Um Ano

Hoje faz um ano da criação deste blog.

Nos posts sobre o recém-lançado livro derivado dele, como você bem sabe, explico que sua ideia surgiu de conversas online com uma paquera, que hoje permanece amiga, a “Kitty” citada no livro, que não é a mesma Miss Kitty, autora de escrita intensa que também faz parte da comunidade do blog. E tal aparente confusão, percebi só agora. Coisas de escritor distraído.

No mesmo dia em que o criei, escrevi e publiquei seu primeiro escrito, Paixão Romântica. Contando com este que lês, chegou-se então a trinta e sete posts, entre contos, crônicas, ensaios, filosofia e poesia.

Descobri aqui lugar em que minha energia não se desperdiça, se expande. Sou eu mesmo, e não busco adequação aos outros, mas mergulho em mim. Há um impulso, uma natureza que se impele, aprisionada, para se exuberar, contra todas as possibilidades que o mundo possa oferecer. Porque esse é o único modo que pelo qual ela concebe viver.

Neste espaço, TheJustWriting.blog, além da própria tela do autor se celebra a vida, suas riquezas, possibilidades, e acima de tudo, a beleza; constantemente esquecida, em nome da sofisticação associada à valores emprestados de status, sucesso, e supostamente, felicidade. Se canta, em tal paragem, o próprio encontro da vida nela mesma, em que a inspiração é o motor que se alimenta dela própria e a produz, ao mesmo tempo.

Os textos estão organizados em ano 01 e ano 02, tomando por referência o espaço entre o dia de chegar em casa com a roupa branca nova, suja e suada, e sair de casa com a vestimenta virginalmente alva, limpa e perfumada. De janeiro a dezembro, em outras palavras.

Em torno de um texto por mês tem sido publicado aqui, denotando diminuição da atividade literária. Ocorre que o oposto se dá; envolvido com a produção do volume dois do Just Writing, além de outros livros, como citado por aqui, tenho escrito com frequência quase diária.

Além de comemorar este primeiro ano de muita satisfação graças ao WordPress e à comunidade fantástica que ele cultiva, este post é para citar algumas curiosidades sobre os textos, que podem enriquecer a experiência de quem os aprecia.

Comecemos pelas imagens, tão chamativas. Você percebeu como cada uma se complementa ao texto cuja apresentação ilustra? Após ler o post, pode-se perceber nuances como cores, tons, sombras, luzes, montagens, detalhes contextualizados. Por exemplo, em Paixão Romântica: a rosa vermelha, símbolo cultural clássico do amor romântico, jaz sobre o piso de madeira, evocando talvez ambiente rústico, mas charmoso, em que as pétalas mantêm sua cor e força, mas tudo o mais se tornou monocolor, cinza, sem vida. Ao ler a crônica, evidencia-se que a flor representa a queda, a decepção, o sentimento intenso que continua no ser, mas ao redor dele, parece ter se esvaído o que antes era tão vivo, brilhante e excitante; feliz.

Em Gatos, felinos sendo felinos invejam-nos por sua vida simples e pronta, esnobes ronronantes livres da liberdade de ter escolhas. Em Tentações, o morango: novamente um simbolismo clássico — fruto que inspira a ideia de um pecado mais sexual e menos “original”, como o faz a maçã — que agora surge em variedade, como a angústia experimentada pelo personagem sugere. Pessoa Ideal traz uma criança atentamente observando a si mesma de perto, no espelho. Como se buscando a própria natureza, os valores que são os seus, para possibilitar um relacionamento saudável e equilibrado com o outro; perscrutando quem é, o que é importante para ela, o que aprecia em alguém e o que tem a oferecer. Pois, claro como água, é dando que se recebe: e só dá quem tem.

E em Como Pode Um Peixe Vivo? O “mamífero sendo peixe”, citado na frase complementar abaixo da foto, é uma baleia saltando e mergulhando no mar. Se em vez de cetáceo for um homo sapiens, e em vez de oceano, a própria essência, compreende-se a mensagem não verbal. Uma orca é um mamífero assim como um ser humano é, mas ambos podem “se fazer” de peixes, nadando e mergulhando — como de fato o animal na imagem o faz. E ao perceber a alegria e o valor de se jogar, metafórica e literalmente, parece se formar uma interpretação mais ampla. Em Difícil Amar, um cubo de Rubik mimetiza as possibilidades e dificuldades de encaixe entre duas personalidades distintas. Quando isso acontece é mágico, mesmo. Eu Te Amo faz uma brincadeira com o “I ♥ You”, frase composta de letras e pictograma, que foi uma expressão muito usada popularmente tempos atrás, e nunca mais a vi. Este “i love you” tem quatro corações entrelaçados ao invés de um, sendo o de cima um pouco maior que os demais. Ao ler o texto, percebe-se porque são quatro. E quanto ao maior, teu ponto de vista o dirá. Atenção especial quanto às certezas: o ângulo de observação e sua interpretação constantemente revelam mais sobre o observador, do que sobre a paisagem.

