Eu Te Amo

Ao ouvir esta frase, interpele o locutor: – a que você se refere?

“A um sentimento positivo quanto à sua existência, ao conjunto psíquico-físico que tendencia à redução de distâncias entre os corpos e potencialização de suas afinidades.”

Possivelmente adequada à todo gênero deste sentimento, amplo e inespecífico, tal resposta pouco explica sobre a natureza intrínseca do que seria “amor” ao amante indagado.

Por definição trata-se de sentimento, e portanto não se pensa amar, se sente amor. O pensamento sobre amar age à maneira de imitação consciente, racional e habitual, que recebe o nome de moral no âmbito individual, ou ainda ética da convivência, na esfera coletiva. Assunto para alguma prosa em conversa de outro dia.

Indagando desde sempre, a humanidade percebeu origens diversas ao amor. Na Antiga Grécia, explica a História, o “desejo” era o impulso por aquilo que não se detinha e fazia falta ao ser. A este desejo dava-se o nome de Eros. Este afeto era representado pelo deus de mesmo nome, seleto protegido de Afrodite, deusa da Beleza e do Sexo. Comumente é considerado filho desta, embora haja diversas versões acerca de sua filiação. Conhecemos Eros por Cupido e Afrodite por Vênus, influência cultural posterior romana. Eros é portanto, desejo. E o desejo existe na falta; na distância, na ausência, na insuficiência, no sonho.

Sendo a cupidez sexual por certo intensa e aguda, é a referência primeira ao significado das palavras desejo ou eros, erotismo, erótico. Para os antigos habitantes da Grécia, o “amor erótico” existe em todo desejo por algo, como pelo abraço do amigo querido que não se vê há tempos, o leito confortável quando o cansaço e o já distante ocaso do carro de Apolo seduz-lhe a alma para o reino de Hypnos. Pela paz da brisa do campo ao som de folhas farfalhantes e sinfonias aviárias, à vista de colinas gramadas enfeitadas por flores e contornada por rio cristalino vicinal a cabana aprazível, rusticidade que o coração metropolitano fatigado exige; pelo sorvete de chocolate após o almoço de domingo ou o copo de água gelada como prêmio à conclusão de caminhada longa sob calor tropical.

Já aquilo que é destinado especificamente ao sexo chamamos de afrodisíaco e o referente a ele de venéreo, derivado de Vênus. “Doenças de Vênus”. Antigamente usava-se o termo “camisa de Vênus”, substituído por “condom”, “camisinha” e atualmente “preservativo” à vestimenta peniana destinada a evitá-las.

Um outro amor era a Philia, ou “alegria”. Regozijo com o que tem, prazer no presente, contentamento com o que é. Filiação, agregamento, união, sentido de duradouro. Amor pela esposa que lhe acalenta, pela casa em que mora, o veículo que possui, pelos amigos que estão em seu quintal comemorando, pelo trabalho em que passa oito horas diárias. Satisfação de tônus crônico, intensidade diluída por momentos mais prolongados. Alegria pelo que não está em falta; amor na presença.

Ambos “amores” ocorrem por toda a vida. O desejo pelo que não tem ou está distante, como a ânsia pela instalação do aparelho de ar-condicionado para o repouso noturno no alto verão, ou o encontro da pessoa querida que foi morar a mais de cinco dezenas de quilômetros; a alegria pela cama que tens na qual dormes satisfatoriamente, e pelo vizinho de tantos calendários a quem cumprimenta e proseia um par de dedos com entusiasmo e bom humor.

Séculos à frente, surge um terceiro amor. E antes de explicitá-lo, há uma ressalva contextual.

Os antigo helenos, habitantes da Hélade – o nome Grécia foi dado pelo povo romano, que os suplantou em 146 A.C. – há mais de dois milênios, acreditavam tal como outros povos pelo mundo, que tudo no universo tinha uma função, um lugar e uma razão de existir. A este ordenamento universal era dado o nome de Cosmos. Portanto, cada pessoa nascia com um papel a cumprir em sua existência. Cabia a ela descobrir qual era e aperfeiçoá-lo ao máximo, em busca da excelência de sua execução. Fosse intelectual, artista, guerreiro, deveria dedicar sua vida a desenvolver seus talentos, sendo útil ao mundo e alcançando a felicidade, como uma engrenagem perfeitamente alinhada e funcional de um mecanismo universal e complexo. A esta felicidade chamavam eudaimonia. A vida de alguém seria julgada como justa e adequada em sua totalidade vivida, na medida de seu encaixe à própria vocação cósmica. Sua negação seria hybris, pecado grave do excesso, o que passa do equilíbrio, descomedimento, desagrado aos deuses contra o Cosmos, desarranjando a ordem do universo. Assim como cada deus possuía sua função, cada ser sobre a Terra também a tinha. Se não tivesse talento, restava a este servir os talentosos, trabalhando. Em outras palavras, a escravidão era vista como necessária à vida boa e ao bom ordenamento cósmico, pois neste sentido o talentoso não agiria senão exclusivamente em desenvolver a própria potencialidade.

