca

Yin Yang. Questão de equilíbrio dinâmico entre escolhas contraditórias a cada instante. Ao ajustar a vida e atribuir valores para decidir que caminho seguir, não há proporção ideal constante, nem a anulação completa da ação de opção oposta.

Apreciável é a luz e a sombra; proporções intermediárias entre elas, em dias variáveis, horas distintas, com durações indeterminadas.

Assim é com agilidade e a morosidade, força e suavidade, o som e o silêncio, a companhia masculina e a companhia feminina.

E sobre companhia, homens que têm atração sexual unicamente por mulheres dizem adorá-las, e não suportam viver sem momentos de presença exclusivamente máscula, como um bar com amigos, futebol, videogame, uma volta na praia ou uma roda na esquina. Um homem precisa da presença de homens para viver.

Deves então ter percebido que não há fórmula para a vida, nem decálogo de “10 lições para ser feliz”, “10 maneiras de enlouquecer uma pessoa na cama”, mas a variabilidade infinita de cada personalidade, em cada momento de existência. Ora queres uma coisa, ora queres outra ou de outro jeito, e para se relacionar romântica ou sexualmente, o uso de tua percepção, sensibilidade e criatividade permitirão viver intensamente a vida, em toda sua potência e virgindade de cada instante inédito, que poderá ser magnífico de ser descoberto, e fantástico de ser vivido.

 

O Beijo

Possivelmente conheces o beijo ardente, apaixonado, de um par que se beija pela primeira vez, quando o desejo mútuo encontra oportunidade; ou o de saudade, de uma semana ou um mês ausente.

E lembras do beijo casual de encontro, despedida ou carinho daqueles cônjuges de algumas primaveras. São rápidos, como o selo sendo fixo à carta. Presentes entre genitores e prole, amigas e amigos, casais. É um carinho e uma lembrança, expressão sincera de apreço e alegria.

A intensidade das sensações se apresenta em níveis maiores ou menores toda a vida, e há pessoas naturalmente mais intensas, que prezam a intensidade em detrimento de outras condições. Observe que o cobertor das opções de vida é curto; cobrindo uma opção descobre-se outra. Abre-se mão das vidas que poderia ter vivido, das alegrias e tristezas únicas das escolhas que não se fez, em nome da que foi eleita.

A intensão das emoções apaixonadas pressupõe alguns condicionais de existência. A possibilidade de escolha é o primeiro, a imprevisibilidade é o segundo, e por consequência a insegurança é o terceiro. O arroubo ocorre no campo de alguma incerteza, mediante imprevista inovação potencializadora.

Toda pessoa gosta de algum grau de segurança, e cotidianamente, a mulher a preza mais que o homem; sua maior preferência pela estabilidade dos relacionamentos e o seguro automotivo mais caro ao proprietário masculino, evidenciam esta predileção. Talvez tenha se dado conta, internético leitor e leitora, de que a sensação de segurança é o polo oposto da intensidade das emoções de paixão sexual/romântica. Em outras palavras, estabilidade, falta de opção, rotina austera ininterrupta e previsibilidade tendenciam a arrefecer emoções fortes de prazer no campo do sexo e romance.

Centramo-nos em obter as condições de sobrevivência, depois as de status, então possivelmente as de luxo, e a alguns, a realização pessoal. As emoções ficam atreladas a bens de consumo, incapazes de as propiciar autêntica e profundamente apenas por sua usufruição.

A quase totalidade das músicas, filmes e livros que contam uma estória de amor, centram-se na fase da conquista: a vida do personagem desde a consciência da existência do objeto da paixão, até o primeiro beijo e ato sexual. Alguns ainda se aventuram pelos tempos pós-consumação física, mas a maioria se encerra ali, caprichosamente:

– Meu amor por ti é eterno!

“E foram felizes para sempre, rumando ao pôr do sol pela estradinha de terra ladeada de flores do campo, saudados por pássaros cantoris e ao som da brisa que movia o balanço branco do primeiro beijo, sob a sombra do antigo salgueiro.”

Belo, perfeito; encantador fim de estória. Toda a eternidade imaginada de uma finita vida longa, resumida em um instante.

A segurança traz conforto emocional. E intensidade é mais como uma montanha-russa. O conforto é caminhar calmamente pelos amplos corredores do shopping de mãos dadas; sentar, comer, cinema. O frio na barriga, arrepios, prazer intenso, são o oposto do “selinho”. E se ao vir seu amado sexual… um beijo no rosto? Um abraço. Um “cheiro” no pescoço. O olhar brilhante, um contido sorriso sincero ou um grande e aberto, mesmo. Que tal um beijo molhado, sensual, degustado; já pensou em simplesmente não dar selinho?

Imagine a magia de toda vez que sair, rolar um “primeiro beijo”. Você vê a pessoa, e no decorrer do encontro, o primeiro beijo acontece. Sem nenhum dos dois saber quando, em que duração, lugar, condição. Simplesmente, ocorre. Inclusive à primeira vista: um beijo de chegada em aeroporto internacional.

