O Chefe

O chefe é um elemento herdado de tempos antigos. De quando o escravismo era tido como natural, desejado e necessário ao equilíbrio do mundo. Quando se cria que existiam os seres que nasceram para servir, e os que vieram ao mundo para serem servidos.

Ainda bem que, evidentemente, de modo indiscutível, isso não existe mais.

Não é?

O feitor continua. O homem que tem o chicote, determina a labuta momento a momento, aplica castigo e até pode levar o subjugado empregado à morte — o desemprego.

É que o ser humano é bicho vaidoso. Dê um nome qualquer que o distingua, lhe conceda um veículo imaterial que o permita transitar entre seus iguais com desigualdade, e ele agirá como o general que retorna em triunfo à Roma, ereto sobre a biga, encimado por coroa de louros e envolto em capa vermelha. Não precisa muito. Um distintivo de metal barato, um chapéu, um chicote ou uma sala individual. Terás o mais fiel trabalhador para lhe dar lucros multiplicados por cabeça. Não por dedicação à empresa, mas por amor ao cargo, único lugar onde reina em alguma medida. Já que no caminho de casa ele é mais um motorista desrespeitado, desrespeitante e comum, e no lar, subalterno do cônjuge e de seus herdeiros. Por vezes, nem o cachorro o obedece.

O chefe é arrogante e autossuficiente, porém inseguro; tudo tem de passar por suas mãos. A iniciativa deve sempre receber o carimbo dele. E sendo ela de outro, quase nunca recebe.

O chefe típico sabe tudo, conhece mais que todos, é a palavra final do conhecimento humano.

O chefe clássico é corno — por tratar a esposa com a pretensa autoridade com que trata os subordinados —, e eventualmente, ex-corno. Porque a esposa se divorcia.

O chefe tradicional reclama, critica a quase tudo e todos. Mas é incapaz de mudar de emprego.

O chefe convencional não é líder, é chefe; e chefe toma café forte e amargo. Pois de doce e suave, já lhe basta o que a vida não tem.

O chefe habitual é um filho da puta amarescente e frustrado, que se incomoda profundamente com o serviçal mais jovem que estuda visando algo diferente ou maior. Longe dele.

O chefe institucional é causa de 90% dos pedidos de demissão.

O chefe cheeefe, é o cão de guarda dos interesses da Casa Grande — porque é dela que lhe derivam migalhas maiores.

O chefe é um ser que se esforça para ser relevante. Só o conforto, e o medo de perder o lustro do posto, lhe atrapalham para conseguir se tornar importante.

Enfim, o chefe é um pau no cu. E daqui a pouco, o meu vai opinar sobre o que não estou fazendo, porque o rabo dele está doendo.

O chefe é o capataz do capeta.

Se há uma vida boa, não existe chefe nela. E vou direcionar minha energia, a ela.

3 comentários em “O Chefe

  1. Excelente reflexão sobre essa classe triste, triste na essência da palavra mesmo. Em geral, essa raça só existe pra gente conseguir distinguir o verdadeiro líder. Do trato com o cão ao mendigo ao doutor e à mulher, o líder, como o chefe, nunca muda, até por isso ela o trai, por mais que representemos muito bem nossos papéis fora de casa, da porta pra dentro não há diabo que consiga disfarçar. O líder é o companheiro, o igual que nas horas de chumbo se sobressai, toma a dianteira, morre primeiro. O chefe quer domar. Compensa sua falta de ser-humanidade, afeto, diálogo, convencimento, em suma, a incapacidade de ser respeitado respeitando, com bajulações e humilhações, as ordens mais bobas pra mostrar quem é que manda e os elogios mais amarelos aos que podem ser úteis em sua escalada profissional. É um sujeito que não dorme, por isso não sorri, não conta piadas. O que mais o frustra é a sede por liberdade, ver que enquanto ele busca ser dono do mundo, os que não desejam vivem numa leveza invejável e os que “são” não dão a mínima pra suas lambidas. E enquanto batemos o ponto e esquecemos de sua existência, a nossa batuca em sua cabeça o tempo todo. O fato é que se tivessem o convidado pra jogar bola na infância, muita coisa poderia ser diferente. E eu não sei porque dei essas voltas, você resumiu perfeitamente, o chefe é um belíssimo pau no cu (e ele sabe disso).