Não haviam “direitos humanos” ou nada parecido. O mundo era ainda mais brutal, dominado pela força física, misticismo e guerras.

Eis que surge então o amor cristão do judeu Jesus, amor Ágape: o direcionamento consciente para o alcance de Eros e Philia pelo outro, e não mais por si apenas. Trata-se do auto-sacrifício de seus erotismos e alegrias particulares em favorecimento de outrem. Qualquer outrem. É o olvide de sua plena realização existencial terrena em nome de alcançá-la posteriormente de modo ininterrupto no céu.

À luz do conceito ora vigente, ilustrava-se afirmativa desprovida de qualquer réstia de sentido, além de ignorar a ordem do cosmos. Por constituir valor de dissidência colossal ao estabelecido, originou desde então perseguições, disputas, genocídios e guerras.

Todo o mundo moderno é influenciado em sua organização social e legal diretamente por este amor. O pensamento cristão sobre a vida tem por base o de Platão e seu Dualismo (mundo das ideias, inteligível; e mundo físico, sensível), constituindo juntos, os mais influentes pensamentos na biografia antropológica. Desde a Guerra da Independência dos Estados Unidos da América culminando na Constituição Americana de 1776, que em seu preâmbulo afirma “…Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade”, a qual influenciou a Revolução Francesa e a consequente Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, em 1789, com o lema “liberté, egalité, fraternité”, incentivando a criação de códigos de direitos civis bem-sucedidos pelo mundo, como o Código Napoleônico de 1804. Após a Segunda Guerra Mundial, a ONU consagra a versão francesa em um documento atualizado composto de trinta capítulos, chamado “Declaração Universal do Direitos Humanos” em 10 de dezembro de 1948, determinando-se como referência aos capítulos de Direitos Fundamentais Individuais e Sociais nas Constituições Federais em países de todo o planeta. No Brasil, sua constituição vigente data de 1988, a sétima de sua história, que dedica inteiro ao tema o Titulo II – dos Direitos e Garantias Fundamentais. Tudo para mitigar as possibilidades de guerra e encaminhar o mundo para o mais possível e progressivo enlace pacífico entre as pessoas e povos.

Ágape venceu, suplantando o Cosmos defendido e tão bem explicitado por Aristóteles, cuja organização social conhecemos por Aristocracia, o poder exercido pelos talentosos e capazes. A Democracia moderna, fundada nos Direitos Universais Humanos e regida pela ética da convivência, extingue progressivamente o sistema anterior, a Democracia grega, ordenada pela ética das virtudes, baseada na separação da sociedade em cidadãos talentosos, escravos e estrangeiros.

Há ainda um quarto amor. Enquanto os três primeiros são entendidos como influências divinas ou metafísicas (aquilo que existe apenas pela crença em algo imaterial, desenhado e definido segundo a imaginação) baseadas na ideia de Dualismo (céu e terra, mundo espiritual e mundo material), este é puramente terreno. Tem em Nietzsche seu expoente mais conhecido. É o amor Fati.

Eros e Philia direcionam-se para o cumprimento da ideia de Cosmos: exercer sua função específica decidida desde o nascimento, em razão dos talentos inatos. Ágape diz que o bom é agradar a Deus amando ao próximo como a si mesmo, sacrificando-se em favor do irmão, esquecendo a felicidade na terra em favor da eternidade de gozo no além. Fati é amar o mundo como ele é. Trata-se do oposto de querer “transformá-lo”, seguir uma ideologia obrigatória de burilar os talentos, ou sacrificar-se por um deus em troca de passaporte e reserva no paraíso invisível. Significa negar-se a que enfiem goela abaixo um conjunto de valores e concepções alheios aos teus. Ninguém em tua vida lhe faz uma pergunta de como queres viver, o que quer fazer ou acreditar; empurram verdades e obrigações iguais para todos que nada tem a ver com sua felicidade, único que é dentre todas as personalidades existentes. Fati é viver a vida em plenitude, da forma que só você pode decidir, enxergando os fatos ao seu redor e não fantasias ideológicas. Andar com as próprias pernas, e não apoiando-se em muletas metafísicas. Viver a realidade da terra, e não as do céu. Assim, todo “ismo” constitui-se em ausência deste amor: idealismo, romantismo, capitalismo, cristianismo, judaísmo, espiritismo, islamismo, socialismo, comunismo, machismo, feminismo, absolutismo, iluminismo, humanismos, direitos humanos.

