Campo Gramado, Bola Redonda, Trave Quadrada

Esporte onde vinte e dois homens competem movimentando uma bola inflável para decidir quem engana melhor um juiz.

Democrático: aceita todos os tipos de pilantras, até os honestos.

Futebol é esporte de malandro. Velhaco, patife, safo, ladrão. O inglês não sabia “jogar”. Na Terra Brasilis foi reinventado e aí sim, o povo o entendeu.

É agradável de se ver, pessoalmente ou pela TV. Mas só quando sabem o que estão fazendo. Um campeonato nacional por aqui dá-nos a impressão de ser preenchido com jogadores encontrados no bar na esquina, pois o titular mesmo, faltou à partida. Na verdade está na Europa, que é pra onde vai quase todo mundo que sabe jogar profissionalmente este jogo.

Se o campeonato de basquete estadunidense fosse de futebol soccer, nosso campeonato seria a liga chinesa, na qualidade, organização e lisura.

Adoro futebol e pratico, mas percebi que no Brasil muito pouca gente gosta de jogar futebol. Gostam é de assistir futebol, atuando como técnicos/comentaristas do alto de seus sofás confortáveis, com cerveja numa mão, salaminho na outra e farelo de salgadinho no patrocinador estampado na barriga.

Curiosamente, em inglês a diferença entre sofá e treinador é de apenas uma letra no meio da palavra (quando se trata do móvel para duas ou três pessoas ficarem ilocomóveis). Não é à toa que os britânicos inventaram as regras modernas dessa porra. Sabem das coisas. Principalmente a parte do sofá.

O maior Estado sul-americano é o país do futuro, em uma perspectiva otimista; é a nação da esperança. Cada habitante vera-cruzense espera que seu clube de futebol volte a ser campeão do mundo, quando nem continental consegue ser. Com jogadores fração-de-boca (usar “meia-boca” é elogiar), quando chegam no campeonato mundial atualmente levam ferro. Uma equipe aí que tentou levou de quatro a zero, fora o baile, e com pouco esforço do oponente. Depois do “chocolate”, o mais refinado e talentoso jogador do time foi jogar no adversário. O clube que o vendeu ao oponente ganhou dinheiro, gastou o dinheiro sabe-se lá onde, e o time fica cada vez pior.

E quando perde, há sempre um culpado. Quando não o goleiro, um zagueiro; no máximo, um meia-enceradeira. Mas geralmente o pecado recai sobre aquele que não efetua um passe sequer, o técnico. Diferente do que acontece no futebol de altíssimo nível em outros lugares do mundo, por aqui, ser responsável pelos treinamentos, estratégia e táticas de uma equipe de futebol é mais incerto que trabalhar na linha de montagem de automóveis no ABC Paulista. Basta uma variação negativa no faturamento desejado que já vem demissão. Na Europa, técnicos ficam habitualmente de cinco a mais de dez anos no mesmo cargo, mas no Brasil, é função sazonal. Década passada, três campeonatos brasileiros sequenciais vencidos não foram suficientes para manter seu comandante em um clube que queria vencer o torneio continental. Despediram o profissional — então vencedor pelo quarto ano seguido do prêmio de melhor treinador do país — que dois anos depois se tornaria campeão nacional novamente, por outro time, e seria chamado de volta, quatro anos depois, por aquele a quem deu três taças seguidas. “O culpado”, na prática, é apenas aquele que limpa a imagem dos dirigentes e demais envolvidos, deixando leve os corações de torcedores apaixonados, outrora inundados de mágoa pela derrota. Eis que “o responsável” fora encontrado e removido. E assim, é restaurada a crença no time. “Hora de mudar”, “vim para somar”, frases ditas quando alguém chega. Slogans que sempre acariciam a fé geral; não que necessariamente tragam mais vitórias ou títulos.

Mas esperança mesmo é assistir o jogo por diversão. É ruim. Dói assistir. De noventa a noventa e cinco minutos de lazer desperdiçados. O “show do intervalo” é esvaziar a bexiga no vaso, fazer um agrado na Gata e pegar outra gelada. A alternativa é assistir duas levas de propaganda totalizando uns seis minutos e o resto de tempo, uns caras condenando irremediavelmente algum jogador para depois inverter a opinião quando ele faz um gol no segundo tempo, como se tivessem sidos os primeiros a terem notado a qualidade do futebolista. Ouvem-se pessoas que não têm noção do que se passa dentro de um campo (uma vez que nunca ou muito pouco estiveram em um jogando), analisando lances de pouco entusiasmo e querendo nos convencer de que “o jogo é bom”. Pouco se aprende e nada se curte. Futebol televisionado tá mais para sorteio de loteria: não há nada para ver, além do resultado.

Uma vez fui ao estádio assistir o futebol feminino. Tripla felicidade: o jogo foi bom, parecendo um clássico dos anos setenta; ainda há futebol bem jogado nos campos profissionais, com direito a “jogador(a) de meio-campo com cabeça erguida, domínio dos fundamentos e elegância no jogo”; e puta que pariu, aquela lateral esquerda era gostosa e bonita.

Há copas atrás, ouvi que o futebol da Jamaica era chutão, bola para frente e correria. Tempos depois, o Barcelona dominou o esporte no mundo e seu técnico declarou ter se inspirado no futebol brasileiro do passado. Devia ser, pois um jingle televisivo para a copa do mundo afirmava “…o toque de bola é nossa escola, nossa maior tradição!” Não sei se é efeito da marijuana que fumo de tabela nas praias e passeios públicos, mas tenho impressão de que nosso futebol é de Kingston. Um fut jamaicano um tanto paraguaio, pois ainda se tem um passe para o lado e outro para trás antes do chutão ou da enfiada mal feita. Afinal estamos no Brasil; aqui até a maconha é batizada.

Outro dia vi de novo no Brasileirão o jogador de meio de campo tocando a bola rasteira, macia, nas costas do lateral que, de passagem, corria. E quem recebeu o passe foi o gandula.

É um novo desporto: MFA — Mix Football Arts. Mistura de artes marciais, atletismo e encenação teatral.

Se o jogador é honesto, a própria torcida caceteia ele. Se for desonesto, a vitória é desmerecida pelos outros times. O importante é o choro. Até quando se ganha, há reclamação.

Nem assisto mais, exceto uma ou outra partida europeia, para ver brasileiro fazer gol bonito em jogo de quem sabe jogar. Mas meu negócio mesmo é correr, suar no campo, fazer parte dos jogadores amadores que disputam, treinam e aprendem a bater bem uma bola. Ser técnico profissional em sofá e balcão de padaria eu deixo para quem entende de futebol.

E se você percebeu que “trave” não é quadrada, mas retangular, parabéns. Nem tudo está perdido.

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