    Uma escrita que acabou o texto e nem percebi. Só uma observação: quando o escritor nos pega pela mão com toda a leveza, nos coloca no cantinho mais aconchegante da história, nos deixa confortáveis e satisfeitos e daí tranca a porta e começa a soltar pancadas, nos faz chorar, gargalhar, nos enraivece e o diabo, e então nos deixa zonzos e incapacitados de levantar e abrir a porta antes do fim, pouco importando que o fim seja a morte – pois nossa vida depende desse fim, quando o escritor consegue isso, ele não pode parar nunca de escrever, vidas dependem dele. É isso que tenho a te dizer, não invente de tentar outra coisa.

    Curtido por 2 pessoas

  2. O que não falei você disse, sobre o chefe histórico. E parece que narravas aí, compatibilidade quase plena, meu último chefe. Os raríssimos e amarelos elogios, e quase todo o resto. Ele contava piadas; escrotas para caramba. Parte pelo roteiro, parte pela interpretação e entonação. E homem achar que uma piada é escrota, não é fácil.

    Comentários machistas, regionalistas, prepotentes, irrealistas, humilhações. Claro que os colegas riam, as mulheres riam. É foda ser pobre, e estudar para ter um trabalho melhor e ter de aturar, pois outro trampo é difícil encontrar, e quase nunca é melhor ou no mesmo nível que o atual em salários e condições. O que percebi é que este chefe, maior inspiração à crônica, era um repassador de ressentimento, conveniências, mesquinharias, indiferenças, ganâncias desmedidas por motivos políticos, de poder e dinheiro, de quem estava acima dele. e quanto mais alto o nível, maior o medo de perder, é incrível. Com status, diferenciação, parece que se compra quase todos os seres humanos. Era um fodido que ganhava bem mais, folgava aos fins de semana e não batia ponto, mas era açoitado e tinha medo, como quase todos. E por duas vezes em que eu estava presente, ele comentou: “eu ando muito chato. Tem dias que nem eu me aguento.” e outra pérola, “tenho setenta anos, com cabeça de quarenta!”. Bom, nesse todo mundo riu. Primeiro disfarçado — tentando não rir — e depois, em altas vozes, quando ele não estava.

    Chegava mais tarde. Claro. Entrávamos às sete e trinta, ele às nove. Saíamos às 17:20hs, ele às 16hs; “para evitar o trânsito”, já que ele dirigia, pegava rodovia e estava com problema de vista. E eu ainda trabalhava aos fins de semana, o dia inteiro. Exigia-se bastante estudo, pagava razoavelmente bem — e não havia hora extra —, mas minha vida social era negada. Perdi churrascos, festas, aniversários, casamentos, partidas de futebol, praia, casa com piscina, tardes com namoradas e encontros com amigos. Para que a gente trabalha tanto, mesmo?

    Tínhamos sistema de aviso para que todos ficassem sérios, e assumissem os “papéis”. As meninas passavam no corredor dizendo: “já chegou o disco voador!” (Obrigado por essa, Chaves. Sempre fazendo nossa vida, um pouquinho melhor).

    Ser empregado é ser escravo com CTPS, dormir em casa, e poder pedir as contas — para ser açoitado em outro engenho. Que evolução!

    Gostei de sua descrição do roteiro, é divertida. Você é sensacional. Suas últimas afirmações são fortes e firmes. Não deixarei a escrita, é minha vida. Mais; é o que me mantém ainda ligado à ela. Ainda que eu invente outras coisas, pois aprecio muitas, mesmo, as letras são o cerne de minha arte. E creio que da sua, também.

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