Você pode experimentar isso no sexo, igualmente. Começar a transar, do jeito que for, mas sem beijo na boca, só para variar. E quando ele ocorrerá? Não há a mínima ideia. Em um relacionamento de vários anos, ou na primeira transa do casal. Experimentei envolvimentos romântico/sexuais com anos de duração, meses ou amostra única. Já conheci mulheres pela internet cujo programa de nos encontrarmos pela primeira vez era tomarmos um banho juntos na minha casa — aprecio profundamente o banho acompanhado, em especial no inverno e depois de um dia de trabalho ou na rua. E nos banhamos, transamos, e o beijo na boca foi a última coisa a suceder-se. Foi intenso, e melhor ainda pelos lábios e o beijo serem gostosos como imaginei, ou até mais; embora nem sempre isso aconteça, realmente.

Claro que você não deve ser um leitor de cérebro apequenado, do contrário provavelmente não estaria lendo isto de forma interessada. No caso raro de um tradicionalista orgânico estar por estas linhas, saiba que a maioria das mulheres que conheci intimamente são pessoalmente adoráveis, seletas e ótimas namoradas. Na verdade, quase a totalidade das mulheres com quem saí ou namorei foram à cama comigo no primeiro ou no segundo encontro. Isso é questão de jeito. Para tudo na vida, tem gente que tem jeito para alguma coisa. Alguns desenvolvem, outros não. E há quem não descubra para o que leva jeito.

As mulheres não são tão inseguras, se seu acompanhante a fizer sentir-se à vontade e com vontade.

————— break —————

Bem, nunca paguei por sexo. Devo ser o único homem que conheço que nunca pagou. O motivo é que eu não suporto a ideia de uma mulher transando comigo por dinheiro, ou a sensação de qualquer elogio não ser verdadeiro. Pode ser uma parte minha de orgulho ou vaidade, mas o que me dá prazer no sexo é dar prazer à mulher; saber que ela está comigo porque faço bem a ela, e não por precisar do meu dinheiro. Meu prazer está no prazer dela, em seu êxtase, sua insensibilidade à tudo que seja outra coisa além do tumulto passional, arremedo, plenitude, sensações orgânicas que a situam em outro plano de consciência sensorial do mundo e de seu próprio ser. Por grana, meu tesão inopera.

Nada tenho contra GPs, Garotas de Programa. Percebo como são úteis à sociedade e ganham dinheiro honesto, sem prejudicar a ninguém. Já fui levado a puteiros, conheci mulheres atraentes e de companhia agradável, que sabem o que querem, se planejam e têm sonhos. E são ótimas para conversar, como companhia, e muitas sabem dar prazer na cama (e no chuveiro, no chão, carro, piscina, etc). Mas eu só consigo transar, só tenho desejo de verdade se for por interesses não-financeiros.

———— continuing ————

Porque a mulher é um ser vivo animal e humano tanto quanto um homem, tem desejos e gostos próprios. Hoje em dia, é tão somente a falta de homens que respeitem sua individualidade e a tratem bem, o que retarda ou dificulta uma maior intimidade física ou de diálogo.

Voltando ao beijo. Torta de morango tem de ter gooosto de morango, vida tem de ter gosto de vida e beijo na boca tem de ter gosto de beijo na boca. Se for beijar a boca, que seja sensual, ainda que discreto. Que inove, invente, siga as ondas que se criam na hora. Sinta as vibrações dos corpos, a energia nos lábios, conduza seu desejo para vales mais profundos, use feeling e timing. Que seja longo, ou curto; que seduza, em toques ocasionais, torturando o outro, sedento pelo contato definitivo dos lábios. E que se interrompa de vez, dissimuladamente, surpreendendo teu par em um momento intenso, deixando-o na vontade de mais.

E se curtam. Beijo na boca tem seu tempero colocado antes, durante e entre os beijos. Namorar, ficar, sair, tem de ter sabor disso; de se divertir, ser carinhoso e fazer-se agradável, dar causa à alegria e ao prazer do ser amado.

Finalizar com selinho é como ter orgasmo para finalizar o sexo, só que sem intensidade. É “reduzir” o desejo, para não ficar querendo beijar de novo. Diminui a atração, a vontade do contato físico erótico, a saudade e a noção de que beijo e sexo bom de verdade, é com seu amado, não com um amante. Beijo na boca tem de ter gooosto de beijo na boca.

Manter o desejo é tornar sua “grama” mais verde que a do vizinho a seus olhos, é você ficar molhada ou de pau duro lembrando da pessoa, ficar com a saliva abundante e concentrada, é desejar a boca, o corpo, calor, cheiro, sexo, voz, o gemido e o riso do outro.

Em nome de convenções sociais e sensação de segurança, tiramos o luzo do nosso “crush”, nos entregamos à rotina, ao sexo conhecido, às sensações mornas, que geram menor satisfação e encanto e mais espaço para críticas e descarregos frustracionais, sobre quem deverias descarregar somente toques labiais e sorrisos.

Se for beijar a boca, beije. Por três segundos ou três minutos. Mas beije de verdade.

O selinho “mata” o beijo.

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