Gatos

Domingo vespertino, luminosidade acanhada, obstruída por nuvens intimidantes. Ponho-me a pensar no que fazer com o tempo livre. O ar frio é silêncio, marolamente movido por pios e cantos passarográficos. Um cão ladra, sem nada a furtar a não ser sossego ou concentração. Similar feito, em passado um tanto distante, era realizado por um exemplar fêmea, destinatária de grande estima de minha parte, que costumava remover-me de minhas viagens aos reinos de Hipnos e Morpheu à base de lambidas, entremeadas de focinhadas úmidas e sob a agitação de uma peluda cauda balançante. Este era um despertar típico aos finais de semana, promovido por Ursinha, minha coa gatinha.

Pela janela, em decúbito dorsal aprecio as aglutinações hídricas vaporosas, que preguiçosas, condensam-se em gotas felizes brincando de paraquedistas sem equipamento, deixando o marasmo de cima pela aventura abaixo. Penso além delas, pela distância do espaço; em que direção vagaria um ET, analisando alguns dados localizacionais antes de uma pausa para o café, a caminho dos lados de cá? Haveria de ser cinza, como o céu deste fim de tarde, de olhos negros como o horizonte nascente, dotado de algum senso de humor frio e metódico? Chamá-lo-ia Astrogildo, meu amigo do espaço. Falaríamos de humor, filosofia, sexo — de algum tipo — e quadribol (tenho certeza que foram eles que inventaram).

Estou no pomo dourado e um gato passa vadio, no telhado, invade a janela em frente e caminha sobre sua dona descansante, tal fosse um carpete, onde por fim deita e aquece-se.

Pois bem. Falemos deste miante ser sorvedor de leite bovino.

Gatínicos gatos gatunos gatinedeiam gaticinidades gaticinantes.

Gatos são irritantemente gatos.

Zombam de sua cara; como se de nada precisassem neste mundo, exceto um afago e um peixe com legumes, talvez. Regido pelo instinto, gato não escolhe nada; sua existência está pronta, sem opções inovadoras de vida. Gato não comerá linhaça nem beberá Coca Zero. Gato não angustia, ausente que se encontra da necessidade de atribuição de valor para escolha da opção de vida dentre numerosas possibilidades, complexas, conflitantes e por vezes contraditórias entre si.

Vizinha, você não é gata. Me neither. Precisa decidir entre pão amanhecido, ovos mexidos, cozidos, estrelados, fritos ou crus, leite quente, frio, morno, com Toddy, Nescau, puro, com café, de qual marca, açúcar ou adoçante, não comer nada. A vida é sucessão ininterrupta de escolhas a cada instante, e para escolher, é preciso atribuir valor. Viverás as alegrias e tristezas do caminho elegido, e não as dos vários caminhos que declinou. E a incerteza perante a decisão, angustia; teu maior poder, humana, é sua bênção e maldição, fonte de aflição maior. Diferente do pombo, da formiga, do tigre, da samambaia ou do gato, que têm a vida pronta e dimensionada em toda sua gaticidade, vossa vida não é pronta, nem definida. Tens de escolher, e até para não escolher foi preciso a escolha de não fazer. Invejas o gato, que vive sem dilemas ou multilemas. Já tu, és condenada a ser livre.

E acordas sob a gatunidade que gateia pesando-lhe os pulmões com seu despeso imperturbado, asmando por pelos de desdém toda tua insustentável leveza do ser.

Teria Astrogildo a angústia dos humanos?

Talvez ele não acordasse sob patas felinas ou lambidas canosas, quem sabe bicadas suaves de um canário rosa com quatro asas?

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