Eu Te Amo

Ao ouvir essa afirmativa, interpele o locutor: — a que você se refere?

“A um sentimento positivo quanto à sua existência, ao conjunto psíquico-físico que tendencia à redução de distâncias entre os corpos e potencialização de suas afinidades.”

Possivelmente adequada a todo gênero deste sentimento, amplo e inespecífico, tal resposta pouco explica sobre a natureza intrínseca do que seria “amor”, ao amante indagado.

Por definição, trata-se de emoção. Logo, não se pensa amar; se sente amor. Amor é sentimento, sendo assim, um fenômeno irracional. O pensamento lógico sobre o ato de amar, age à maneira de imitação consciente, racional e habitual, do afeto de quem ama; “já que não ama, aja como se amasse”. Este agir intelectivo recebe o nome de moral, no âmbito individual, ou ética, na esfera coletiva. Assunto para alguma prosa, em conversa de outro dia.

Indagando desde sempre, a humanidade percebeu origens diversas ao amor. Na antiga Grécia, explica a História, o “desejo” era o impulso por aquilo que não se detinha e fazia falta ao ser. A esse desejo dava-se o nome de Eros. Tal afeto era representado pelo deus de mesmo nome, seleto protegido de Afrodite, deusa da beleza e do sexo. Comumente é considerado filho desta, embora haja diversas versões acerca de sua filiação. Conhecemos Eros por Cupido e Afrodite por Vênus, devido a posterior influência cultural romana. Eros é, portanto, desejo. E o desejo existe na carestia e privação; na longitude, na inacessibilidade, na ausência, na insuficiência, no onírico.

Sendo a cupidez sexual por certo intensa, aguda e de cronicidade que acompanha o tempo de vida de uma pessoa, é a referência primeira ao significado das palavras desejo e Eros, erotismo, erótico, cupidez, cupido.

Para os antigos habitantes da Grécia, o “amor erótico” existe em toda ânsia por algo. Como o abraço do amigo querido que não se vê há tempos, ou pelo leito confortável, quando o cansaço e o já distante ocaso do carro de Apolo, seduzem-te a alma para o reino de Hypnos. E pela paz da brisa do campo ao som de folhas rumorejantes, chilros, trinados e gorjeios aviários, à vista de colinas gramadas enfeitadas por flores e contornadas por rio cristalino vicinal a cabana aprazível, rusticidade que o coração metropolitano fadigado exige; pelo sorvete de chocolate após o almoço de domingo, ou o copo de água fria como prêmio à conclusão de caminhada longa sob calor tropical. Pela esperança da agendada partida de futebol, assistida ao vivo ou pela televisão, jogada com as pernas ou apenas as mãos, ao videogame; e a cerveja gelada com churrasco — picanha e miolo de alcatra ao sal grosso. Em suma, o que dá água na boca, frio na barriga, resplandece o olhar, é causa de sonho ou ambição que anima. Eros existe em tudo que te faz falta.

Já aquilo que é destinado especificamente a potencializar o sexo, chamamos de afrodisíaco, oriundo de Afrodite. E o referente a ele de venéreo, derivado de Vênus. Antigamente, usava-se o termo “camisa de Vênus”, substituído por “condom”, “camisinha”, e atualmente “preservativo”, para designar a vestimenta peniana destinada a evitar as “doenças de Vênus”.

Um outro amor era Philia, ou “alegria”. Regozijo com o que tem, prazer no presente, contentamento com o que é. Filiação, confraria, união, afinidade, reciprocidade, sentido de duradouro. Amor pela esposa que lhe acalenta, pela casa em que mora, o veículo que possui, pelos amigos que estão em seu quintal comemorando, pelo trabalho em que passa oito horas diárias. Satisfação de tônus crônico, intensidade diluída por momentos mais prolongados. Potência experimentada ao apreciar a cor da grama que é a sua, não a do vizinho. Ânimo pelo que não está em falta; amor na presença.

Ambos “amores” ocorrem por toda a vida. O desejo pelo que não tem ou está longe, como o anseio pela instalação do aparelho de ar-condicionado, propício ao repouso urbano noturno no alto verão, ou o encontro da pessoa querida que foi morar a mais de cinquenta quilômetros; e a alegria pela cama em que te deitas, na qual dormes satisfatoriamente, e pelo vizinho de tantos calendários a quem cumprimenta e proseia um par de dedos, com entusiasmo e bom humor.

