Faroeste Chinelo

— Esperem aqui, antes da esquina.

Tá maluco? Por que? Vamos lá dar um pau nesses filhos da puta! Vai ser fichinha!

— Cara, vamos fazer que nem em filme: eu vou sozinho, eles riem, desafio eles. E quando eu disser que não estou sozinho, vocês surgem do nada, andando, mas rindo e cheio de pinta, na de maioral mesmo; abafando, manja?

Falou, acho que vai ser supimpa. Então a gente entra andando quando você disser que não está sozinho, né?

— Isso. Fica esperto, só na butuca. Não apareçam antes da hora.

Ereto, confiante, saiu de trás do muro de dona Noêmia caminhando tranquilamente. Atravessou a calçada, indo pelo meio da rua. Olhava para os lados e para o chão, com um sorriso num canto da boca. Escorria confiança e soberba de seus lábios, seu andar era gingado e cheio de manha. Alguns metros à frente no resoluto trajeto ao centro da via, estacou. Poderia estar com um chapéu de vaqueiro do velho oeste cinematográfico estadunidense-americano, botas com esporas ruidosas e cinto de couro com munições e dois revólveres Colt, onde apoiaria as mãos encaixando o polegar entre a cinta de pele grossa de animal morto e o tecido de fibras vegetais que chamaria de calça. Poderiam os ouvidos presentes captar a sonoridade de fundo de alguns acordes de flauta entremeados pelo inconsistente soprar do vento, movimentando um esférico e seco amaranto do deserto em meio a cabriolas de poeira próximas ao solo.

Lentamente, ergue a cabeça. A aba do boné… digo, do chapéu de legítimo couro, vai revelando seu rosto acima até tornar visível o castanho profundo de seu olho esquerdo, avançado em relação ao gêmeo. Seu olhar duro e compenetrado perscruta a alma de cada um dos malfeitores ali reunidos. Começando pelo líder em um contato visual de quatro ou cinco segundos, e então o instilamento de terror ao coração de cada um de seus capangas, pausadamente; voltando por fim ao chefe, agora mais penetrante e determinado, como se o fizesse fitar a íris da própria morte.

O fato é que por dentro tremia; de lá para cá o grupo crescera, onde antes eram cinco, agora eram doze. Mas tinha de manter a pose.

Ah, voltou a fim de apanhar, desta vez? — indagou curioso, o maioral.

— Desta vez não será a mesma coisa, Pancho Villa. Não estou sozinho.

A relatividade da percepção do tempo é mesmo engraçada. Na mente, três segundos se passam rápidos como um copo que cai do peitoril da janela do sexto andar, ou demorados como a espera pela chamada na fila de transplante de fígado pelo SUS. A notória curiosidade surpresa nos semblantes dos meninos à frente, o som da brisa oscilante, o eco em lugar aberto da afirmação crédula que reverberava aos ouvidos. Tudo pairava no ar; cena em câmera lenta.

Do que que ele tá falando? — um dos baderneiros perguntou.

Na mesma velocidade de outro trio de segundos, o sorriso foi recolhendo suas pontas aos lábios centrados, à moda do elástico cuja força de alongamento é progressivamente cessada. Duas piscadas espaçadas dos olhos, e num espaço maior, mais uma. Alguma elevação desigual de sobrancelhas. Um desejo enorme, involuntário, de mover os olhos para o lado, como se pudessem ver o que se passava atrás de si. Fazia força para continuar olhando à frente, querendo que o espírito pudesse se torcer para vasculhar o sentido oposto da rua.

Você tá com quem, moleque? O Espírito Santo? — o cabeça dos valentões arruaceiros perguntou.

Risos foram ouvidos. Algo bom, se ele estivesse do lado de lá ou se fossem camaradas. Uma expressão pouco graciosa delineou-lhe o rosto, que congelou em seguida. “Cadê os filha das puta?”, disse o pensamento em sua cabeça. Elevou uma mão, dedo em riste, cabeça virada um tanto de lado.

— Anh… um momento, por favor.

