Gym

Não é natural. Beldades de todos os tipos, vestidas com roupas ao estilo “o que não mostro, finjo que cubro”.

Na cama de supino, uma moça faz sexo comigo inconscientemente (imaginação masturbativa quase solitária – afinal, ela estava presente). Deitada numa cama, com suas curvas excêntricas e concêntricas à mostra, ao livre prazer viso-lascivo do homem que olha para aquilo que o revira, acanha sua homeostase, acelera seu coração, deixa-o com a garganta seca e a boca molhada.

Uma dupla de universitárias apodera-se de uma outra cama, a romana (minha aquecida criatividade consegue imaginar razões para este nome), agora chamada flexora. Cada flexão de joelhos é um convite ao sexo oral na estudiosa exercitante, longos fios de cabelo caídos sobre as costas e lateral do equipamento. A posição é igualmente perfeita para penetração profunda, provocante, ritmada e com um orgasmo rápido, intenso e simultâneo de nós dois.

Despropósito, pode parecer. Inconveniência mordaz. “Trata-se de um tarado sexual que encontra dificuldades em domar sua lascívia, mesmo em um espaço público de treinamento físico rotineiro”. Leitor, isso não faz parte da natureza. Muito menos da minha. Observar tal esplendor de vida e energia à sua frente, digna de toda conjecturação desejante de um apaixonado pela matéria, sem que este possa manifestar seu apreço que preencherá de intensidades, prazeres e falta de ar a moça, personagem de meus sonhos, razão de meu tormento no ambiente de halteres e suores.

Talvez tenhas tú, a conveniente convergência entre vossas profundas inclinações passionais e seus encontros regulares com o mundo, reduzindo este tipo de sofrimento no encontro do sexo desejado. Factualmente, como estás aqui a ler-me, penso que a chance de seres um afeiçoado pelo assunto é grande, tal é a natureza dos textos em que costumo transcrever as divagações casuais que me tomam os pensamentos.

Tuas naturezas e intensidades são inigualáveis, meu leitor, único que és na existência. E ainda assim, eu não estaria em grande erro em pensar que entendes o sofrimento contemplativo que me acometes, pois tem os teus também.

Voltemos ao Gym.

Glúteos. Musculatura na região das nádegas, postero-superior dos membros inferiores. Extende, abduz e rotaciona o quadril. Estabiliza a deambulação. Provoca-me intenso desejo mediante simples contemplação.

Todos sabem que meninos tem pênis, meninas têm vagina, andróginos têm incógnitas e mulheres malham glúteos. Que espetáculo é o treino: de quatro (apoios), peso na canela, coice no ar. Em slow motion. Nunca fui monge, mas posso me considerar iniciado. Haja auto-controle.

Feito no aparelho, a deixa mais distante do piso e mais próxima dos olhos. A variação, em decúbito dorsal no colchonete, levanta sua pelve do chão como uma dançarina executando um passo de solo, que me lembra um do Michael Jackson no clipe “Jam”. A música anima, o Michael é rei, mas a lembrança me estraga o exemplo. Esqueçamos os glúteos de solo.

Adutores. Cadeira, encosto. Confortável, tranquilo. Estou extendendo os joelhos em outra cadeira, e ela abre e fecha as pernas, de frente para mim. Lycra, lycra; lycra. O moleton poderia voltar. Talvez um bem fininho, que aqueça pouco. Substituiria o tecido que demarca, delineando toda beleza oculta pelo pudor social da sociedade não-indígena, ora simplesmente mostrado sob vestimentas incapazes de concluir tal função a contento.

O martírio se encerra. Sorrisos, despedidas rápidas a duas ou três pessoas, porta automática abrindo-se para a carrasca de minha pena. Exercitou-se golpeando-me o corpo incapaz de reagir. Não me aproximaria sem seu consentimento, não a tocaria sem anuência de seu desejo e vontade; e ainda que o tivesse, não diminuiria a distância entre meu peito e suas costas, contido estava pelas algemas invisíveis do regimento social.

Tranquilo e travesso, o ar movimenta-se por sobre o passeio, furtando dela perfumes de lavanda e suor, shampoo de amêndoas, talvez. Percorre-a, prazer refrescante cujo privilégio divino de a tocar causa inveja e escapa-me à condição de mortal desejante.

Produz-se em mim audível suspiro de relaxamento sequente ao empreendimento mental, esforço físico do exercício de contrair músculos e imaginar cenas.

– Faltam muitas séries para você?

Resgatado ao mundo tangível, respondo:

Faltam umas três.

– Posso revezar contigo?

– Tudo bem.

A voz é alegre, certa e insegura ao mesmo tempo, uma pitada. Sua fonte detém patrimônio estético de indiscreto vulto. Faço-lhe comentários leves, bem-humorados, e rimos juntos.

O diabo vai, mas deixa a tentação para trás. Talvez um representante comercial; uma espécie de “relações públicas”.

– …então, estou quase me formando jornalista, amo a comunicação!

Quase acertei.

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