Séculos à frente, aparece um terceiro amor. E antes de explicitá-lo, há uma ressalva contextual.

Há mais de dois milênios, os antigos helenos, que viviam na Hélade — o nome “Grécia” foi dado pelo povo romano, que os suplantou política e militarmente em 146 a.C. —, formavam uma nação de cidades independentes e colônias, que compreendia a atual Grécia, o sul da Itália, trechos da Península Ibérica, partes da Córsega, Sardenha, Sicília e do norte da África, toda a Creta e o Chipre, e diversos pontos nas costas dos mares Tirreno, Mediterrâneo e Negro. E acreditavam eles, tal como outros povos, que tudo no universo tinha uma função, um lugar e uma razão de existir. A este ordenamento geral e irrestrito era dado o nome de Cosmos. Por conseguinte, cada criatura nascia com um papel a cumprir, em sua existência. Cabia a ela descobrir qual era este e aperfeiçoá-lo ao máximo, em busca da excelência de sua execução. Fosse intelectual, artista, guerreiro, deveria dedicar toda a sua vida a desenvolver seus talentos singulares, sendo útil à cidade e alcançando o bem-estar de existir no lugar que lhe é venturoso, ao desabrochar das próprias virtudes, como uma engrenagem perfeitamente alinhada e funcional de um mecanismo universal complexo. A essa felicidade substancial, chamavam eudaimonia. A vida de alguém seria julgada como justa e apropriada em sua totalidade vivida, na medida de seu encaixe à própria vocação natural. A eudaimonia era a vida correta, e por correta, equilibrada e verdadeiramente feliz. Sua negação seria hybris, pecado grave do excesso, o que desarmoniza, descomedimento, insolência, desagrado aos deuses, ofensa contra o Cosmos desarranjando a ordem do Todo. Sacrilégio alvo de ação da deusa Nêmesis, “a Inevitável”, personificação da justiça divina cuja roda da fortuna destrona exaltados e eleva desditosos, distribuindo graças e misérias durante a vida de todas as formas viventes sobre a Terra, numa variação sem fim; hybris, por sua natureza de desequilíbrio persistente, à fartura de alegria leva redução, e quando ao fundo do poço em tormento, favorece a ascensão. A alguns povos orientais, sua ideia explicava-se por Yin-Yang. E assim, como cada deus possuía sua atribuição, cada ser sobre a Terra também a tinha. Se não tivesse talento, restava a este servir aos talentosos, nas tarefas básicas e grosseiras da cidade — trabalhando. Em outras palavras, a escravidão era vista como necessária à vida boa e ao bom ordenamento cósmico, pois nesse sentido, o talentoso não agiria senão exclusivamente em desenvolver a própria potencialidade.

Díspar ao entendimento teórico atual, de pareamento indiscriminado de premissas sociais a todos os seres humanos, para a sociedade helênica, a Justiça fundava-se na adequação de cada qual à sua serventia propícia, por um prisma de desigualdade inata, baseada nos talentos, dons e capacidades. Não havia “Direitos Humanos”, ou nada parecido. O mundo era ainda mais atroz, dominado majoritariamente pela força bruta, superstições, concepções metafísicas e guerras.

Eis que se ergue o amor cristão do judeu Jesus, amor Ágape: o direcionamento consciente para o alcance de Eros e Philia pelo outro, e não mais por si apenas. Trata-se do autossacrifício de seus erotismos e alegrias particulares, em favorecimento de outrem. Qualquer outrem. É o olvide de sua plena realização existencial terrena, em nome de alcançá-la posteriormente e de modo ininterrupto no Céu.

À luz da convicção ora vigente, tal abstração ilustrava-se afirmativa desprovida de mínima réstia de sentido, além de ignorar a ordem do Cosmos. E por assim formar valor de dissidência colossal ao estabelecido, o amor Ágape e sua ideologia associada originaram desde então perseguições, imposições, disputas, genocídios e guerras, por iniciativas de um lado e outro.