Deu dois passos para trás. O terceiro foi de lado, os outros quinze foram de frente. Enquanto ia, olhava ocasionalmente para trás sorrindo e gesticulando ora com um indicador, ora com a palma das mãos, efetuando empurrõezinhos curtos no ar. “É rápido, esperem só um pouco”, dizia sem usar letras ou verbos. Sorria de verdade, com os olhos e tudo, pois assim era seu desconcerto pelo contraste brusco entre a confiança e o desespero.

Chegou ao ponto onde divisava a calçada transversal. Ainda via à distância um moleque gordinho correndo, como se fosse um leão perseguindo bando de gnus mais à frente, em disparada. Ao pular um buraco na calçada o redonducho corredor ainda caiu, rolou e se levantou no mesmo embalo; era premente não olhar para trás.

Lentamente, o justiceiro abandonado virou-se ao aglomeramento juvenil sobre o leito viário. Sorria sem graça, tal personagem de desenho animado quando vai atirar e a arma desmonta-se sozinha.

Vamos dar um pau nele!

Sob a ordem do capitão, ao primeiro movimento de arranque da turba, o audaz mascarado sem venda, fantasia ou cavalo, precipitou-se em desabalada carreira sobre os rastros de seus companheiros fugidios. Os calcantes que lhe revestiam os pés ficaram pelo caminho, indignados a tamanho esforço, impróprios para tal correria. Apresentados pelo fabricante sob a classificação de sandálias, se constituíam em um modelo inovador emprestado da cultura nipônica, aqui conhecidos como sandálias japonesas, que referenciadas sob análise técnica mais detalhada, recebiam alcunha de sandálias de dedo; e no fim, eram chamados pelo povo de chinelos, mesmo. Eram feitos de palmilha de borracha e tiras de plástico — que nas mãos cer… digo, nos pés errados, sempre sucumbem muito antes do solado. Bem, seja qual for o nome mais adequado, o fato é que uma vez descalçados, propiciavam aos pés muito mais tração e estabilidade por sua ausência que por suas propriedades.

Correu por quadras, guiando-se inversamente pelo som dos gritos de “pega!”, “vem cá!”, e onomatopeias variadas. Não se atrevia a olhar.

Mas um fenômeno começou a ocorrer. Após três quarteirões, a cada tetraedro habitacional adicionado ao percurso tortuoso, os ruídos atrás de si diminuíam de volume e variedade. Experimentou uma olhada rápida antes de virar mais uma esquina. Já eram uns sete a persegui-lo; quase metade deles ficou pelo caminho. Isso deu-lhe novo ânimo, renovou suas forças na balada fugitiva. Enveredou-se por estreitos, pensando que isso deveria separá-los ainda mais. Mais um bloco residencial, cinco perseguidores. Nunca na vida correra tanto; talvez desse para atletismo. Se saísse ileso dessa, consideraria a ideia.

Como em uma dilatação espaço-temporal, seu próprio bando de pistoleiros sumiu-se, vaporizou-se. Não pôde localizar um sequer, nem mesmo o grande carnívoro perseguidor de gnus. No todo, não os culpava; eram menos dados à confusão que ele, e a desproporção entre os coletivos os assustara além da conta. Em todo caso, depois pensaria sobre isso.

A sorte fez sua jogada: indo pelo meio de uma rua não muito larga, passava à toda no exato momento em que um morador, tendo aberto o portão e estando a colocar a perna para dentro do automóvel, afim de retomar o assento do condutor e guardar o veículo no quintal, eis que o instinto caçador de dois cães os fez partir em direção ao veloz garoto. Em reflexo, o proprietário saiu do veículo antes mesmo de sentar-se, determinando com sua autoridade o retorno dos animais ao limite do domicílio particular. Por um instante conseguiu seu intento, e reiniciou o movimento de adentrar o carro. Mas em seguida aqueles, tendo retornado ao quintal e ouvindo sons do lado oposto, direcionam o olhar e veem cinco gazelas, digo, cinco garotos correndo juntos. Cinco! E logo na “sua rua”, eles, os donos caninos do pedaço: um alto, negro, magro. Outro marrom, menor e ainda mais forte que o primeiro. Ah, isso era demais. Correram pelo lado direito do motorizado com rodas, encontrando o grupo de frente.

