Como Pode Um Peixe Vivo

Com 15 anos de idade e tendo por única obrigação estudar e fazer algumas tarefas domésticas, o que eu mais fazia era me divertir. Posso dizer que eu me jogava. Realmente.

A atividade era uma travessia aérea sobre corda, chamada de “falsa-baiana”. Trata-se de exercício militar para transposição de vãos, abismos, rios e similares. Como o Escotismo é a aplicação de parte da rotina e filosofia militar não-bélica, desarmada e adaptada para civis menores de idade, este era um exercício comum, e fazíamo-lo com frequência e gosto. É simples: duas cordas paralelas, presas e tensas a dois pontos fixos distantes. Caminhas lateralmente sobre uma com ambos os pés, e seguras na outra com as mãos, acima de sua cabeça. É como uma posição típica de passageiro de ônibus em pé, segurando o “ferro de cima”, aquele que você não alcança quando tem dez anos de idade. Bem, deve haver criança que alcance, assim como quem não alcance a vida inteira, ficando restrito ao cilindro metálico fixo entre o piso e o ferro paralelo ao teto, ou ao que situa-se sobre o encosto dos bancos.

Talvez tenhas altura que não chegue à um metro e sessenta, e esteja identificado ao segundo coletivo segurante citado; mas é o exemplo mais comum e popularmente abrangente afim de ilustrar a atividade central do texto, que posso fazer? Não intentei agredir vossa inclusividade social, caro leitor desprovido de metragem vertical. Tudo bem, tomemos de outra imagem ilustrante à memória-imaginativa: um jogador de futebol a recolocar a bola em jogo com um arremesso manual da lateral do campo, após a mesma deixar o espaço demarcado de partida. Isso, boa lembrança.

Do mesmo modo, você pode dizer então que não tem um braço, ou os dois, e não cobraria um lateral assim. Mas também não andaria nesta falsa-baiana, então estamos quites.

Nossa inverídica-baiana, cujo nome não faço ideia de origem e parece que o google também não, tinha sua corda inferior aí a uns dois metros de altura sobre o chão de terra e restos de vegetação, fixa entre duas grossas árvores, quinze metros afastadas. Já fizemos tal atividade em alturas maiores e sobre valas de córregos, terrenos acidentados e outros. Era apenas um treino na sede, coisa simples. Um sábado vespertino escoteril e feliz, como tantos outros ao longo de dez anos em que vivi e transpirei a mais pura vida Escotista.

Nesta época, última década do século passado, não usávamos equipamentos de proteção como trava-quedas, capacete, óculos, luvas, ou mesmo um simples cabo de segurança. Era intensa a experiência de estar sobre cordas, contido pelos próprios membros, habilidades e juízo. Bons tempos; saber que você poderia machucar-se, e que tudo era real. O prazer e sensação de realizar o exercício eram de pujante felicidade.

Um de meus amigos íntimos adquiridos lá sempre animava o coletivo com brincadeiras e provocações, de modo agradável e bem-humorado. Sujeito muito querido por muitas pessoas. Seu nome era Mano. Na verdade, seu terceiro nome, último sobrenome. Chamávamo-lo Mano, Mané, Manolo. O preferencial era Mano, mesmo; amigável, simples e verdadeiro. Tal como o ser a que ele representava gráfica e sonoramente.

E foi ele a querer “inovar”, inventar, “reinar” (como diria minha avó), “causar” (como diz a rapaziada hoje em dia), e deu de saltar da enganosa-baiana no meio do caminho. Seu intento era a aterrissagem à moda gatoril, sobre as solas dos membros deambulantes, com graça, estilo, algum charme e muita masculinidade. Ao menos, é o que imagino que deve ele ter pensado em fazer.

O fato, caros amigos que leem, é que tal empreitada acrobática requer certa sequência de etapas, que mais valem por sua ordem que pela precisão cronológica. Deve-se tirar os pés da corda abaixo de você, ficando suspenso apenas pelas mãos, seguras à corda superior. Então, solta-se as mãos da mesma, se cai em posição de prego afundando em meio líquido, até o encontro com o solo. É possível a ocorrência de uma ralada na região glútea após o início da queda, e deixo à sua imaginação observativa em que se dá a referida fricção. Pode parecer gay, tudo bem, normal; mas à um homem é melhor assar a bunda que o pau.

