O Primeiro e Segundo Beijo na Boca

Uma manhã ou tarde de clima ameno, calmo e limpo. As ruas eram pavimentadas por blocos sextavados de cimento, e os passeios apresentavam conformações distintas. Uma de cada tipo, a gosto do proprietário de cada habitação, com seus desenhos, degraus e inclinações laterais ao caminhante, servindo como rampas de acesso veicular à imóveis mais elevados que os demais. Em alguns trechos lembrava uma pista de obstáculos, exercício extra, diversão ao infante que por ali diariamente passava. Árvores Chapéis-de-Sol povoam os caminhos de sombras e frescor, folhas verde-amareladas e cucas que iam sendo chutadas, deixando suas marcas úmidas na ponta dos tênis infantis. Por esse tempo, usei botinhas ortopédicas. Elas propiciavam potentes chutes de bico, e a diversão era ver quantas vezes os frutos caídos quicavam no chão, ou a distância que alcançavam. Neste bairro, raras eram as construções que não fossem casas. Pouquíssimos edifícios de três andares, esparsos automóveis estacionados, incomuns em movimento, não parados.

Este era o caminho percorrido nessa região do antigo bairro da cidade litorânea, de agrado aos olhos e calma à alma. Aí, dos dois aos sete anos de idade em tal intensidade existi, que muitas são as lembranças e sentimentos do que nesse tempo vivi.

De mãos dadas, ia a pé com minha mãe à escola que ficava a três quadras e meia de casa. Uma construção singular, o prédio estudantil. Ficava em um quarteirão que lembrava uma ilha, um tanto comprida e com extremidades arredondadas. Era uma escola e igreja, onde esta ocupava um espaço maior que aquela. Por toda a volta, uma calçada muito larga com espaço para estacionamento de veículos, que pouco era preenchido; o fascínio statual automotivo não havia ainda alcançado corações e poderes carteirais populares.

Ali na curva insular escolar reuniam-se os alunos e seus responsáveis aguardando o evento da abertura da antiga porta dupla, seguida do surgimento da professora-tia em seu mini-jaleco guarda-pó de tom azul desbotado. Um alvoroço se seguia. Adultos, em sua maioria mulheres, abaixavam-se para tocar os lábios nas maçãs faciais, frontes e bochechas de seus filhotes, alguns rápidos como beijo de despedida em ponto de ônibus, outros como despedida de rodoviária, e às vezes um de aeroporto internacional. Muitas coisas deveriam estar junto destes momentos: contornos de turbulências apaixonadas da existência humana em seio familiar, espólios e perdas de batalhas que enfrentam os vivos que sentem, pensam, amam e temem.

Ao cumprimento abaixativo-filiativo à moda nipônica para despedir-se dos filhos, seguia-se o escoar horizontal dos pequenos em direção à entrada, passando entre adultos como areia entre pedras espaçadas em uma peneira. Os pintinhos iam se afunilando para a penetração no galinheiro, chamados pela mamãe-galinha-professora que saudava os pais e mães à distância.

Essa porta dupla dava em um pequeno corredor de entrada com algumas portas simples, cercado por um sala de aula em cada lado. As janelas das salas davam para a rua, de onde os pais viam os bracejos dos primeiros pequenos que chegavam às molduras de madeira cinza-claro para acenar, como se faz de um trem partindo da estação.

O interior do cômodo pedagógico era organizado com armários na parede do fundo e na lateral oposta às janelas, onde se guardava material de artes, livros, cadernos e artigos escolares em geral, além das populares esteiras enroláveis de palha trançada, as mesmas que eram usadas nas praias para bronzeamento e repouso simultâneo, atualmente substituídas por cangas feitas de tecido fino e muito leve, que depois as mulheres aproveitam como saída de praia. Por ocuparem menos espaço, ter menos peso e dupla utilidade, aposentaram das areias aquela antiga herança indígena, que em versão mini, acamava sobre o solo da sala de aula o repouso do futuro do país após o lanche.