Gritos, pulos, pinotes, retornos, carreira espetacular em direção reversa tendo bocarras salivantes aos calcanhares. E o dono humano, trôpego, atrás, se arrependendo por acreditar que uma quinzena havia sido o suficiente para os cachorros acostumarem-se à nova vizinhança, a ponto de não precisar prendê-los quando ao imóvel adentrasse ou saísse dirigindo. Enquanto pensava até onde correria tendo deixado seu auto sobre a calçada e o portão aberto, reconsiderou a ideia inicial de vender dois terços das férias e adiar a outra parte; sua esposa tinha razão. Realmente, precisava de longo e merecido descanso.

Na direção inversa, ouvindo a folia confusa, um corrediço Napoleão Bonaparte olhava para trás, crendo que os russos tivessem sido cuidados pelos Mastins latinantes. Mas, ai! A sorte é mesmo um curinga. Ainda que à custa de perder um calçado para uma mordida certeira e outro para o genuíno desespero suplicante à própria vida, um deles passou pelos guardiães do destino: o mandachuva dos meninos-sem-mãe.

Na verdade, tinham. Mas lá entre a turma da rua, diziam que aquela galera era tão filha de uma égua que não deviam ter mãe.

O ar faltava, as pernas pesavam, doía a respiração e os ombros, a boca ficava seca; sentia que cansaria de vez, mas seu perseguidor parecia também sentir a estafa esportiva. Além disso, notou que o exaurido corredor de trás levava alguma coisa nas mãos, mas seu cérebro carente de comburente gasoso não pôde lhe definir do que se tratava. Não eram pedras, o que já era um tanto tranquilizador, na medida em que a realidade momentânea permitia. Chegando a uma encruzilhada em forma de “T”, na sequência de um timing perfeito, pendura-se no final do bonde que transitava à sua frente pela via transversal, como se houvesse habilmente agarrado a sela e montado em portentoso corcel veloz, adestrado equino companheiro de diversas enrascadas e fugas espetaculares. O bitrilho estava cheio, e o cobrador estava no estribo do lado oposto. O próximo ponto era dali uns três quarteirões, o que daria para ele descansar e ganhar vantagem sobre o oponente. Sorria satisfeito, olhando para trás. Mas o rei dos Hunos era danado, e fez com sua perseverança o alongamento labial do cavaleiro no corcel durar pouco. Átila subira à traseira de um caminhão.

Um instante depois, já sem sorrir, mas recuperando a alma que perdeu pelo caminho, expirando-a à medida em que perdia as forças, pôde dar-se conta de não ter encontrado nenhum de seus valentes “homens de briga” pelo caminho. Não foram para suas moradias, pois passou correndo a duas esquinas de distância e não avistara nenhum movimento pela rua em que quase todos do grupo moravam; e ele por sua vez não iria para a sua, nem passaria muito perto. Apanharia do pai, que estava em dia de folga, já que ele determinava que quando o filho brigasse em via pública, receberia uma surra quando retornasse ao lar. Dizia que tinha de aprender a agir sem arrumar confusão. Também não gostava de fugir correndo para a asa da mamãe, mesmo na ausência do chefe da casa. Não tinha muitos músculos nem gosto para brigas, apesar de se envolver com elas mais do que gostaria. Mas tinha orgulho, apesar de tudo. E pensou que seus companheiros deviam ter ido ocultar-se nas matas do morro e, portanto, de qualquer modo não haveria de levar seus algozes para lá. Mas como ele perdera o rechonchudo Ricardinho de vista, ele não podia acreditar. Espere! Será… será que aquele volume imóvel na viela, por trás das latas de lixo… mais parecia um vulto que qualquer outra coisa. Ah, que camarada danado!

“Tudo bem”, pensou consigo. Já que não conseguia correr, escondeu-se. Melhor assim.

Como sorte boa uma hora acaba, no começo da segunda quadra o fiscal das passagens, malandreado com as malandragens dos malandros que agem malandramente no malandreio de malandrear malandrosamente o transporte público, surgiu para dar aquela olhadinha na lateral, como quem não quer nada. O garoto escondeu-se por trás de uma moça com arranjo físico e vestido volumosos, mas visão de cobrador de bonde é olho de águia em caçada. Divisou num relance a pequena mão num vão lépido entre corpos, e sem ser visto, avizinhou-se do penetra.

