Arco-Íris

A antigos gregos tratava-se de rastros deixados pela deusa Íris, esposa de Zéfiro, deus da brisa e dos ventos, demarcando a trajetória percorrida pela estafeta dos deuses em serviço entre os humanos e deidades, abastecendo de água coletada dos mares e lagos as nuvens, e de mensagens divinas os mortais. Possivelmente ela só mensageava quando chuva e sol se encontrassem, fenômeno raro. Ao islamismo, judaísmo e cristianismo, tratava-se de contrato ostensivo entre Deus e a humanidade, onde não mais morreriam pessoas por inundações ou dilúvios após a arca de Noé ter cumprido sua função. Me faz presente a impressão, de que as cores celestes diurnas semicirculares precedem em muito a existência de livros e seres humanos, assim como filhos de Deus continuam sendo mortos em inundações, vindas de precipitações intensas ou por invasão de oceanos sobre continentes.

Vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Em diferentes línguas é chamado de arco-no-céu, arco-de-chuva ou arco-íris, como no português e espanhol. Este último nome é mais científico, pois íris é o espectro luminoso decorrente do fenômeno de difração da luz alva ao passar por uma barreira, abertura ou fenda. A luz do sol é branca, soma de todas as suas infinitas cores. À nossa visão, sua tonalidade varia ao longo do dia conforme é filtrada pelos fluidos que compõem a atmosfera, separando os tons. A camada de ar que envolve a nós e ao planeta é heterogênea em diferentes concentrações de gases, partículas sólidas e vapor d’água, bem como a distância percorrida pela luz solar para chegar até nós é mais longa, conforme o sol aproxima-se do horizonte. Quando o astro-rei está no alto, as cores formadas pelas ondas lumínicas de maior amplitude — que vão do vermelho ao verde — contornam as partículas e moléculas de gases que constituem a atmosfera. Violeta, anil e azul, as ondas de menor amplitude, não conseguem desviar e se chocam, alastrando-se. Preenchem o céu de tons frios, azulados, enquanto o sol nos parece amarelado, soma das cores que chegam a nós: vermelho, laranja, amarelo e verde. À progressiva descida da carruagem de Febo, seus raios percorrem um caminho maior na atmosfera, encontrando mais filtros e obstáculos. Ao crepúsculo, mesmo as ondas longas de laranja e vermelho trombam nas moléculas e partículas e desviam-se, avermelhando gradativamente o limiar do ocidente, enquanto o restante do céu continua azul. A vermelha é a última onda de luz que consegue cruzar a atmosfera e nos alcançar, então o sol se nos apresenta rubiáceo. E o firmamento enegrece-se com a ausência de luz, sem qualquer cor ou espalhamento dela: a fonte luminosa encontra-se além do horizonte.

E as nuvens? Compostas de vapor d’água, formadas por partículas maiores que as de nitrogênio e oxigênio — os gases que, juntos, compõem noventa e nove por cento da camada gasosa que envolve nosso planeta —, acabam por formar barreira à todas as amplitudes ou cores de luz, refletindo, absorvendo e espargindo-as; eis que as nuvens se apresentam na cor branca, que é a soma de todas as cores. E nos parecem enegrecidas, quando várias delas se sobrepõem, em formações que alcançam quilômetros de altura, de modo que apenas uma parte menor da luz solar consegue atravessá-las e chegar até nós.

Voltemos ao arco de orla externa vermelha e borda interior violeta.

Fenômeno óptico ocorrido entre luz solar e água em suspensão aérea, dispersando a luz nívea em infinitas matizes; tema de desenho animado envolvendo ursinhos de diferentes personalidades e modos carinhosos de ser; símbolo da diversidade humana e sexual. Gays e congêneres o usam para comunicarem de modo pacífico e público os locais onde podem ser eles mesmos, em toda sua essência. Onde todas as luzes podem brilhar, para muito além de branco, preto e cinza.

