Mulheres Novas

É raro encontrar pessoas com mais tempo de vida, com o mesmo brilho de chama nos olhos. Comumente a vivência tritura as conjecturações de vida do infante e do púbere, restando o adulto maduro, endurecido e de esperança fina, moldado pelo gabarito da cidadania, aferido por direitos e deveres.

Ó, adulto! Vives para a sociedade, o cônjuge, os filhos, menos para ti. Diga leitor, quais teus sonhos caíram no meio do caminho, jazidos sob terra e pedras em algum trecho do acostamento?

Gosto muito de mulher até vinte e quatro anos, pela beleza e disposição física, os sonhos e encantos que cerneiam a voz alegre, viva, meiguice de chocolate quente, olhar, sorrisos e movimento do corpo que homenageiam a própria existência.

Já passei dos trinta. Tive tantos percalços quanto possível a este tempo, alegrias e tristezas que pareciam sem fim. A alegria no adulto é mais valorizada; raridade. Tristeza é mais profunda, séria, preocupante.

Não pude entender porque os encontros com os numerosos amigos reduziram-se à mais clara improbabilidade, ocupados com a construção de carreiras ou escravizados à variabilidade de horários laborais que ignoram suas necessidades, ou dedicados à namoradas, esposas. As barrigas que engordam e flacidam-se, a aparência envelhecida, a dependência de fermentados alcoólicos como item indispensável à socialização, mesmo quando entre amigos conhecidos.

Gosto de mulheres novas. Dezoito a vinte e quatro anos. Você as coloca sobre um skate, as conduz, e o misto de medo e prazer tornam-no inolvidável. O sorriso enorme se repete ao pedalar pelas ruas de uma tarde de sábado. Os cabelos esvoaçantes insubordinados à prisão capacetal expõem a nitescência, o vigor e a essência de viver, rodando sobre a motocicleta em caminhos antigos e originais ao casal. Imersos ao próprio instante: vida real, concentrada, desmestiçada de passado ou futuro.

Vivemos ali, cada momento de vida descortinado perante os paladares, fresco, irrepetível, simples. Nossa própria vida nos basta ao momento. Nosso suor de pular muretas, correr por correr de mãos dadas, levar um ao outro de “cavalinho” (sim, elas conseguem levar um homem, e se divertem com o desafio). Rir de bobagens, erros, esquecimentos, inusitalidades, lembranças, rir de prazer até durante o sexo. Se divertir “por esporte”.

Se o trabalho cobra seriedade — tipo particular de tristeza — por indissociar a ausência de alegria a comprometimento, fora dele podemos esquecer tudo e viver com brilho.

Maturidade nos atos e diálogo fazem-me bem ao coração, mas e a alacridade? A simplicidade, o corpo que vibra, dança e ri; onde está?

Nem nos homens a encontro. Saudade de quando meus amigos podiam correr, pedalar, jogar futebol e ir onde quisessem com os camaradas. Mas o estresse laboral, o abdômen saliente, a companheira ou comprometida, filhos, desânimo ou crença sociocultural o impedem. Me parece que seu significado de gozo está no automóvel, nas viagens, na bebida, em roupas e perfumes, nas fotos do Facebook. Todos gordos, tristes, com dores e aprisionados; sorrisos amarelos de dentes branqueados.

De meu lado, a maior parte de toda amargura vivida foi-me a lembrança da alegria passada. A memória boa tornou-se ruim por intensificar a tristeza do presente.

Me parece que ser feliz é virar as costas para a expectativa dos outros sobre si. É um caminho solitário dentre a multidão. A intensidade, a densidade da pura energia vital ocorre na observância dos próprios apreços, talentos, valores. É preciso ser um pouco mais livre para ser feliz. E necessário pagar o preço da incompreensão, do julgamento e da luta para ser livre.

Uma vida boa é para poucos indivíduos mais fortes que músculos, dinheiro ou status, possuindo-os ou não. Para quem descobre quem se é, de fato.

Outra vida me significa a morte. Viver sem sentir gosto de vida é viver morto, sem viço, esgarçado, esparso, fosco, empoeirado, acabrunhado, engolido.

A memória do passado vem-me como referência e deixo-a lá; nada irá se repetir milimetricamente igual. Agostinho lembrava: “lamente um pouco menos, espere um pouco menos, ame um pouco mais”.

Só sei viver vida viva.

E gosto muito de mulheres novas.

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