Faroeste Chinelo. Esta imagem é uma das que foram produzidas por mim. A posição dos calçados, as cores, a disposição das tiras de um, o piso, a terra, o sol poente. Tudo faz parte, e é intencional. Ao viajar pelo curto conto, visualiza-se todo o significado da cena, como de fato aproximadamente ocorre na estória. E seu resumo-subtítulo, brinca com uma fantástica película cinematográfica de 2007, vencedora de quatro Oscar, No Country for Old Men — Onde os Fracos Não Têm Vez, no Brasil.

Em Segunda Natureza, a face social do personagem é evidenciada — sua natureza secundária, atributo exclusivamente humano. Mas a verdadeira natureza, a primeira, está em tudo; tens olhar para vê-la, ou sua compleição condicionada te impedirá de observar o que se desnuda, em cada linha, à sua posição privilegiada de leitor?

Entrelinhas. Subjetividade, discrição, comunicação implícita. Em Faroeste Chinelo, a estória principal é que a nada na vida há tanta seriedade, às vezes imaginamos problemas como muito maiores do que são; algumas inimizades podem ser não-amizades, antes por desconhecer o outro que por incompatibilidade, propriamente; e que no geral, o tempo de criança é muito bom. No filme americano citado, “Sem país para homens velhos”, em tradução simples, a estória principal do roteiro não toma o plano primário, e é preciso atenção e sensibilidade para perceber isso. Tal como em O Segredo dos Seus Olhos, um belo exemplar argentino da sétima arte, publicado em 2009. A estória é sensacional; mas não está na primeira linha do palco, pois na vida as grandes estórias nem sempre estão. Cabe a você enxergar, e encantar-se por sua autenticidade sublime.

E como última análise, trago ao holofote a fotografia-título que encima e apresenta o blog, o “escritor bíblico”, um robô industrial germânico. A imagem foi escolhida como símbolo dos sentimentos que me levaram a escrever; é de um equipamento em um museu na Alemanha, e foi capturada por um professor sueco, doutor em mídias digitais e seu efeito social. O engenho mecatrônico foi concebido para escrever a bíblia em letra caligráfica, como as que eram feitas por monges em Scriptoriums, antes da invenção de Gutemberg.

Bios_robotlab_writing_robot.jpg

Site do autor da imagem: https://www.flickr.com/photos/gastev/2174504149

Site do robô escritor: https://www.robotlab.de/bios/bible.htm

Esta máquina ilustra tanto a mecanicidade que pode ter o ato de escrever, como a precisão com que se tenta exprimir em letras o que vai aos sentimentos puros. Embora aparentemente fidedignos, seus movimentos são restringidos à proporção, forma e códigos da escrita e língua; representam a frieza, com a qual é possível exteriorizar o que lhe oprime, fazendo-o de modo anestesiado pela dor crônica, o abatimento da ilusão perdida e seu desencanto.

O braço firme e voluptuoso, em cor marrom-avermelhada, representa a pujança e emolumento das emoções, rústicas, selvagens, preponderantes. E no caminho para a escrita, seus ímpetos são moldados pela precisão e suavidade, que o raciocínio esmerado e atencioso pode refinar em letras de beleza e singularidade únicas, representado pelo suporte escuro e leve, e o cilindro de corpo delgado e ponta fina, sustentado e seguro por ele, evidenciando o contraste entre a força bruta dos sentimentos e a delicadeza da caneta frágil, de escrita milimétrica, compondo peça final de inspiração e sublimidade apreciáveis.

Há ainda que notar-se a iluminação fria, em tons azuis e cinzas, em contraste com a quentura cromática do metal, e a clareza morna da região onde a arte se apresenta, afinal.

As outras imagens do blog e as que serão postadas, todas têm seus significados. É uma questão de olhar atentamente, ver, e sentir.

Ah, e quer saber quais foram as outras outras duas imagens que são de minha autoria? Pois são as de As Ruas da Manhã de Domingo, Eu Te Amo.

E é isso. Os primeiros parabéns vieram do próprio site, em uma lembrança automática que tem seu apreço, mesmo assim. Sei bem o suor, a dedicação acentuada e o valor que este espaço e a escrita têm para mim. Parabéns ao blog e a nós, que lemos, escrevemos e rimos; vivemos.

9 comentários em “Um Ano

  1. Parabéns pelo trabalho muito bem feito. Excelente!
    Continue nos agraciando com o seu talento para escrita!

    “No que diz respeito ao empenho, ao compromisso, ao esforço, à dedicação, não existe meio termo. Ou você faz uma coisa bem feita ou não faz.” (Ayrton Senna)

    Curtido por 2 pessoas

    1. Não sei como você descobriu, mas sou fã do Ayrton Senna, mesmo. Esta frase representa perfeitamente a vida do piloto e o modo de ser bem sucedido com excelência. Obrigado pelo carinho, Khaleesi.

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