Passadas várias centenas de anos, quase toda a hodiernidade é influenciada diretamente em sua organização social, legal, ética e moral, por esse amor. A doutrina cristã sobre a vida tem por base a de Platão e seu Dualismo (mundo das ideias, inteligível; mundo físico, sensível). Juntos, o Platonismo e o Cristianismo constituem os mais influentes axiomas da biografia antropológica. Mais de mil anos depois do surgimento daquele último, no ano de 1215 d.C. é assinada por um monarca, o rei da Inglaterra, “João-Sem-Terra”, a Carta Magna: o primeiro documento limitando poderes de um governante, até antes absolutos, e concedendo direitos e resguardos indistintamente a cidadãos. O tempo produziria outros, como o Bill of Rights de 1689, um reconhecimento público oficial de direitos civis, no mesmo país. Menos de uma centena de anos após a primeira Carta, entre o início do século XIV e fim do XVI, por conta de avanços como a invenção da imprensa e o êxito das Grandes Navegações, haveria o período de intensa renovação cultural, artística e política do Renascimento. Decorrente esse, do movimento de revalorização das potencialidades humanas e racionalidade crítica da Antiguidade Clássica, e por extensão, das ciências e da natureza, chamado de Humanismo. O qual começa a abrandar a influência do dogmatismo religioso e das crenças místicas — o Teocentrismo — sobre a sociedade, semeando assim, a migração do Feudalismo para o Capitalismo, encerrando a Idade Média e inaugurando a Idade Moderna, o período em que surgiriam as bases sociais e econômicas da sociedade atual.

Próximo ao fim da Renascença, tomou lugar a Revolução Científica, encabeçada por pensadores e cientistas como Nicolau Copérnico (graças à tecnologia de sua época, o primeiro a introduzir com sucesso o Heliocentrismo no lugar do Geocentrismo, em sua obra “Das Revoluções das Esferas Celestes”, constatação já feita por Aristarco de Samos no séc. III a.C., e por outros desde então), Francis Bacon, Galileu Galilei, Johannes Kepler, René Descartes, Francesco Redi e Isaac Newton (autor das Leis do Movimento e da Gravitação Universal, em seu livro “Princípios Matemáticos da Filosofia Natural”), onde o Racionalismo ganha ares científico-matemáticos, separando-se da Teologia e deixando contínua e progressivamente o alegorismo de lado.

Em sequência, embricando-se com o período anterior, estimulada pela recém-criada ciência moderna, floresceu no seio da comunidade civil europeia, uma série de reflexões centradas na lógica, no senso investigativo e na evidenciação do ser humano como indivíduo, compondo o movimento chamado de Iluminismo, que defende princípios como emancipação, progresso, tolerância, fraternidade, governo constitucional e separação Igreja-Estado. Dessa discussão, direto da fonte beberam Benjamin Franklin, Thomas Jefferson e James Madison, mentes cruciais às motivações e corolários da Guerra da Independência dos Estados Unidos da América, que culminando na Constituição Americana de 1787, em seu preâmbulo afirma: “…Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os Homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade”. A Revolução Americana foi movida, assim como todo grande movimento político, ainda que por anseios legítimos da população, acima de tudo pelos interesses e endossos financeiros e comerciais dos ricos — burgueses e futuros industriais capitalistas, desvinculados da nobreza, do clero e da Igreja —, que a revestiram e acresceram dos ideais do Iluminismo, o movimento intelectual do século XVIII, “O Século da Filosofia e das Luzes”. O resultado central da luta da maior colônia britânica por sua independência econômica e civil, foi a criação da Constituição Americana — que com sete artigos, e atualmente vinte e sete emendas, é a mais curta e a mais antiga Constituição redigida ainda em vigor —, fortalecendo as consequências daquele movimento revolucionário nos anais do Novo Mundo, e influenciando o estopim da Revolução Francesa no Velho, que sob o lema “Liberté, Egalité, Fraternité”, levou à Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, em agosto de 1789 (o mesmo ano em que a referida Constituição norte-americana passou a vigorar, entre março e abril). Esse manifesto é o marco ortografado de uma nova Era histórica, iniciada no mês anterior, com a Tomada da Bastilha: a Idade Contemporânea. Com somente 17 artigos, essa Declaração Universal ensejou a elaboração de códigos de direitos civis bem-sucedidos pelo globo, começando a partir do próprio Código Civil Francês, proposto por Napoleão Bonaparte e também conhecido como Código Napoleônico de 1804. E incentivou a apresentação, um mês depois da Declaração dos Direitos Universais na França, das doze primeiras emendas à Constituição Americana (das quais dez seriam ratificadas pelos estados), conhecidas como United States Bill of Rights, ou Declaração de Direitos dos Estados Unidos, que já haviam sido prometidas quando da negociação que tornou possível a promulgação de sua Carta Principal, dois anos antes.

