Quando Menos é Mais

O sujeito roda pela rodovia, voltando do trabalho. Avista um local que julga adequado a saciar seu apetite alimentar, há tempos rogando-lhe audiência glutínica. Local à margem da rodovia, autoproclamado “rancho”, com alcunha remetente à pasta de milho enrolada na palha que envolve a espiga. Nosso personagem estaciona, e com água na boca, entra e pede por uma pamonha.

O encontro com a pamonha é profundamente alegrador; o aroma, que buscava-o lá fora, agora o inspira à felicidade com seu calor úmido de notas de milho doce e cozido. O paladar e o olfato transmitem-lhe sensível aumento de potência; sua garganta deglute facilmente o alimento que lhe preenche o estômago. A elevação da concentração açucareira no sangue levemente hipoglicêmico o equilibra e renova suas forças. A vida é boa.

A porção foi deliciosa, do início ao fim. O tamanho, agradável. Mas ele decide continuar a comer, talvez por fome; quiçá encanto pamonial causado pelo milho, de cozimento pontual e tempero perfeitamente equilibrado. Então o homem comete um erro a não cometer. Ele pensa:

— Pamonhas me alegram. Eu sou um comedor de pamonhas. “Pamonha e você, tudo a ver”.

E pede a segunda pamonha.

O encontro com a segunda pamonha é menos alegrador. Pois o comedor da segunda pamonha não é o comedor da primeira pamonha, modificado que foi pela primeira pamonha. Agora há mais açúcar no sangue, menos fome, mais milho no bucho. Mas, fiel à pamonha, como uma receita certa de felicidade, “quanto mais melhor”, ele pede a terceira.

Lá pela sexta pamonha, ele precisa parar. Ídolo do aumento de potência ao primeiro encontro, agora a pamonha começa a desarranjar as funções vitais; inicia-se um declínio de ânimo que o levará à morte caso continue comendo. E essa observação se aplica a outras coisas: como o casamento, por exemplo. A lua de mel quase sempre é como a primeira pamonha; depois de alguns anos, você já não aguenta mais comer pamonha. E aí você pede para comer um curauzinho. Então se percebe que não existe receita exata ou universal para a felicidade, e que tudo em excesso faz mal, enjoa ou dá menos prazer, sobretudo sob episódios repetitivos. Ele por si não é desastroso, mas frequentemente gozoso; a manutenção longa de um estado extremo de “muito demais” ou “pouco de menos” é que leva ao desarmônico infeliz.

Falar assim sobre relacionamentos faz pensar apenas em sexo? Mesmo entre amigos, o excesso da presença facilita brigas bobas e menor encanto na companhia. É útil à alegria da convivência ter vida própria, atividades à parte e estórias para contar, quando do reencontro das pessoas íntimas. A ausência faz falta, como a presença também. Distância é um dos temperos do prazer de estar juntos; aumenta o carinho, a percepção de valor dos instantes convividos a dois, os momentos de bom humor e a intensidade da paquera e do sexo.

De vez em quando acontece de o que mais querermos fugir de nossas mãos por entre os dedos, justamente por apertarmos demais.

 

(inspirado em um exemplo narrado pelo querido prof. Clóvis de Barros).

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