Segunda Natureza

O homem de jeito pouco expansivo era talhado à lida, com a hábil sensibilidade de artesão renomado e a discrição de um monge beneditino. Era ele padeiro, e seu ofício se iniciava com o despertar muito antes de o galo cantar. Ia pela escuridão noturna, sendo a meio caminho alcançado pela madrugada virginal, caminhando sem receio por cada canto, em destemor dentre as penumbras, negruras ópticas. Por onde não há lâmpada para fazer fótons misturarem-se à massa escura do espaço, preenchido apenas de ar frio e desilusões intermitentes. Envolto em pensamentos, percorria estreitos e largos, preferindo àqueles a estes. Os cheiros de flores e musgos o atraíam, usando do perfume que expiram quando a luz se vai e os ruídos cessam.

De pouco se servia da utilidade cartográfica ou planejamento lógico, afim de eficiência cronológica nos deslocamentos. Todo modo não chegaria atrasado, precisos eram seus hábitos de pontualidade, tal mecanismo em relógio de bolso britânico. Seu labor – a melhor parte dele – se iniciava antes do contato com o trigo moído, no trajeto invariavelmente irregular, irrepetível como cada sol poente o é.

Podia ir de bicicleta, lhe comentaram certa vez. Às vias principais, daria rápido no destino, reservando mais de si ao gozo no reino do sono e seus devaneios esvanecentes. Não o podiam entender, e nem iriam.

Uma vez na fábrica, manuseava com habilidade e satisfação as massas de pão. Fazia-os de consistência macia, um tanto pegajosos quando doces. Havia arroubo por passas e creme, às vezes avelãs e nozes; pouco gracejo pelos pós brancos, neves adocicadas que confeiteiros comuns idolatram. Mas as cerejas perfumadas em calda, ah! Os morangos túmidos, com o frescor do corte feito! Havia fascinação pelo vermelho, como na natureza a visão impulsivamente é atraída pelas quenturas cromáticas, que são vida; a plena vida, quente e pulsante. Cranberry e framboesa, amora, às vezes groselha. A hidratação em seus tons carmesins e carmim, rubi, escarlate, bordô. Sua força e calor úmido, ardente como corpo febril e revigorante como orvalho noturno, intercalavam-se em suas mãos. Passeavam feito borboletas entre flores sob sua vista, desmanchavam-se-lhe nos dedos e o faziam sorrir.

Seu gozo era profundo; criava exemplares panificados que maravilhavam os comensais, os quais, ávidos pelo encontro sensual, não abdicavam à matinal assembléia marcada, onde a pulsão pelo êxtase dos sentidos olfativo-visuais movia os corpos para fora das camas, mesmo nas manhãs mais chuvosas, assim como a força da água move troncos flutuantes em um rio.

A consumação de sua afeição pelas pastas assadas e confeitos era concorrida; oriunda de perto e de longe, a assistência exultava as criações, o talento lapidado agraciando os apetites e dando corpo às salivas que precisavam de algo erótico para se envolver, a substância onde o afeto materializava e se dava a razão de ser.

Eram salgados alguns, e açucarados outros tantos. Havia recheados com derivados de carne, leite e condimentos. E os dulcificados, paixão tão inconfessa quanto incontida de seu coração. Aclamado, seu creme era méleo e quase imperceptivelmente picante, algo acre, amargor indefinível. Fluía por ele fios e córregos vermelhos de frutas que escorriam, aos pedaços, de cima dos pães para o metal quente abaixo, quando trazido da cozinha para o balcão, com a designação de importância e avidez que se tem quando um deus, renegado de seus iguais, traz sobre a mais fina prata porção subtraída ao banquete divino, para festa entre mortais no palácio real. Os olhos, alguns modorrentos, outros sociáveis e vivos, um ou outro taciturno pela chuva; todos renovavam o brilho quando viam, antecedidos pelo aroma, aqueles pedaços furtados de céu, fragmentos, lascas pecaminosas do paraíso.

E saíam felizes, a rumo de seus lares e famílias, que já acordavam ao segundo barulho do portão, denunciador do regresso da Senhora ou Senhor. Havia pão, havia pão! E iam se lamber, convivas de mesa se tornar, cafés pretos e beges com leite e chocolatados e chás, entornar. Ali no domingo refinada arte os agraciava, o esplendor do melhor de alguém a eles premiava.

Pois o panificador não simplesmente fazia; amava. E por amar, dava. O fim às dores, o exílio do pensamento encarcerante e álgico dos desamores; aquecia, por suprimir o frio de quem no escuro dele sofria. Encontrou no caminho diário de uma profissão todo seu ardor e sua função, a razão de seu ser. Foi recoberto de graça; e com ela, espargiu vida, abrandou tristezas. Esquartejar, dilacerar, mutilar, matar sob o véu da noite. Esta era sua motivação, seu fogo, epifania da existência. As vísceras eram salgadas, e o sangue quase sempre se fazia açúcar: melaço de tão doce metálico. No florescer de sua essência, seus talentos ao mundo cingiam beleza. Ser padeiro era sua segunda natureza.

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