Europa e América do Norte alimentavam-se mutuamente dos conceitos de sociedade, justiça e liberdade que cada um concebia, naqueles séculos.

Curiosamente, o citado Código Napoleônico, criado por uma comissão sob orientação do próprio imperador, embora com trechos amplamente celebrados, como o fim dos privilégios dos nobres e do clero, foi imposto à sociedade através de meios antidemocráticos, devido à resistência à unificação de uma lei nacional sobrepondo usos e costumes locais, além de em seu conteúdo consolidar legalmente a submissão da mulher à figura masculina familiar ou conjugal. Excetuando-se trechos como esse, grande parte deste documento está vigente na França, tornada por ele a primeira nação a implantar um sistema soberano efetivo de leis escritas.

La Société des Nations”, organização internacional criada em 1919 pelo desejo mundial de paz, em decorrência à Guerra Mundial, falhou em evitar seu desdobramento, a Segunda. Por isso, a inédita iniciativa de uma Liga das Nações foi dissolvida em 1946, um ano depois da criação de sua sucessora e herdeira, a Organização das Nações Unidas, cuja semente teórica foi concebida ainda na metade do gigantesco conflito que gerou a bomba nuclear. Três anos após o surgimento da ONU, esta consagra a declaração francesa em um documento atualizado, composto de trinta artigos, chamado “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, em 10 de dezembro de 1948, determinando-o como referência e obrigação moral, aos capítulos de Direitos Fundamentais Individuais e Sociais das constituições federais em países de todos os continentes. Com seis páginas, é o texto mais universal já produzido. Em 1999, a DUDH entrou para o Livro Guinness de Recordes como o documento mais traduzido da História, em 298 idiomas e dialetos. Uma década à frente a certificação foi atualizada, para 370. Em 2016 passou de 500, e em 2020 chegou a 523 traduções distintas.

No Brasil, a Constituição Federal vigente data de 1988, a sétima de sua história, a qual dedica inteiro ao tema o Titulo II — dos Direitos e Garantias Fundamentais. Tudo isso para mitigar as possibilidades de embate bélico e suas repercussões catastróficas à vida humana, e encaminhar o planeta para o mais possível e progressivo enlace pacífico entre as pessoas e povos.

 

*

(E assim, ao primeiramente garantir a propriedade do que por si é natural, como sendo particular a alguns poucos, poder asseverar a possibilidade de latifúndio, a continuidade dos privilégios de origem oligárquica, e a concentração da posse monopólica da terra e dos meios de produção; e assegurar a liberdade de ter de se escravizar voluntariamente para poder usufruir de um pedaço da superfície do planeta como moradia, ao sobreviver em uma biosfera de comunidades organizadas, livres, democráticas, solidárias, capitalistas e de economia em pirâmide, a outros muitos).

*

 

Como se vê, o caminho para a paz e o amor entre “irmãos” — dois dos frutos anunciados pelo amor cristão — é longo, penoso, e frequentemente, precário.

Ainda que orquestrado por Eros, Ágape venceu, suplantando a concepção de Cosmos, ordenamento defendido e tão bem explicitado por Aristóteles, cuja organização social conhecemos por Aristocracia — o poder exercido pelos talentosos, meritórios e capazes. A Democracia Moderna, fundada nos Direitos Universais Humanos e regida pela Ética da Convivência (onde todos “valem” a mesma coisa), extingue progressivamente o sistema anterior, a Democracia Grega, ordenada pela Ética das Virtudes (baseada na separação da sociedade em cidadãos talentosos, escravos e estrangeiros).

A Democracia Grega já era em si, um relaxamento da Aristocracia pura, por efeito de tensões socioeconômicas como a escravidão por dívida, do camponês ao aristocrata, e a disparidade social resultante do desenvolvimento comercial em algumas cidades.

É oportuno clarear que a Aristocracia, sucessora da Monarquia na Grécia, não é de eleição hereditária ou financeira, situação que configura a Oligarquia, forma deturpada dela. A observação que fundamenta tal método de governo, oposto à Democracia Moderna, é que talentos medíocres só podem produzir resultados médios ou pífios. Apenas talentos excelentes são capazes de produzir resultados excepcionais. Assim, que se ocupe de pensar, aqueles que pensam melhor; de falar, aqueles que falam melhor; de lutar, aqueles que lutam melhor; de cantar, esculpir, tocar, escrever, pintar, projetar, administrar, aqueles que demonstram grande desenvolvimento e paixão em sua feição.