As mesas eram quadradas, de quatro lugares, pequenas e baixas, revestidas por fórmica de cor verde-abacate. As cores de produtos industrializados na minha infância eram desprovidas de inspiração: eletrodomésticos, móveis e automóveis eram brancos ou de cor única e sólida, às vezes com uma faixa de outra cor para cessar a continuidade monocromática. Nada de efeitos metalizados, perolizados, degradês ou cores de quarta geração em diante, éramos presos à mesma parcalidade caleidoscópica durante anos. A vida era mais lenta, mais simples e boa.

Num dia que marcaria minha vida de futuro macho-alpha, por quem as mulheres apaixonam-se mesmo às vezes sabendo que não deveriam, um coletivo do povo pequeno discutia acaloradamente antes da abertura do portão mágico escolar, na curva educacional da ilha de concreto. Era um plural seleto: dez garotas no alto de seus cinco ou seis anos de idade, averbando oralmente razões e motivos justificáveis à suas demandas individuais para sentarem-se com o Leonard. Explico: as posições e colegas nas mesas da sala, modo geral, não eram fixas. Evidente esta única informação explanar e esclarecer muito pouco, acompanhativo leitor, frente à possibilidade de vossa intenção em saber o motivo de disputa sobre o privilégio de sentar-se um dia com determinado colega de classe. Seguramente, não era eu detentor do mais destacável patrimônio estético pessoal daquele espaço, ainda que pertencesse à metade mais rica no visual. Nem era o mais elegante, geneticamente viril ou charmoso, embora não constituísse-me em desastre social nestes campos. Era ingênuo, distraído, enérgico e bem humorado, o que poderia justificar atração de uma ou duas mocinhas. À resposta ao bem quisto de uma dezena em colegar-se mesalmente do mesmo menininho, emparelho-me a ti, leitor, em imaginar explicativa à inusitada ocasião. Como é incomum à cachola humana sossegar sem satisfatória explicação, providencio uma, que não passa de teorema que se presta de amansa-indagação.

A maturidade serviu-me da capacidade observativa ampliada. Em questões sociais estéticas e de atração pelo sexo desejado, é o ser humano feminino acentuadamente competitivo. Imagino que uma menina pode ter comentado um apreço, simpatia ou agrado sobre um menino chamado Leonard. A ouvinte em frente então, acena positivamente e tece comentário complementar. A interlocutora ao lado, talvez mais bela e atraente que as anteriores, desejosa de manter seu poder social, expõe concordância ao assunto e manifesta desejo de sentar-se com o objeto conjecturado. O faz de modo veemente, certo, gabante; provoca assim, o ferimento à auto-estima das colegas, ampliando a própria. Outras entram na conversa, enquanto as primeiras afirmam serem as companheiras de mesa do proprietário do nome citado. Criança adora falar, gritar, expandir-se entre amigos e conhecidos. Daí, a notoriedade do fato à todos em volta próximos.

Na minha infância, foi comumente cultuada a figura da inocência e pureza absolutas da criança da civilização moderna, e a do indígena em qualquer época ou idade. Talvez penses: “crianças nem pensam estas coisas, quanta bobagem!” Que escrevo bobagens, concordo contigo. Que índios e crianças são “anjos perfeitamente inocentes”, penso que não cultuas grande paixão pelo estudo da História Humana, tampouco observas atentamente crianças, nem lembras detalhes em quantidade de sua infância, estimado leitor.

No interior da sala de aula a contenda foi retomada, finda sob intervenção da docente, que inquiriu os motivos e determinou solução. Quais critérios lhe foram norte desconheço, mas a sentença foi-me acertada: selecionada fora justamente a que eu gostava, um loirinha de olhos verdes. Havia algumas loiras, mas nenhuma me mexia o coração como a Janaína.

