Inação

Um instante. Ou, mais prolongado: o coletivo urbano motorizado que surge no horizonte, passa levando cabelos e deixando pó, e diminui, formigando-se no tamanho e no labor, enfiando-se por dentro da terra e sumindo da vista — que se vira ao acompanhá-lo, ficando de costas ao futuro para olhar o passado, o instante que se perdeu. Passou. E não há motivação explícita para além da apatia à sua presença momentânea.

Era o nosso ônibus. O que nos moveria para o terminal rodoviário, o formigueiro onde os diligentes insetos operários carregam outros membros da colônia, acomodados sobre a folha automovente motorizada. O perdi. Fiquei de pé, as patas calçadas e a cabeça coberta por um chapéu sob o sol, a rua vazia. A praga da inação que mergulhou meu corpo no lago da ira, arremessado como pedra, tombado como árvore de cima do alto rochedo, defronte a visão recente que me animava.

A fúria traz mais frustração. A apatia estúpida e a estupidez da raiva. Sozinho, me joguei do bosque ao pântano. Há sempre um ineditismo mais inédito em mim mesmo, expondo a constatação de quão falho sou.

Eu deveria rir.

Uma vez no destino intermediário, a fila para a compra da passagem era importante. De um lado, o veículo de aluguel que iria partir nos aguardava, aos anúncios de convocação final. Do oposto, os fórmicos seres à frente do computador trabalhavam incessantes. Ainda havia três partes interessadas à nossa frente, quando o prisma metálico oco sobre rodas fechou as portas e saiu.

O silêncio de minha voz era o emburrecimento do bicho raivoso. A garota que me acompanhava pagou por dois conjuntos de papéis grampeados entre si, que nos situava em localização diversa a como um casal deveria ser, e enquanto dirigíamo-nos para beber algo na lanchonete próxima, tomei-os, pedindo por verificar seu conteúdo. Em menos tempo do que o esperado, não uma hora, mas em meia sairia outro. Houve um degrau em decréscimo do sentimento quente e ruim que se desconcentrou, músculos que diminuíam a contração.

Logo embarcamos. Sentando lado a lado com um corredor a nos separar, uma moça ofereceu-se para trocar de lugar, nos deixando próximos. Ao nos acomodarmos, olhar para trás mostrava que um pouco mais ao fundo, havia lugares contíguos vagos. Na última fila, de nosso lado. Comentei o fato com a mulher de educação explícita, que cedera seu lugar à janela para sentar-se ao corredor, a qual autorizou-nos a ida até lá. Respondeu que poderíamos ir; até o destino, ninguém mais subiria, afirmou. Segundos após a demonstração de satisfação que lhe ofereci pelos lugares recebidos, suscitei que fosse ela a usufruir do espaço, e aceitando a sugestão, informou sua ida até lá. Uma gentileza, provida pela inteligência, resultou em ânimo alheio e um lugar um pouco mais discreto a ela, onde espichar-se em duas poltronas não constituiria deselegância visual aos passantes intermediários.

Descemos no local ambicionado. Nossa anfitriã não chegara.

Tal preocupação e desapontamento anterior não sustentaram justificativa. Quando coisas dão errado, tantas vezes ainda dão certo.

2 comentários em “Inação

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