O problema desse modo de governo, que pode produzir maravilhas que serão lembradas através de milênios, é que no mais das vezes o poder envaidece, a vaidade cega, e a cegueira leva ao apego que conduz à hereditariedade e privatização do poder, a Oligarquia. Esta tendencia ao abuso dele, levando à Tirania, a usurpação do poder. Que inevitavelmente, por revolta popular e algumas descidas de guilhotina, um dia leva à Democracia, como a entendemos. A qual é, segundo Nietzsche, “(…) não só uma forma degenerada da organização política, mas uma forma decadente e diminuída da humanidade, que ela reduz à mediocridade”. A Democracia Grega em Atenas, por exemplo, era exercida por uma parcela entre dez e trinta por cento da população, que tinha direito a voto: apenas homens acima de vinte anos de idade, nascidos na cidade, filhos de pais atenienses. Mulheres, juvenis, escravos e estrangeiros podiam residir na cidade, mas não eram considerados aptos a reger ou decidir quanto à direção da coisa pública.

A humanidade descobrir-se-ia ainda capaz de criar, especialmente a partir do século XX, a Oligarquia Democrática, em que a primeira se exerce travestida da segunda, predominante sobretudo em países pobres, tropicais e de formação moderna neocolonial, da qual provavelmente ainda levarão muitas gerações para se livrarem totalmente.

A um exemplo simples de oligarquia disfarçada, em minha cidade natal, assim como feito em outras épocas, algumas escolas municipais novas têm sido com mais frequência nomeadas em homenagem à ex-prefeitos por seus filhos, exercendo o mesmo cargo público. As quais são então usadas por eles, e seus respectivos partidos como propaganda eleitoral — que é paga em boa parte com recursos do erário.

O que se nos observa a História, é uma tendência a doutrinas e sistemas de governo inicialmente ideais, como a Aristocracia, o Comunismo e mesmo a Democracia, se converterem de ferramentas para o bem-estar de todos, em instrumentos de manipulação do poder investido, o redirecionando ao benefício particular de poucos, prejudicando o coletivo, seu propósito inicial; e à dedicação firme de buscar engenhos a fim de se perpetuar nessa posição de poder. Relembrado pelo imortal filólogo inglês, tinha razão Platão, ao falar de Giges. Nenhuma ideologia parece resistir ao poder sobre muitos, concentrado em poucas mãos. O tempo e a experimentação de seu exercício vão gradativamente corroendo seu possuidor. Na ficção de Sir Tolkien, os personagens mais sábios de todos e por si só poderosos, de diferentes raças, foram justamente os que mais recusaram reter a si o poder absoluto, representado pela posse do anel mágico supremo.

 

 

Pois muito bem. Há ainda um quarto amor. Enquanto os três primeiros são entendidos como influências divinas, cósmicas ou metafísicas (aquilo que existe apenas pela crença em algo imaterial, desenhado e definido segundo a imaginação e convenções), baseadas na ideia de Dualismo — Céu e Terra, mundo espiritual e mundo material —, e sua consequente estrutura religiosa do pensamento, que é a oposição definitiva entre o Bem e o Mal, de modo taxativo, binomial e simplificado, este é puramente terreno; tem em Nietzsche seu expoente mais conhecido. É o amor Fati.