Particularmente, não acredito em ismos. Creio em mim, com minhas falhas, forças e fraquezas.

O termo Niilista, que popularmente refere àquele que nega o céu, a divindade e o além, tem para Nietzsche e os filósofos desta linha de pensamento desde a antiga Grécia, a acepção inversa: de que Niilista (negador) é justamente o que nega a terra, ignora as próprias potências e pulsões em nome do céu; refuta o aquém em nome do além. Opta pelo “lá” em detrimento do “aqui mesmo”.

Neste momento, naturalmente, a questão sobre qual amor estaria de posse da posição de sentimento mais adequado surge.

Quando anseias por teu deslocamento corporal em direção de reencontro gozoso ao litoral de estética costeira onírica, tens o coração atingido pela seta de Eros. Flechada então vossa bomba muscular mediastina enquanto localizado dezenas de quilômetros para o interior continental, és capaz de sentir tocar-se pelo calor do sol e o frescor do mar, a brisa oceânica percorrer teus contornos movimentando-lhe os cabelos, o aroma da água salgada, a areia clara e fofa que torna-se escura e dura no encontro das ondas. Deseja-o em cada respiração, entre momentos conscientes e irrefletidos; apenas sente a falta. Eros toma-lhe a essência e transuda-lhe o espírito.

No momento oportuno adiante, quando com a consciência tranquila de preocupações ou culpa encontras a massa líquida salgada e refrescante de milhões de litros a seu redor, com um arpão em mãos para obter o próprio almoço em meio a abundante fauna marinha – adorno e complemento à flora que embevece-lhe os sentidos -, Philia-se ao mundo tal como ele é, e Fati lhe sorri. É possível que um filho, amigo ou desconhecido tenha precisado de sua energia e presença em uma situação especial de festa, tristeza ou emergência, motivando a interrupção do percurso rumo a seu encontro subaquático com a vida a caminho da praia, para atender à necessidade desse outro, carente de alegria. Restringe então a si próprio pelo sentimento de compaixão em proveito de outro. E Ágape resplandece, satisfeito.

É o universo detentor de possibilidade invencível de entristecimento, extraordinariamente capaz de acabrunhar nossa potência vital, e infalivelmente nos conduzir ao fim de nosso próprio espetáculo. E assim, o ser humano idealiza verdades e concepções para transformar tristezas em alegrias, tábua de salvação ao náufrago da vida oprimida pela angústia existencial de escolher; afundado pela própria liberdade, insustentável leveza do ser.

Entretanto, ocasionalmente o encontro com o mundo é a própria perfeição de vida. E a encontras em passeio matinal de domingo no sorriso do garoto que acompanhando o pai, segura um picolé na mão e com a outra, encantado, aponta e comenta sobre os diferentes pássaros que os sobrevoam na alameda arborizada calma e paradisíaca, momento Fati de pura Philia.

Amor Eros, Philia, Ágape, Fati. De impressões agudas ou crônicas, na presença ou na falta, baseadas no céu ou exclusivamente na terra. Dentre as de idealidade coletiva (nobreza) ou desejo (sua versão autêntica), agem à moda de energias com o poder de mover o mundo, arrastando, seduzindo ou inspirando milhões de pessoas e realizando colossos, de tal forma que seus sentimentos impregnam a História e continuam tocando corações e almas de gerações posteriores. Toda forma de amor é justa, compondo os momentos de plenitude com a vida que se apresenta, ou com a existência obtida através do esforço e dedicação que transformam você em uma versão aperfeiçoada para si e a convivência, criando uma experiência melhor de mundo na sua vivência.

Sob o prisma de Eros desejo tua presença, seus olhos encontrar e no sorriso de um passeio lhe encantar. Em Philia, animo-me em saber que existes, que estás aninhada em meu colo suavemente, quase dormindo, enquanto a chuva rege sinfonia no telhado e o seriado na tela nos inspira, relaxa e diverte. Ágape move-me para ajudá-la se precisa, sacrificar-me por ti, repartir quando insuficiente, manter elevado teu valor a seus próprios olhos. Fati diz que é como deveria ser, quando penso em tudo e vejo-te ir ao fim de um dia para inéditos eventos em outros lugares viver e novas estórias, brilhos, saudade e momentos intensos trazer.

Quando alguém afirmar eu amo você, talvez alguma vez pergunte-se “o que esta pessoa quis dizer?”

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