Escolha precisa. Pessoas amam cores, especialmente quando se divertem. Crianças adoram arco-íris, cães de todas as raças, amigos de muitos tamanhos e o conjunto dos lápis da caixinha de papelão. Algumas trazem doze opções, outras vinte e quatro. O sonho especial de um pintor mirim é dispor daquela pequena arca com trinta e seis rolinhos de madeira, recheados cada um com um poder mágico diferente de materializar memórias e solidificar imaginação. Os adultos referem a ele como “lápis de cera aglomerada e pigmentos de cor”. Definição sem graça ou sentido; sem cor, mesmo.

A palavra “gay” remete em inglês à pessoa alegre e jovial, vocábulo originário do francês medieval gai, além de sexualidade homoafetiva. Há três características em seres vivos que apresentam valor prático acentuado à convivência: boa educação, caráter e humor. Vivem entre nós pessoas que se destacam em todas as três, de diferentes afetividades.

Me é triste, sinal de atraso e pouco desenvolvimento intelectual e social, discriminar socialmente pessoas por sua sexualidade, gênero ou cores de pele, olhos ou cabelos. A fé religiosa e suas instituições separam os seres, com a pretensão de definir o que a sociedade deve seguir. A mesma Instituição que já determinou a caça, tortura e morte de povos inteiros sob alegação de “satanismo” e “bruxaria”, o extermínio de gatos pretos por serem servos do demônio. Gatos foram mortos por serem gatos e pretos. Obrigou crianças a sentarem sobre a mão esquerda em sala de aula no intuito de evitar que produzissem atividade gráfica escolar com ela, certo que a maioria escrevia com a mão oposta, em que fazer o contrário da generalidade significaria antagonismo ao Divino, louvor ao “Canhoto”, anjo decaído. Tudo em nome do proprietário, presidente, criador e pai de tudo que existe. Tudo a fé vê em branco e preto, certo e errado. Cada segundo de vida é repleto de escolhas e contextos complexos e relativos com muitas cores e tons, intraduzíveis ao binômio inaplicável de sim e não. A religião se crê detentora de poder sobre a vida de todas as pessoas, não só as de seu rebanho. Ainda vivemos a Idade Média.

Tu ignoras se a própria vida é salva por um médico homossexual, ateu, judeu ou de pele escura. E quando se é servido, ensinado, inspirado ou auxiliado por distintos juízes de Direito, padeiros, motoristas, professores, artistas favoritos.

É improvável que o respeito faça reinado em sociedade quando há uma lei tida como de autoria do dono, autor e regente do universo, dizendo que quem nasce de modo diferente ao por ela determinado não possui os mesmos direitos. Que quem tem outra fé ou não a tem age indissociavelmente a serviço do Mal, vai para o “Inferno”, e portanto, vale menos e é má influência.

A tirania e a mediocridade, outro nome para covardia, andam de mãos dadas.

Podes talvez ter receio de que a influência da natureza de alguém possa modificar a tua. Tenho a firme sensação de que a essência de um ser humano não é alterável como a personalidade. Entrementes seja possível que teu temor possa ter fundamento, caro leitor preocupado: quando vossa própria natureza homossexual ou bi grita para exercer-se e te fazer feliz, pois do mesmo jeito que um gay sabe e sente que é homossexual, o hétero também. Tens dúvidas sobre você mesmo, a pessoa a quem mais conheces na vida?

E como há autoduvidosos; em profusão. Toda cidade média e grande possui a “rua das prostitutas” e a “rua dos travestis”, próximas entre si. Geralmente a rua de trás, paralela, ou às vezes calçadas opostas da mesma avenida. Transita-se por um corredor onde o cardápio está em ambos os lados. Qualquer reportagem de TV, revista ou internet ocultamente filma, e explicitamente mostra, que os clientes predominantes de ambas são os mesmos: homens não efeminados casados com mulheres.

É foda quando tuas ideias não correspondem aos fatos, não é?