Sentamos ao fundo, próximo do armário. Havia uma mesa entre a nossa e a janela mais próxima. Perceba como as coincidências felizes se sucedem: primeiro, a altercação que alisou o ego do pequeno ingênuo, que indiferente à sua vista, por constituir-se causa incógnita da demanda por si, perfazia-se completa adição de potência de agir, tornando o objeto de desejo pleno de si mesmo por algum instante, cheio de vida e vontade de sonhos realizar. Em seguida, a seleção alheia com chance de sucesso completo de um décimo, interferência providencial da única adulta no recinto. A mesa ao fundo, coincidência ou devido a critério de discrição, propiciou a sugestão futura da bela colega de quase um metro de altura. Sentando-se de frente para mim e de costas para a lousa, inclinou-se para a frente, com os braços cruzados sobre o tampo verde-sem-graça, dizendo meu nome. Inclinei-me igualmente, para ouvir o que tinha a dizer.

– Leonard, vamos para baixo da mesa “se” beijar?

– Vamos.

Curioso como agimos em intenção, desejo e ingenuidade quase simultâneos, misturados. Nos afastamos da superfície abacate, saímos lateralmente de sobre a pequenina cadeira, engatinhamos para baixo da mesa, cessamos o movimento felino e tocamos os lábios, um selinho um pouco mais demorado que o tradicional. Percebo hoje que o proibido, o imprevisto, inusitado, provocativo de imaginação de prazeres e alegria, fecundam confeito às sensações prévias ao ato imaginado e durante o momento materializado.

– Professora! O Leonard e a Janaína estão se beijando debaixo da mesa!

Auê. Gritaria. Bruscamente, alertados pelo som que antecede a tempestade – um trovão desafinado entre Sol e Si, som laríngeo de timbre infantil feminino – rapidamente retrocedemos os movimentos o mais rápido que pudemos de volta aos assentos vazios. Uma vizinha de mesa dera o alarme, talvez uma parte vencida no processo de distribuição de lugares realizado pelo tribunal docente, composto de membro único a envergar toga de cor anil destingido. Ou apenas pela novidade, mesmo; because zoeira never ends.

– Leonard, Janaína. O que vocês estavam fazendo?

– “Nada, professora” – respondemos em coro.

– Estavam se beijando embaixo da mesa, tia! Eu vi!

– Crianças, não vão mais para baixo da mesa. Vamos começar a aula. Peguem seus cadernos e materiais no armário.

Estas lembranças me causam risos ao lembrar a menina nos entregando sem a menor cerimônia. Coisa tão comum entre infantes, reforçada pela cultura predominantemente religiosa da época, como se a verdade dos fatos fosse um valor absoluto, unânime e infalivelmente produtor da melhor consequência a qualquer acontecimento ocorrido.

À esta estória, tive ainda minha genitora por testemunha. A primeira parte ela presenciara. E certamente, a responsável legal e produtora biológica do pequeno conquistador Juanino obteve relato professoral espontâneo, como fato notório ou mera curiosidade cômico-informativa do feito de seu rebento under table. Mãe vive dilema esta hora: orgulho de seu filho valorizado e desejado, e ciúmes por ter que dividir um pouco dele com uma possível nora; outra mulher. Minha adolescência que o diga. E você achando que só o pai tem ciúmes da filha, não é?

Que dizes? “Como enciumar-se de pequenos em tal idade, por mera bitoca de dois segundos, anos antes da puberdade?”

Há um ditado de mercado e de psicologia que diz “quem investe quer retorno”. E um outro que avisa: “quem ama, cuida; quem cuida, investe. E quem investe…”

O primeiro dito é popular, o segundo acabei de inventar. E estou para ver mãe que crie rebento com carinho, amor e atenção e não tenha ponta de orgulho e ciúme emergindo na afeição.

Passemos à segunda inocente deliciação labial da história deste artesão ortográfico. Algum tempo após o encontro sub-mesal furtivo à sombra do abacativo fórmico, encontras-me brincando sentado ao chão da cozinha de casa, um apartamento razoável de dois quartos. O período pontual onde houve o segundo toque de lábios em dupla é impreciso à minha memória, posto que o era à época indigno de nota detalhada como ocorrência marcante ao infante; de modo que pode localizar-se entre alguns meses à pouco além de dois anos após o primeiro. Seguramente, antes dos sete anos de idade, quando mudamos para uma casa em outro bairro, um mês antes de meu sétimo aniversário.

