O Jeito Certo de Viver

Tanta gente cansada de apanhar da vida. A vida sempre baterá, mais forte e frequente do que se possa revidar. O cansaço da surra urbana é o da teatralização forçada. O jeito certo de viver faz uma pessoa que bebeu algumas doses chorar às quatro da manhã no canto da festa, aos brados responsivos de “minha vida é uma droga”, à indagação de amigos próximos. Ou mantém a felicidade com muitos litros de bebida alcoólica em qualquer lugar que seja, permeados por recados fotográficos aos invejosos no site de alguma rede social.

Há quem tenha seguido a receita dos net profiles e praticado cada passo dela. Um tanto de sorrisos, toques de maquiagem, uma ou duas liposucções (substituíveis por introduções fármaco-químicas subcutâneas lipo-localizadas), um veículo caro; imagens de Paris, Fernando de Noronha, piscina borda-infinita e cachorro de raça, crianças socialmente fragilizadas amparadas por seus braços e recursos financeiros. Óculos de marca, tatuagens e adereços em profusão.

Todo mundo quer fazer um bolo de chocolate diferente, ao seu gosto, usando as mesmas instruções.

Quando o preparado não dá “liga”, se tenta repará-lo. Use mais cartão de crédito, frases tristes para obter atenção alheia à sua “massa”. Disque-guru, self-help books, se perca na noite. Publicáveis frases batidas, fotografadas sobre bases de cores diferentes e opostas contra flores ao fundo obtêm alguma melhoria. Ou não.

O roteiro da preparação do bolo pode não estar errado. Antes de lê-lo, já pensou se você gosta de bolo de chocolate? Considerou se você ao menos gosta de fazer algum bolo?

Felicidade: um regozijo interior com o que é. O que vem de dentro dispensa celular para registro destinado à publicidade vulgar; se basta por si mesmo. A necessidade imperativa de divulgação é um indicativo de sua insuficiência.

Quando experimentas plenamente, por inteiro, não há outra coisa em mente que não o próprio momento. Não há compartilhamento de afeto incompartilhável. Ao sol poente, sua emoção única reduz a ninharia comunicativa o vocabulário verbal e visual destinado a expressá-lo. É patente vossa débil capacidade em fazer-me imaginar e sentir o que tú sentes no momento.

Ao tentar, posso imaginá-lo como prazer, quando por dentro o vazio da falta da pessoa amada ao lado lhe domina, e as lembranças do fim dos encontros lhe causa dor e pesar. Não penso que vender felicidade deste instante lhe fará sentir feliz. Quem sabe até aumente o frio de sua distância daquilo que você realmente queria.

O que escraviza teu jeito de ser? Qual é a tua verdade de viver?

“Veja menos TV”, algum pássaro sussurraria a você. Um voador antigo, próximo da aposentadoria, pois a internet é a nova TV; dotada do mesmo poder mágico de hipnotizar pessoas, agora em alta definição, mais canais, interativa e acessível na palma da mão.

Sua infelicidade sub-social é da vida que não é a sua, no único tempo que tens, a serviço de um sistema de pirâmide financeira cujo único propósito é enriquecer mais os que já são ricos.

Há uma diferença entre o escravo antigo e o moderno; o primeiro era involuntário.

A curiosa estória da tragédia feliz de uma vida triste sem sentido sentido.

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