Eros e Philia direcionam-se para o cumprimento do modelo de Cosmos: exercer sua incumbência específica decidida desde o nascimento, em razão das inclinações e dons natos. Já Ágape, diz que o bom é agradar a Deus amando ao próximo como a si mesmo, sacrificando-se em favor do irmão, esquecendo a felicidade na Terra em favor da eternidade de gozo no Além. E Fati, é amar o mundo como ele é. Trata-se do oposto de querer “transformá-lo”, ou seguir uma ideologia obrigatória de burilar os próprios talentos, tampouco sacrificar-se por um deus em troca de passaporte e reserva no paraíso invisível; mas significa negar-se a que lhe enfiem goela abaixo uma compilação de prioridades alheias às tuas. Consiste em rejeitar substituir teu juízo íntimo por um apanhado de mandamentos que representem qualquer verdade imposta, cuja finalidade é tiranizar pessoas aos interesses, conveniências e ganhos de terceiros, que fazem de pressupostos, uma cela cultural. Habitualmente, ninguém em tua vida lhe faz uma pergunta de como a queres viver, o que lhe é estimado fazer, ou em que desejas acreditar; simplesmente empurram dogmas e obrigações iguais para todos que nada ou pouco têm a ver com a tua felicidade, único que és dentre todas as personalidades existentes. Fati é viver a vida em plenitude, por seu próprio esforço, da forma que só você pode decidir, enxergando o teu interior e os fatos ao seu redor, e não devaneios ideológicos; a enfrentar todas as dificuldades da condição humana caminhando-se com as próprias pernas, e não apoiando-se em “muletas metafísicas”. É sentimento racional de viver a realidade da Terra, e não quimeras do Céu. Assim, todo “ismo” — sufixo de raiz grega que, em resumo, refere-se à um sistema de preceitos e fé determinados — constitui-se em ausência desse amor: idealismo, romantismo, capitalismo, fascismo, cristianismo, judaísmo, espiritismo, islamismo, socialismo, comunismo, nazismo, machismo, feminismo, absolutismo, iluminismo, altruísmo, egoísmo, humanismo, direitos humanos.

Particularmente, não acredito em ismos. Creio em mim com minhas dúvidas, confiança, falhas, êxitos, medos, inseguranças, forças, fraquezas, valores, e na possibilidade de lutar pelos meus sonhos particulares, que não incluem a escravização de outras vontades.

O termo Niilista, que popularmente refere àquele que nega o Celeste, a eternidade, a divindade e o Além, tem para Nietzsche e os filósofos desta linha de argumentação, combatida e acachapada pelo Dualismo e Teologias desde a antiga Grécia, a acepção inversa: de que Niilista (negador) é justamente o que nega a Terra, ignora as próprias potências e pulsões em nome do Céu; refuta o Aquém em nome do Além. Opta pelo “lá” em detrimento do “aqui mesmo”. Vive de mudar o mundo por idealidades inventadas, às quais quer sujeitar os demais.

 

*

Encerrado o quarto amor, brevemente ainda podemos citar o Amor Romântico: aquele que, entre outras fantasias, concebe a relação amorosa-sexual entre dois indivíduos como algo inalcançável, envolto no enaltecimento dos afetos individuais e em rituais, mesuras, códigos de cavalaria e etiqueta própria; com cunho de hipérbole nos sentimentos de sofrimento eterno e visão de um objetivo inatingível, eventualmente levando a ponderações pessimistas e fúnebres. Oriundo do Romantismo, é a imagem até hoje referenciada com frequência para as emoções infindáveis de paixão por cortejo, namoro ou casamento, e que inevitavelmente levam à consternação acentuada, quando de sua não realização ou separação por desentendimento, fim do querer a uma das partes do casal, devido a morte ou outra tragédia. Como se trata de uma grande ficção imaginada, se perfaz o elemento mais utilizado pela arte em canções, livros, peças e filmes, que surgiram desde então. Dividido em três fases, é o Romantismo um misto de Eros e Ágape, que em geral, refuta Philia: do vasto lirismo inicial, veio a adotar características pessimistas e posteriormente crítico-realistas, dando origem ao Realismo — movimento que, atravessando históricos momentos abolicionistas e republicanos, denunciava os males da sociedade e do fantasiosismo exacerbado, marcando o começo do declínio progressivo do raciocínio romântico, até os tempos atuais.

Uma reação às consequências sociais da industrialização e à racionalização objetiva da natureza e do mundo, contramovimento cultural do fim do século XVIII e quase todo o século XIX; burguês por excelência (tal como o Classicismo anterior), antiarcadista e antiaristocrata, surgido em terras alemãs e inglesas e difundido pelo continente europeu, o Romantismo foi marcado por características idealistas contrárias ao Racionalismo e Iluminismo, tais como o saudosismo, idealização da mulher e do homem, historicismo medieval, nacionalismo, escapismo e utopia. Uma tentativa de compensar a decepção dos visionários burgueses, pelas poucas mudanças práticas imediatas que a Revolução Francesa trouxe, bem abaixo do que se esperava. Seu início foi contemporâneo à ocorrência da Primeira Revolução Industrial, e seu fim concomitou com o advento da Segunda — o que não é nenhum acaso.

