As Voltas da Bicicleta Mágica

Ali por uns 16 anos de idade, eu morava na periferia distante do centro urbano, quase no final da cidade. Estudava em um curso profissionalizante em período integral e à noite no colegial – agora ensino médio. Para estes, fazia uso de transporte coletivo. Qualquer outra coisa, ia de bicicleta.

Pedalava muito e muito rápido. Bicicleta de montanha, 18 marchas. Atravessava até 3 cidades em busca de praias. Ia aos fins de semana com amigos do curso integral, jogávamos vôlei e futebol. Não havia celular, internet era insípida e ninguém tinha.

Num dia qualquer de férias, montei na magrela e fui à casa do amigo mais próximo em metros e afinidades. Havia dois caminhos, cada um com três quadras e meia de distância. Fui por um menos movimentado, à toda velocidade, como sempre.

O trajeto foi percorrido em menos de um minuto. Eu morava em uma avenida com canteiro central, que saía em diagonal de outra avenida com canteiro, que separava nossas moradias. Os caminhos não eram simétricos, apesar de terem aproximadamente a mesma distância. Ainda era possível realizar duas variações dos caminhos principais. Bastante opção para uma distância facilmente percorrível à pé.

Ao chamar na casa dele (o berro pelo apelido era mais rápido que ir ao encontro do comando da campainha), sua mãe surgiu e disse que ele havia saído. Fora à minha casa de bicicleta. “Mas eu vim de lá”, falei. “Só se fomos por caminhos diferentes”, concluí com astúcia Sherlockeana.

Continuei na mesma direção, voltando pelo outro caminho, rápido como só sabia ir. Toquei a campainha e minha mãe surgiu. “Ele esteve aqui agora, e voltou para te encontrar”. Ora pois! Pois voltarei por onde vim.

Berro.

– Saiu daqui e foi pra sua casa, vocês não se encontraram?

Raios! É muito infortúnio. Disse que esperaria ali, então. Em dois minutos a questão seria resolvida. Passaram-se cinco, e nada. Voltei novamente por onde vim – processo logicamente infalível; Hercule Poirot teria orgulho, assertive mentalmente – e dei de novo no portão de casa.

– Não é possível. Ele ficou te esperando na calçada uns cinco minutos, quase. Vocês estão brincando?

Brincando sozinho, é como me parecia. A única prova da existência de outra pessoa no jogo eram os relatos maternais, que alternavam entre a comicidade e incredulidez.

Eu me sentia só. Um momento em que a dúvida maior surgiu, seguida de um fio luminoso de ideia que atravessa a consciência: de que tudo que existia era um grande cenismo; era eu a personalidade central, único ser observável e que agia segundo as próprias intenções. Todos os demais, meros intérpretes teatrais da deidade suprema. O próprio universo existiria em função de mim mesmo; por algum motivo, todos sabiam – menos eu. Como em O Show de Truman, que seria lançado alguns anos depois.

– Fique aqui, vou ligar para a casa dele e resolver isso, disse minha genitora. Mas como elas decidiriam quem iria esperar e quem partiria, pedalando rumo ao desconhecido?

Para mim, se tornou indiferente agora. Conjecturava sobre a assustadora possibilidade de eu-centrismo. Como poderia viver assim, sabendo de meu estrelato em filme único de protagonismo solo? Por que seria eu o escolhido?

A possibilidade de ser raro de algum modo, naturalmente vem à mente. Foi por isso que minha mãe disse algumas vezes que eu era especial, hein? Estava me dando sinais do elaborado faz de conta em que me via envolvido. O que me escapava era qual a finalidade disso tudo. Seria eu o único ser pensante do universo, rodeado de bots a serviço da inteligência divina? Que coisa estranha. Havia um cara mais velho na rua que recreativamente empinava pipa e tragava maconha. “Ainda bem que eu não fumava”, pensei agora. Eu realmente não precisaria, na época. Vivia sorrindo e divagando; salvo algumas épocas depressivas passadas, ainda vivo. Talvez o tenhas percebido daí, através da tela.

“Tudo isso é uma besteira”, pensei, esperançoso de acreditar no que eu mesmo dizia. Talvez seja algo muito mais simples: a bicicleta.

Costumava ficar horas sobre o selim do engenhoso veículo com marchas e sem motor próprio. É provável que eu adentre algum estado de transe, onde eu não perceba o que quer que seja. Eu não veria o que quero, mas o que seria permitido que eu visualizasse. Como um túnel de teleporte que só afetasse a mente do usuário, ao longo do percurso. Por isso eu não encontraria a pessoa.

Passou-me também a ideia de ela própria desaparecer da vista de outros, mas sempre houve pessoas que relatavam me ver passando velozmente com ela, como quem corre de um Tiranossauro Rex.

Desfeito o mistério, eu sorria ante a longa capacidade raciocinal que era a minha; como transitei pelos intrinsequitamentos abstráticos dos mistérios da vida, circulei por lá e ali, e retornei com uma resposta plausível, desludibriada da aparente obviedade da unicidade pensante universal, falácia conceitual destinada a iludir os menos perspicazes e mais vaidosos.

– É para você esperar, que ele está vindo pra cá.

Claro. Não me seria dada chance de comprovação empírica pós-formulação teórica. Coincidência, talvez. Mas como diz um amigo, “não existem coincidências”.

A questão solicitava continuidade investigativa, luz a detalhes incontempláveis à teorética então. Como seria a seletividade do que eu observava, quais eram os critérios? Eu só veria o que queria ver, ou isso era simplesmente escolhido a livre tino cômico para o humor divino? E se eu não visse algo, poderia colidir nele inadvertidamente? Aquela garota avistada à noite na avenida, quando eu voltava veloz do futebol noturno, que trajava mini saia e com região central da traqueia protuberante era mesmo uma garota? Quando um automóvel surgiu à toda velocidade cruzando um semáforo que lhe proibira a passagem, e por muito pouco não me atingiu, estava mes…

– Pô, moleque! Que porra foi essa? Eu vinha aqui tu tinha ido, eu voltava tu já foi. Caralho, não entendi nada.

Meu amigo parecia sorridente, bem-humorado, um pouco suado. Disfarçou bem. Ou realmente não sabia da bicicleta mágica.

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