As Ruas da Manhã de Domingo

Antes das nove, os pássaros cantam, descontraídos e até bem à vontade. Acho que é por causa do ar sem fumaça, sem poeira, sem barulhos e pessoas apressadas, que mal reparam nos lugares onde passam.

Não se ouvem apenas vozes aviárias, mas variações em escala de tons, um aparelho Hi-Fi sem caixas ou amplificador. Notas musicais de prazerosa cristalinidade sonora, ora levados pelo vento suave, que os carrega e os acompanha, com seus suspiros vagarosos que chamamos brisa, tirando das árvores o farfalhar das folhas e acariciando o ouvinte passante, que em sua contribuição, vai marcando o tempo, com seu passo constante.

Do meio da rua, posso ver duas linhas paralelas ao horizonte se tocarem, pois elas só contrariam leis da física quando as massas preocupadas e desatentas se unem no mundo dos sonhos; e então desinibida, a geometria se permite criar novas combinações, a que os intelectuais e os tolos – duas faces do mesmo tostão – chamam ilusão.

E não são as pessoas, apenas por sua ausência, co-criadores de tal dissidência entre luz e razão. Mas antes, o abafamento de suas inquietudes, sonhos amiúdes, inexistência de terno nas atitudes. O que polui a imagem jamais será vida, mas a vida que vive vendo através de lentes de formato retangular; onde ter é amar, ser é aparentar, trabalhar é adoecer, estar offline é morrer.

O cheiro de pão… maroto aroma que faz das tranquilas veredas seu quintal, se divertindo por ali, aqui e acolá como quem não quer nada, e em sua serelepice, faz questão de passar pertinho de nosso nariz. Fosse outro meu destino, mudaria meu caminho, para ainda assim entrar naquela pequena fábrica de sonhos de ácidos graxos, açúcar e sabores, cujo delito é lançar ao ar inebriantes fragrâncias de bom dia.

– Sr. Willy Wonka da vida real, 100 gramas de queijo e 5 médias de sal!

Enquanto ensaca habilmente meu pedido, me ponho a escolher outros proventos que o enigmático-simpático dono da fábrica tem a oferecer. Um pão doce grande, um bolo para a tarde; Meus amigos dormintes me vêm à memória, pois em minha casa roncando se encontram agora.

Pego o pedido, pago com um sorriso e um muito obrigado. Na saída deixo pedaços de metal e papel, que são guardados em gavetinha basculante; ágil, a moça faz tudo em um instante.

Quem disse que agora, na volta, o mesmo caminho me espera? Meu GPS domingo de manhã não opera. Me perco, sem muitos planos, simplesmente vou indo; eis que o sol anuncia outro dia lindo.

E indo, assim, me lembro de muito que fiz, e tudo que farei; mas mais importante é o que faço, neste momento, em que uma pessoa é da rua o rei.

da série “past posts”, textos antigos não-publicados. Este é de nov 2013.

2 comentários em “As Ruas da Manhã de Domingo

  1. Caramba! Fico feliz de saber que no mundo existe alguém que percebe a vida dessa forma, com tantos detalhes, que consegue transmitir as próprias percepções (tão profundas) de uma forma natural e linda!!!

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