Tentações

Dentro do ônibus na volta do cursinho, 19 anos de existência e um intenso amor. Sentimentos florescentes, inusitalidades, vida com sabor, tempero e luzes.

Ainda assim, algo comprimia seu peito. Certa angústia de sensações, intensificadas pela indefinição de sua natureza.

Toma de caneta e volumosa apostila, sacada da mochila enquanto olhava as pessoas na calçada, passando rápidas pela janela do coletivo em movimento. O sol se escondia atrás do morro; gente, edifícios, pedaços de céu e jardins floridos exuberam cores entre oblíquos raios dourados.

São então gravadas impressões do peito ao papel, sulcado e pintado pela minúscula esfera de tungstênio. Enquanto corre, a caneta afunila em verbo os afetos que acaloram-lhe a face, constringem a respiração, proveem lubrificação extra a seus olhos. O tubo plástico recebe o quinhão de seu labor sulcativo pintante, comprimido mais que o necessário pelos dedos que o conduzem em seu balé pela folha.

As emoções acerca do amor pela garota que é-lhe destinatária de toda conjecturação e manifestação de paixão, bem querer e carinho, constituem agora conteúdo incontido pelo limitado continente que as gera. Tenta este, desprovido de sucesso, domesticá-las como à fera insone, alisando e convidando-a à mansidão, prudência, serena visão perceptiva dos fatos racionalizáveis.

Declinam o convite. Lançam-se ao rubor, umedecem o olhar e vertem à alva lâmina de celulose entrelaçada, repousada em maço sobre a mochila no colo do rapaz.


 

TENTAÇÕES

“Por que se me tenta

A beleza da carne mortal

Se sei que o Belo

Não sofre do tempo flagelo

Por ser virtude moral?

É apelo que dos olhos nasce

Se transforma em calor e tremor

Não vêm eles do que em meu peito bate

É maldito o que meu corpo sente

Tudo é falso quando não é amor.”

 


E assim, caro leitor, descrevi a atração que sentia por outras que não me fossem a eleita pelo coração, regente de memórias afetivas de alegria e desejo. É o poema-indagação-indignada do sentimento conflitante ao que a razão determina, do amor sem fim e da alma lhe destinada. Não era eu como meu genitor, homem de uma mulher apenas; pois me constituía o cerne da personalidade desejante, a multiplicidade de flores, cada uma única em seu luzo, aroma, textura e acordes. Descobria em dor íntima, descorresponder ao conceito ideário da unicidade matrimonial, socialmente desejável e espiritualmente inquestionável.

É dura a descoberta de ser quem é em um mundo que não é seu.

A idealidade mata sonhos e personalidades.

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