É preciso coragem. O ator da vida real é fraco, covarde. Pusilanimidade adubada por todas as Instituições, agentes tirânicos da alma social humana. Possibilidade: olhar um pouco mais para a Terra e um tanto menos para a imaginação fantástica de livros e pessoas autoproclamadas representantes legais de seres invisíveis. Paz e amor ao próximo ingenuamente se crê constituírem exclusividades teológicas. São antes constatações intelectuais de raciocínio e prática do melhor caminho ao convívio longo e significante, distante da selvageria natural biológica. O mundo em si tem muito mais respostas que qualquer livro ou texto na internet; já a fantasia imaginada é ilimitada, agradável, moldável, conveniente, confortável. A vida de fato é dura, insensível, indiferente; por isso o devaneio quase sempre a vence em anteposição nas mentes hominídeas.

Uma Antologia da Predominância Humana daria uma obra de fumaça, fuligem e rancor.

A quem possui um cérebro para pensar, um coração para sentir e olhos e ouvidos para observar e escutar, mantenha sempre hasteada sua bandeira de vida, amor e sentido de existir. Encontre sua alegria, seja inteiro, autêntico. E assim, como não somos robôs ou formigas, nossa existência ocorre em um oceano de diversidades.

Insosso o mundo, se existisse somente um tipo de flor e todas as cidades fossem iguais.

Um dia antes de publicar este texto, uma amiga revelou-me que a abóbada policromática sempre surge em seu aniversário, na estreia de fevereiro. Quando criança, seu pai a acordava às seis horas desse dia para lhe mostrar o arco-íris. Após este homem ir, anos depois, levado pela mensageira divina, cria a garota que o semicírculo mágico jamais tornaria a resplandecer. Mas enganara-se, Íris continuou a lhe saudar ao entardecer.

Isso tocou-me profundamente. Quando há momento mais fantástico e importante que ser acordado por seu pai às seis da manhã, para com ele viver tão simples, profundo e eterno instante?

Observam-se as pétalas, os aromas, sorrisos, sabores e amores. A vida boa é colorida, e mesmo triste, plena de cores.


PS: Algum tempo após ter publicado este post, assisti na internet a um vídeo de 2018 de uma propaganda de lápis coloridos, quando percebi o quanto ele me emocionava e remetia a este texto. Assim, embrenhei-me em pesquisar (esse comichão inincoçável) para apresentar aqui este texto extra. Diante da leitura de “Arco-Íris”, imagino ter sido a tua personalidade adulta ora estimulada. Assim, para encantar e inspirar um tanto mais a beleza e essência nobre dos sentimentos únicos que são os teus, assista com os órgãos viso-auditivos e sinta com a alma a dois vídeos distintos:

Faber-Castell — Aquarela (1983) “Versão Original” — 1:01 min

Faber-Castell — Caras e Cores (2018) — 1:01 min

(copie ou digite cada título no Youtube)

Há uma versão de 1995 do comercial, que particularmente me pareceu menos graciosa em relação aos citados, por isso não a mencionei.

Curiosidade: a versão original da canção é italiana, produzida e gravada pela gravadora Maracanã, também italiana, e composta inicialmente no Brasil por Toquinho (violão) e Maurizio Fabrizio (piano). Fabrizio veio ao país especialmente para compor uma série de músicas para o álbum de Toquinho a ser lançado em 1983 na Itália, o “Acquarello”. Uma vez em terras tupiniquins, realizou produtiva parceria com o brasileiro Antonio Pecci Filho, cujos pais eram descendentes de imigrantes italianos. Quando pequeno, Pecci era chamado por sua mãe de “meu toquinho de gente”, indissociável apelido carinhoso pelo qual ficou conhecido em vários lugares do mundo: Toquinho.

Toquinho - Acquarello

Ao contrário do que é amplamente divulgado, Vinícius de Moraes, amigo e maior parceiro de Toquinho, não teve participação direta na criação desta canção, mas em uma anterior, chamada “Uma Rosa em Minha Mão”, do álbum Boca da Noite, de 1974, parte da trilha sonora da telenovela brasileira Fogo Sobre Terra, e que foi parte da base para a criação de “Acquarello”, sendo a outra parte contribuição de Mauricio Fabrizio. O álbum de mesmo nome lançado na península itálica possuía no total dez faixas, metade delas músicas em italiano e metade eram outras músicas em português. Toquinho nada vira demais na Acquarello, que considerava como “de meio de disco”; opinião da qual aparentemente ninguém compartilhava. Consideravam-na fantástica.