Obviamente, após detalhada descrição, teorizas previamente à presente narrativa, que algo errado se sucedeu; alguém fez algo incorreto e se (…) rimou. Pois não é que o crustáceo soltou as mãos antes dos pés? E o velho ditado encaixou, não é? “Meter os pés pelas mãos”. A humanidade é quase sempre sábia nesses ditados de ponto de ônibus.

Após o encerramento do contato manual à corda superior, o fanfarrão fez impulso para lançar-se à frente, como quem pula de uma beira para baixo. A corda que o sustentava foi para trás (não era extremamente tensa, nota-se), então a segunda lei de Newton levou a metade superior de seu corpo para frente e a metade inferior para trás; a terceira lei falhou, e a primeira concluiu o serviço. Em outras palavras, ele rodou no ar, indo ao chão em posição de gato dormindo. Ou seja, deitado.

Houve um sonoro bater de caixa acústica no chão, aquele baque em tom grave, manja? Era seu tórax golpeando o pobre planeta Terra. Ficou um pouco atordoado (meu amigo, não o planeta), levantou-se e foi molhar o rosto em local um pouco afastado, pois ali não havia água. Quem sabe se mergulhasse de cabeça, pudéssemos produzir um poço artesiano, mas não rolou. O importante é que não se machucou; só uma arranhada no orgulho e um olhar atravessado do pessoal do Greenpace pela leve agressão meteórica.

O momento auge foi ao levantar-se, e denotar publicamente sua ilesabilidade material ao fato findo. Pus-me a galhardear, tal como regularmente fazia meu amigo saltante, agora batendo a poeira, terra e folhas que o abraçavam à revelia: “Ai, que burro! Soltou a mão primeiro!”, “como pode um peixe vivo viver fora da água fria”, “muito burro!”, “sem noção!”, todas exclamações de notório uso habitual do recém-erguido. Note-se que fui único a bradar-lhe tais incentivos dentre os amigos ali no momento. Fazia-o de cima do robusto vegetal, empoleirado feito mico no centro do dito.

Enquanto ele ia lavar-se, outro membro escoteiro aprontava-se para iniciar travessia, sob os conselhos do chefe de que não era para pular no meio. Após concluí-la, foi minha vez. Comecei a transposição sobre o trançado cilíndrico com habilidade, já que era dos maiores entusiastas físicos, bem preparados e habilidosos que já honraram aquele grupo escoteiro — de fato, eu era um atleta apaixonado, invulgarmente enérgico e empolgado membro do movimento fundado pelo britânico Robert S. S. Baden-Powell. Portanto a meio caminho, disse: “vou pular”.

O chefe ficou doido: “não pula! Não é para pular. Léo, olha: não – pula“. AH, achou ele que eu cometeria a mesma estupidez de meu amigo? De modo algum! Você tem de se pendurar na corda de cima, tirando os pés, e depois, já pendurado, soltar as mãos. Simples.

Meu amigo aterrissante de peito voltava do encontro revigorante de alguns autotapas de água fria no rosto e na cabeça, e ouvindo certa algazarra incomum, chegou perguntando o que houve, sendo informado: — o Leonard quebrou o braço.

— Mas o que ele fez?

— Ele foi pular no meio da corda e soltou as mãos primeiro.

Um pistoleiro que tentara matar Papacu disse, rememorando a consequência anal vingativo-punitiva de sua fracassada tentativa: “Como és duro sentir la triste dolor de una saudade”. Eu tinha toda a teoria e habilidade na cabeça. Era fácil imaginar o modo adequado de fazer. Eu era capaz de mostrar plenamente “how to do”.

E por algum carálio de motivo, girei ainda mais no ar que o primeiro Pokémon saltador; ia cair como uma colher cheia de doce de leite no chão da cozinha, na diagonal, quase “em pé”, só que de cabeça para baixo. Coloquei as mãos para receber o primeiro impacto, e a palma da esquerda transmitiu a energia cinética inercial (maldito Newton) pelo antebraço ao cotovelo, quebrando e luxando-o. Pois é. Saiu do lugar, além de quebrar.