— Passagem, garoto! — Falou com voz austera e súbita.

Embora esperasse a possibilidade de uma aproximação, o susto foi razoavelmente grande; largou-se do bonde num salto, caindo ao chão e rolando uma vez. O veículo de carga com o bárbaro vinha logo atrás, e havia um caminho lateral do lado oposto ao qual caíra. Lançou-se correndo à frente da bruta carruagem que levava o imperador eurasiático, a qual freou para reduzir a velocidade, quase parando, afim de evitar o atropelamento do gazeteiro de bonde. Seu perseguidor já ia pulando, quando foi surpreendido pela frenagem inesperada, e o salto iniciado fugiu a seus recém-estabelecidos parâmetros de variação cinética. Caiu também, capotando como batata na feira que escorrega do monte. Após o caminhão passar, atravessou a rua atrás do ousado pistoleiro desarmado.

Entraram por uma passagem que era menos que uma rua, pouco mais que uma viela; beco. O menino se enganou, confundindo esta travessa com outra. Viera pouquíssimas vezes por aqui, e agora embaralhara-se no agito. Estava em uma via sem saída.

Olhou rapidamente para trás e não viu o inimigo. Pensou em pular uma das cercas ou muros relativamente altos, mas sabia que as casas comumente tinham cachorros hostis, como a dos cães assustadores que dispersaram quase todos os perseguidores. E os sons canídeos ao redor lhe davam convicção de que invadir um daqueles quintais, ainda que momentaneamente, constituía-se em posterior ida ao hospital para aflitas injeções antirrábicas e agoniantes pontos cirúrgicos. Isso além do padecimento imediato às mordidas, a depender da ira e do tamanho das criaturas caninas.

Enquanto pensava tudo isso em três segundos (medida referência-padrão por excelência para a aplicação da teoria da relatividade geral no campo do desespero infantojuvenil), ouviu à distância, atrás de si, um baque duplo e baixo, vindo da entrada do estreito. Viu dois objetos no chão, no meio da passagem. Uma figura surgiu caminhando de lado à entrada do caminho, parando diante das peças ao solo. Virou-se lentamente, ficando de frente ao beco. Pernas afastadas, braços relaxados ao longo do corpo e levemente distanciados dele. Dedos impacientes, movimentando-se em ânsia ao momento. A figura ofegava, recuperando o fôlego. A silhueta obscura pelo sol poente às costas projetava-se adiante, aos pés do menino posicionado em sinuca de quina. Conforme a carruagem de Apolo ocultava-se por trás do temido salteador, a penumbra avançava: décimo por décimo, centímetro por centímetro. A sensação era de que o astro-rei era absorvido pelo maléfico bandoleiro, que ia transformando energia clara e quente em uma sombra escura e fria, crescendo ao ritmo em que a própria fonte da vida universal era sugada por sua álgida alma.

O acuado cowboy teve a impressão de ver amarantos gigantes passando na rua por trás do arfante mensageiro de sua morte, enquanto se ouvia o som cálido, manhoso e propositalmente misterioso de uma gaita. Mas eram apenas as rodas de uma carroça, transitando sem pressa. E o som de gaita, era… bem, era som de gaita, mesmo. Alguém devia estar praticando no quintal.

— Até que enfim te peguei, moleque! E já que fiquei descalço por causa daqueles cachorros malditos, vou te dar uma sova usando os seus chinelos, que agora são meus. Vou esfregar a sola deles na sua cara.