Fabrizio fez os arranjos quando voltou para a Europa da viagem ao Brasil, e as letras foram criadas depois por Guido Morra (lá onde se inventou a pizza, mesmo). Interpretadas em italiano na voz do próprio Toquinho — que desde 1969 com Chico Buarque de Hollanda já realizava trabalhos musicais, se apresentava em shows e gravava discos na Itália, sendo então bastante conhecido — se tornaram sucesso em vários países, tendo “Acquarello”, canção que abre o álbum e dá nome a ele, alcançado destaque especial. Tal reconhecimento estimulou-o a criar uma versão em português dela, para a qual, no fim, ele não se animou muito em lançar. Pois segundo o próprio, ela possuía uma letra longa e sem refrão, que não daria em muita coisa na sua terra natal. Então, à época de sua gravação, soube por acaso do quão a versão original fora bem-sucedida lá no país em forma de bota. O diretor de sua gravadora brasileira lhe chamou e perguntou:

— Ô Toquinho. Quero falar um negócio com você. Você conhece um tal de “Toquinho” lá na Itália?

— Por quê? — indagou o músico em resposta.

— Ele está em primeiro lugar lá, quem é esse cara?

Rindo, Toquinho respondeu:

— Sou eu, mesmo!

Segundo ele, a parca comunicação mundial naqueles primeiros anos da década de 80 se explicava pela inexistência de telefone celular, internet ou fax. Ainda sem muita crença, com apoio das poucas pessoas que a ouviram durante as gravações no estúdio, decidiu incluí-la em seu disco no Brasil e obteve repercussão igualmente estrondosa, ganhando disco de ouro em “Aquarela”, como ganhara por “Acquarello” na Itália e em todos os países pelos quais iria passar. Imortalizada na propaganda brasileira da multissecular fábrica alemã de lápis, tornou-se alvo de petição pública compulsória nos shows do artista até hoje, incluindo pedidos de bis.

O álbum “Aquarela” trazia treze faixas em português, com a faixa-título abrindo o lado B, ou sendo a sétima execução se tivesse sido lançada no tempo dos CDs. Nenhuma das músicas se repete entre os discos em cada país exceto a música-título, embora com letra traduzida. Lançado em 1983.

Toquinho - Aquarela

Toquinho também a faria em espanhol. Lançou na Espanha, também em 1983, um compacto simples com apenas duas faixas, “Acuarela” e “O Bem Amado”.

Toquinho - frente

Toquinho - verso

Vasculhando a internet, não consegui encontrar nada mais sobre o álbum “Acuarela”, nem sua imagem. Talvez um dia eu encontre.

Ainda durante as pesquisas, soube que segundo nossos irmãos argentinos, eles preferem a letra em português, que traz outro significado, muito mais belo. Os italianos dizem que o texto em nossa língua é perceptivelmente melhor, com métrica mais apurada e ainda mais poético. Como bem o sabem os apaixonados pelas Letras, para se traduzir versos e frases, mantendo as rimas e métricas que proporcionam beleza sonora e musicalidade encantadora, é preciso alterar palavras, a ordem em que surgem e inevitavelmente um pouco do significado geral. São três letras musicais diferentes, afinal. De todas as opções, gostei mais da brasileira. E tu?

Canzone “Acquarello” – Toquinho (1983) – 4:18 min

Canção “Aquarela” – Toquinho (1983) – 4:15 min

Canción “Acuarela” – Toquinho (1983) – 4:17 min

Um beijo a você, um sorriso brilhante e um abraço sem muita pressa. Que a bebida no copo esteja gelada, que o líquido na xícara esteja quente, e você tenha sempre um bom motivo para mostrar feliz, os dentes.

2 comentários em “Arco-Íris

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