Chaves do Oito era acompanhado por Chiquinha no manuseio de brinquedos e improvisação de falas, em pouco domínio linguístico e amplo desenvolvimento lúdico-tátil. A esta época nunca havíamos visto o ininjoável seriado mexicano, de onde as imagens dos dois personagens curiosamente aludem-me à cena da infância durante o exercício memorativo contemporal.

Condiscípula na função de descendente do mesmo casal, era ela ano e meio anterior à mim na empresa familial. Possuía desde tenra existência inclinação às coisas e vida de adulto no que concernia à liberdade e reconhecimentos sociais, coisa que veio em alguma coisa acometer-me somente lá próximo dos dezoito anos. A mim a vida era muito boa como era, infantil, diversional e amigativa. A infância não era outra coisa que a própria plenitude existencial. Outro modo, minha congênere assíncrona uterina ansiava pela maioridade, pássaro ávido em planar à força das próprias asas, desbravando os céus em seu roteiro particular e essencial. Como de fato o fez quando o desenvolvimento biológico permitiu.

Imagino ao contexto do episódio infantil, a influência novelo-televisiva como roteirista coadjuvante ao trecho de peça ensaiada sobre o piso, entre as pernas do móvel no cômodo de promoção de alterações químicas culinares. Brincávamos de casinha, com carrinhos e bonecas. Em algum momento, propusera-me o mesmo que Janaína: “vamos nos beijar?”

A oração “vamos para debaixo da mesa” fora barrada pela ausência de necessidade comunicacional. Encontravamo-nos ali, já.

Demos um selinho, estilo a ser replicado entre Macaulay Culkin e Anna Chlumsky no filme produzido alguns verões depois. “Não, que nem novela”, explicara-me após o ato rápido.

Seguiu-se experiência pouco agradável a mim, em que partes molhadas encaixavam-se e desarmonizavam molhando tudo ao redor da boca. Os encontros de lábios, dentes e línguas ensejavam desgosto ao ato. Possivelmente um pouco por ser minha irmã, e portanto sem qualquer resquício atracional experimentado previamente, e outro tanto pela experiência em si.

– O que vocês estão fazendo?

A dona do estúdio, chefe direta dos atores iniciantes que improvisavam ali, abraçava seu sócio e cônjuge com quem dera início à empreitada familiar. Próximo à cozinha, de pé no corredor da área de serviço, interromperam colóquio particular para observar a leitura e ensaio de cena no interior da casinha cenográfica.

– Estamos nos beijando que nem na novela, mãe.

Certa de sua fala, a menina tornou ao ponto beijante onde parara, diante do olhar surpreso e condescendente dos pais, que pareciam divertir-se com a inusitada passagem.

Meu terceiro beijo, acusa-me a memória, ocorrera ao quinze anos em festa de debutante em um clube. Mas antes, aos doze eu recusara os beijos de uma garota do bairro decididamente inclinada por mim. Mesmo sob campanha de toda a turma, eu recusara seus carinhos. Tenho impressão de que era danadinha. Não fazia meu tipo, e nem sei o porque. Era bem bonitinha e sua atração, sincera. Seria lembrança do beijo anterior?

Há coisas que não se consegue entender. Eu tinha ideia substancialmente romântica e religiosa da vida sexual, embora entre os quinze e os dezessete masturbasse-me diariamente, tamanho fervilhamento hormonal me tomava o corpo. Entretanto minha “primeira vez” ocorreu dois meses antes de eu completar dezenove anos. Tive uma infância e adolescência tão tranquila em relação a sexo e romance, que eu não imaginaria a força latente de minha natureza de sentimentos, percepção e paixão tão intensa, num florescer adulto quase abrupto e profundo de emoções, pensamentos e razão.

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