Negras. Reconhecera enfim os sólidos carregados por todo o trajeto, às mãos do conquistador medieval: seus próprios calçados de passeio informal, pisante preferido para o caminhar cotidiano. Quando as ganhara dos progenitores alguns meses antes, invertera as bases: ao invés de solas pretas e palmilhas brancas, agora a parte em contato com o piso era alva e seus pés pisavam o atro, combinando com as tiras de mesma cor. Pura marotagem; vontade de inventar. Não era ele, de todas as utilidades cotidianas dadas às tais sandálias, seu pioneiro inovador; outros criaram os usos como traves para futebol e equipamentos de resgate: movimentadores arremessáveis de bolas flutuantes sobre canais ou emaranhadas em copas de árvores. Igualmente bem, funcionava como alcance eletricamente isolante do seletor de temperatura do chuveiro, como mata-insetos e esmagador de baratas, avivador de brasas em churrasqueiras, espantador de gatos arteiros próximos a cortinas, castigo corpo-a-corpo e à distância — este, teleguiado — para filhos levados.

O fato é que todos perguntavam onde adquirira tal modelo exclusivo de um artigo tão popular, e ao exibi-las às pessoas, a maior parte compreendia rapidamente o estratagema, ficando deslumbradas com a solução de simplicidade extrema, para fuga ao arcabouço inexorável de azul, marrom, amarelo ou preto, sempre em dupla com o branco; as poucas e novas opções oferecidas pelo fabricante naquele fim de década. Já era um avanço. Por mais de cinco anos existira apenas a azul (com branco, claro). Não sabiam os ocasionais contempladores se deveriam qualificá-lo como prodígio, louco ou apenas um fortuito resultado de brincadeira infantil. De todo modo, procuravam reduzir para si mesmos a importância da descoberta, como se não pudesse esta constituir-se chave de raciocínio criativo para inúmeros outros problemas logísticos da vida. Afinal, tratava-se tão somente de alteração da bi para a monocromaticidade, de modo a escondê-la ao olhar inaugural. Talvez o fizessem para proteger-se da autopercepção à própria insignificância intelectual humana relativa, ou à constatação de alguém tão jovem e ainda com pouco estudo criar resposta digna de um gênio. Há genialidade na complexidade, sem dúvida; ainda mais extraordinária é a mente que alcança resultado com tal frugalidade que deixa as outras sem reação, fascinadas sob domínio da reflexão: “como eu não pensei nisso antes!?”

Tendo ficado com três saliências em intercurso com o solo, suscitava à primeira vista ideia de desconforto; no entanto, era o caminhar sobre elas aprumado e agradável, e em chão seco, estável. Havia por certo um inconveniente: destacados, os pequeninos discos originalmente concebidos como pontos de fixação acomodados em rebaixos no solado, alinhados assim à superfície plana e sofrendo contato por igual do piso, agora sofriam abrasão imensa, reduzindo em muito sua duração, já que o lado primordialmente destinado ao contato com os pés não possuía tal recôncavo. O arteiro inovador sabia disso; estava às voltas com princípios contraditórios. Um exemplo do que o pensador francês Edgard Morin chamara de “valores complexos”. Durabilité ou beauté? Durabilidade ou beleza? O primeiro lhe proporcionaria status com seus pais, o segundo lhe permitiria destaque na sociedade. Utilidade mecânica ou estética? Bom seria ter ambos. Mas em não sendo possível, determinou aquilo que mais gozo lhe traria, declaração notória de sua individualidade única: a valoração de sua personalidade na relação com outras. Algo com seu nome escrito, a ser percebido e admirado pelos demais.

Os olhos e raciocínio do moribundo ex-possuidor da inovação cromática esquadrinhavam o ambiente, e vasculhavam as ideias em busca de um ardil ou estratégia salvadora. Já desistira de saltar por sobre os cercados elevados ou de enfrentar o vilão. Estava descalço, habituado era ao modo espartano militar do caminhar infantil. O chão era de terra. Havia uma poça grande à esquerda, junto ao muro. Seu calçado, vítima de apropriação indébita por furto mediante ameaça de roubo, era um número menor que o pé do sujeito. E ao contexto da cena, lhe parecia mais que o facínora colocara os chinelos por conta de dores na sola dos pés, depois de tantas quadras percorridas, que por querer afrontá-lo com isso.

O descalçado aproximou-se lento da poça, dois passos à esquerda, obliquamente. Do alto do cume da confiança contravingativa, o temível bandido pareceu adivinhar uma escalada emergencial de fuga, mas o fato de vir em sua direção ao mesmo tempo em que ia ao muro o deixou confuso. Com a ponta do pé esquerdo, o menino jogou água em direção ao rival.