*

 

Desconsiderando o Romantismo, falamos aqui portanto, de quatro concepções do amor. E naturalmente, surge neste momento, a questão sobre qual deles estaria de posse do título de sentimento mais auspicioso à nossa vida. Pois bem, atinemos:

Quando anseias por teu deslocamento corporal em direção de reencontro gozoso ao litoral de estética costeira onírica, tens o coração atingido pela seta de Eros. Tendo ora sido flechada vossa bomba muscular mediastina, enquanto localiza-te dezenas de quilômetros para o interior continental, és capaz de sentir tocar-se pelo calor do sol e o frescor do mar; e a brisa oceânica a percorrer teus contornos movimentando-lhe os cabelos, o aroma da água salgada, a areia clara e fofa que se torna escura e dura no encontro das ondas. Deseja-o em cada respiração, entre momentos conscientes e irrefletidos; apenas sente a falta. Eros lhe toma o âmago e transuda o espírito.

No momento oportuno adiante, quando com a consciência tranquila de preocupações ou culpa, encontras a massa líquida salina e refrescante de milhões de litros a seu redor, com um arpão em mãos para obter o próprio almoço em meio a abundante fauna marinha — adorno e complemento à flora que lhe embevece os sentidos —, Philia-se ao mundo tal como ele é, e Fati lhe sorri. É possível que um filho, amigo ou desconhecido tenha precisado de sua energia e presença em uma situação especial de festa, tristeza ou emergência, motivando a interrupção do percurso rumo a seu encontro subaquático com a vida a caminho da praia, para atender à necessidade desse outro, carente de alegria, anelante pelo que lhe falta. Restringes então a si próprio pelo sentimento de compaixão, em proveito do próximo. E Ágape resplandece, satisfeito.

É o universo, detentor de possibilidade invencível de entristecimento, extraordinariamente capaz de acabrunhar nossa potência vital, e infalivelmente nos conduzir ao fim de nosso próprio espetáculo. E assim, o ser humano conceitualiza verdades sob encomenda para transformar tristezas em alegrias, tábua de salvação ao náufrago da vida oprimida pela angústia existencial de escolher, onde tudo é dor; subserviente voluntário, afundado pela própria liberdade, insustentável leveza do ser.

Entretanto, ocasionalmente o encontro com o mundo é a própria perfeição de vida. E a encontras em caminhada matinal de domingo no sorriso do garoto, que acompanhando o pai, segura um picolé na mão e com a outra, encantado, aponta e comenta sobre os diferentes pássaros que os sobrevoam na alameda arborizada, calma e paradisíaca, momento Fati de pura Philia.

Amor ErosPhiliaÁgapeFati. De impressões agudas ou crônicas, na presença ou na falta, baseadas no Céu ou exclusivamente na Terra. Dentre as de idealidade coletiva (nobreza) ou desejo (sua versão autêntica), agem à moda de energias com o poder de mover o mundo, arrastando, seduzindo ou inspirando milhões e realizando colossos, de tal forma que seus sentimentos impregnam a História e continuam tocando corações e almas de gerações posteriores. Toda forma de amor carreia um potencial de justeza, compondo os momentos de plenitude com a vida que se apresenta, ou com a existência obtida através do esforço, dedicação ou sacrifício, que transformam você em uma versão aperfeiçoada para si e a convivência, criando uma experiência melhor de mundo que acaricie a sua própria essência.

Pois sob o prisma de Eros desejo tua presença, suas íris castanho-escuras encontrar e no sorriso de um passeio lhe encantar. Em Philia, animo-me em saber que existes, que estás aninhada em meu colo suavemente, quase dormindo, enquanto a chuva rege sinfonia no telhado e o seriado na tela nos inspira, relaxa e diverte. Ágape move-me para ajudá-la se preciso, sacrificar-me por ti, repartir quando insuficiente, manter elevado teu valor a seus próprios olhos. Amar à maneira de Fati diz que é como deveria ser, quando penso em tudo e te vejo ir ao fim de um dia, para inéditos eventos em outros lugares viver, e novas estórias, brilhos, saudade e momentos intensos trazer.

Quando alguém afirmar “eu amo você”, talvez alguma vez se pergunte: à moda de Platão, Aristóteles, Jesus ou Nietzsche; o que esta pessoa quis dizer?

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