Nem doeu tanto assim, sabe? É mais o susto, mesmo.

Já ouviu isso antes? Há situações em que isso ocorre, de fato. Tipo injeção subcutânea, e mesmo a famosa Bezetasil. Dói, mas é suportável. Por falar em injeção, tomei várias no hospital, a tal “Voltaren”. Os pacientes do meu quarto brincavam, dizendo que o médico havia ido viajar e deixado um recado para as enfermeiras, que dizia: “vou viajar, voltarei até semana que vem”, mas médico escreve em garrancho e elas entenderam voltaren no lugar de “voltarei”. E dá-lhe injeção no lombo dos pacientes da ala ortopédica. As vantagens dessa experiência internatícia foi saber como é ficar hospitalizado, valorizar mais minha saúde e reduzir significativamente o medo de injeção. Mais tarde, viria ainda a tornar-me frequente doador de sangue.

Àqueles de espírito mais cômico, esclareço que diminuir o temor é distinto a apreciar a dor. Em outras palavras, não gosto de tomar injeção. Dou preferência a medicinais orais — como uma puro malte a 10°C, por exemplo.

Neste ponto do conto, imagino-o curioso em saber que houve afinal em meu meio social após a estapafúrdia derrocada galhardeal. Certamente não ignoro o invulgar nível intelecto-cultural de meu leitor; pode ter-lhe parecido tentativa vã de ludibriá-lo, distraí-lo com a imaginação, o riso e a curiosidade desperta pela contínua investigação das inusitalidades ora apresentadas em letras organizadas. Sei que crê-me se lhe disser que a postergação narrativa, verificada por aparente fuga à sequência social de minha tragicômica e merecida queda, criando azo conveniente ao falar de minha ida ao nosocômio e esclarecendo detalhes médicos que menos lhe interessam que à chacota que possa ter ocorrido; ou à incarabilidade de minha face ao espelho tanto quanto as da assistência do peculiar espetáculo de falsa-baianidade, e ao médico de emergência inquirente dos motivos e fatos; digo que foram tardiamente citados nesta narrativa por opróbrio, mesmo. Permita-me um pouco de pecado, pois carrego certo orgulho no âmago — espécie de vaidade que já foi maior, mesmo nunca tendo tido para isso motivo que não fosse a ignorância sobre a própria grandiosidade da insignificância humana.

Voltemos à cena coletiva. Meu genitor era chefe de outra seção (a qual deixei quando atingi a idade limite) e estava em outro ponto do campo. Guiado pela movimentação e pelo barulho, alcançou o local e auxiliou minha ida ao carro. Queriam me levar carregado, mas ele disse que eu poderia andar. Teve boa percepção. “Um escoteiro caminha com as próprias pernas” é uma das frases do movimento, que me veio à mente. Foi bem mais honroso e digno; embora um garoto, eu poderia me carregar para consertar o que foi quebrado.

E não fui chacoteado, nem mesmo pelo primeiro quedante. A gravidade do ferimento impedia qualquer brincadeira. Ao menos, naquela hora.

Fiquei internado, fiz cirurgia para colocar um fio de aço, gesso, tirei o gesso e o fio de aço, voltei ao gesso e iniciei fisioterapia após removê-lo de vez. Fiquei ótimo, ainda tenho a cicatriz no lado interno do braço, oito centímetros. E continuei arteiro, saltador e autoarremessante: ainda iria me machucar várias vezes na vida, e assim é até hoje. Prefiro a dor da queda antecedida pelo riso da vida, à dor da vida vivida sem risco nem gosto de vida.

E esta é uma das ótimas estórias que meu amigo cai-de-peito conta em rodas sociais, quando a ocasião provocativa sugere; “que burro”, “sem noção”, “como pode um peixe vivo”. Rimos muito, outros também. É ótimo reviver na lembrança uma vergonha, molecagem espontânea com paladar de felicidade e sorrisos, que se repetem e multiplicam naqueles que ignoravam o famoso caso da dupla saltada malsucedida na fingida-baiana bendita.

E percebi que meu amigo desde sempre com propriedade falava e ria. Como pode um peixe vivo viver fora da água fria?

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