— Ei, quer me sujar? Ah, seu pivete, não é isso que vai me parar. Vem aqui!

Acelerou em direção ao diabrete que o fizera correr, suar e agora molhar-se em água de poça lamacenta. O menino continuou junto ao muro; se o outro viesse pela poça, desviaria para o lado. Se a contornasse, saltaria em frente.

João Malvadão pareceu adivinhar sua estratégia locomotiva. Veio na diagonal, sem importar-se em se sujar ainda mais ou o que fosse, apenas preocupado em lhe fechar a fuga para a rua. Em cima da hora, o arremessador de água barrenta lançou-se para trás, recuando para o fundo da ruela. Por um instante, considerou tudo acabado.

Entretanto, ao sair da poça em que acabara de entrar, um movimento indesejado e sutil no caminhar aos arrancos do valentão mostrou ao perseguido que sua ideia tinha de fato fundo prático. Ainda junto à cerca, durante o repentino avanço final do inimigo para agarrá-lo, impulsionou-se com os braços na lateral e correu para a parede oposta. O ignóbil patife arrogante esperava tal saída. Fez o movimento de pernas para mudar de direção e pegá-lo prensando-o na cerca para onde fugiu em um movimento só. Mas a agilidade em que o molecote realizara o impulso para escapulir o surpreendera. Acabou por fazer um movimento em falso, quando teve de se esforçar mais afim de tentar alcançá-lo na transição, e seu pé escorregou de cima da base de borracha, rompendo o cintilho flexível de polímero sintético e causando sua queda, após derrapar entre látex vulcanizado e solo arenoso.

Sua mão direita relou na coxa do ligeiro esquivador, enquanto seu corpo ia de encontro ao chão. Quando deu por si, entre o tombo e o desalento desonroso da queda, incrementado pela alça rompida do calçado tomado ao inimigo — como se tivesse se partido de propósito —, seu alvo encontrava-se na intersecção com a rua movimentada, que agora parecia tão longe. Parado, ele parecia sorrir, saudando com a palma da mão tal fosse passageiro de transatlântico a deixar o porto.

O que o caído não percebera é que o arremesso hídrico do pé canhoto não visava sujá-lo, mas molhar a seus pés e o chinelo, principalmente. O esperto ex-dono sabia o resultado da combinação entre terra, água, chinelo de borracha e movimentos bruscos de mudança de direção, como tantas brincadeiras, corridas de tocar campainha, fugas de latidores e partidas de futebol de rua o haviam ensinado; e compreendido como a sandália de dedo que pegava do irmão menor sempre durava ainda menos nos seus pés; e como tudo isso lhe fez aprender a não depender de chinelo, já que o pé se acostuma ao caminhar desnudo, ao contrário da carteira do pai, que realmente não aguentava a média de um chinelo por mês.

O vencedor virou-se para ir embora, quando no chão ao lado de uma lata de lixo, avistou algo que lhe motivou a interromper sua caminhada vitoriosa, a fim de abaixar-se para apanhar os dejetos ali posicionados. Levantou com seu prêmio, deixando-o cair aos próprios pés. Pisando sobre ele, os calçou e mais uma vez comunicou à distância, virando o hemisfério superior de seu corpo, apresentando no rosto o sorriso irônico de quem não tem culpa da própria boa sorte, e os braços como quem diz “fazer o quê, não é?”. E partiu, com os velhos chinelos novos das mesmas cores do céu, que acabara de ganhar. Bons, funcionais. Um tanto desgastados, mas com alguma sola ainda para queimar. E no seu número.

Deu dois passos e eis que um bonde já ia passar cheio, e quem diria! O cobrador, do outro lado; o motorneiro, apreciando colóquio com jovem elegante próximo a si; e seu cantinho da carona livre, perto da traseira. Andou em direção contrária ao veículo, posicionou-se, e no momento certo, tomou impulso e saltou para seu lugar de transporte gratuito. Talvez tenha sido a viagem mais rápida em veículo coletivo da história; um segundo depois, estatelava-se no chão, rolando.

Tique aos gregos ou Fortuna aos romanos, são alguns dos nomes dados à inconstante deusa da sorte, divina dama volúvel que se diverte com as ocasionalidades que causa, dando certo gracejo ao mundo. Seus sopros são imprevisíveis e podem ser bem curtos; tudo pela diversão.

Ao fundo do escuro vale estreito, ainda debruçado sobre o arenoso solo, sentindo-se triste, desalentado, magoado, chateado e sem vontade de cantar uma bela canção, o empoeirado valente de tira quebrada observava incrédulo, surpreso e confuso seu vencedor ressurgir à sua vista em movimentação de capote, estacionando em frente ao beco do combate sujo. Ao mesmo nível, ambos cruzaram o olhar em um quintal de coisas inusitadas. Desta feita, a chinela não se rompeu ou escorregara; ficara grudada em uma imensa bola de chiclete, daquelas feitas com dois ou três chicles, que banha intensamente a boca do mascador em açúcar, tutti-frutti ou hortelã, mal se conseguindo mastigá-la. Supermassa chicletícia aglutinada, que a iniciantes serve de aprendizado, e a experts grudadores-de-goma em carteira escolar, enfatizam treinos de superbolas explosivas, minigenki-damas para cobrir a cara de rosa ou verde (dependendo do sabor), como se fosse folião da Mangueira em plena avenida. Pois em vez de servir de máscara de carnaval, decoração oculta de interior em móveis públicos, ou como esferas carregadas com energia vital para salvar o universo de alienígenas lutadores de MMA, desta vez a massinha adesiva fora arremessada por anônimo cidadão ao solo, como poço raso de grude invencível que manteve a base vulcanizada junto à ela, enquanto a correia soltava-se do encaixe causando ao recém-possessor da maravilha tecnológica, perda de parte do impulso inicial, ludibriando os cálculos viso-espaciais necessários ao completo sucesso da manobra planejada. Em soma a isto, esquecera em sua glória que também seu pé estava excessivamente úmido, remolhado pelas gotas de líquido de poça que escorreram do tornozelo a seu pé esquerdo. O salto ocorreu, o alcance do estribo foi realizado, mas em condições tais de equilíbrio e posicionamento, que impossibilitaram a estabilização sobre o veículo em movimento.

Deitado de costas à margem do leito carroçável, parecia curtir o fim de tarde na praia. Cognitava mais uma pérola a seu tesouro infinito e insurrupiável de conhecimento: há uma razão para um par de calçados ainda com sola utilizável estarem no lixo, ainda que seja a frouxeza arrombada do orifício destino a conter a tensão transmitida por tirante plástico. Acerca dos quais, aliás, o cartaz na loja dizia que não têm cheiro, não soltam as tiras e não deformam. Curioso, o vão entre o discurso abstrato e o material arrebentado; talvez um experiente vendedor de automóveis usados tenha criado a frase.

Refulgiu à mente do caído de frente, um raio de luz da compreensão universal, quiçá apenas a contemplação da semelhança de agruras e entreveros cármicos entre as vidas de ambos. Provavelmente por pura falta de opção — incapacitado encontrava-se moralmente perante as artimanhas do Cosmos — sorriu, se esforçando por conter embalos sucessivos de riso. Por fim, vencido por mais este oponente, desatou a “rachar o bico”, em escala crescente de gozo e satisfação, certeza absurda de tudo que era incerto. De lá do cruzamento beco x rua, o caído de costas começou a rir sem dar-se conta, em resposta. E os dois riam olhando-se, de modo natural e invulgar; o riso solto e fundo de quem sente sem saber porque, rir de chorar.

Em suas ruas eram conhecidos por Vareta, o que estava com o encaixe solto, e Feijão, o que estava com a presilha rebentada. Dois desprovidos de calçado, traídos às tiras, trações insuficientes e fixações excessivas. Reconheceram-se moleques, patetas e patéticos, bonecos na mão do Destino, apenas vivendo suas vidas. Se iniciou nas gargalhadas no chão à distância, entre quase desconhecidos, uma longa estória de rivalidade entre agora, amigos.

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