A Arte de Conquistar Uma Mulher Sem Esforço

A menos que sejas tu um homem excepcionalmente alto e belo, ou rico, ou famoso, habitualmente em alguma medida você se esforça para convencer, inclinar, fazer nascer em uma moça desejo por sua presença, toque, companhia. E eventualmente, sexo.

Para que tal intento obtenha êxito, para auxiliá-lo há livros, cursos, vídeos, teorias e tratados. Dos oficiais e científicos, publicados pelas grandes editoras e veículos de comunicação, e do submundo, dos empiristas analíticos experimentadores — pesquisadores anônimos. Todavia, como você bem sabe, às vezes o achado é apenas sorte. Pura e simples. A incrível concisão de fatores múltiplos como pessoas, tempo, lugar e contexto certo. Em que você contribuiu para isso? Provavelmente, tão somente saiu de casa nesse dia. E às vezes, nem isso pode ser necessário.

Lhes conto a estória de uma conquista romanesca de um amigo meu, grande camarada, o tipo de pessoa de quem se quer ter amizade. Cara honesto e corajoso, que não muda de opinião conforme as conveniências de momento, que não trai uma confiança criada por conta de um ganho que necessite deslealdade para se concretizar. Em suma, “O cara”. Seu nome é Alexandre.

E meu amigo Alexandre um dia ganhou uma menina com um peido. Um flato audível. Sim. Com a sonoridade límpida, vibrante e entrecortante de uma calça rasgando, o tom de um pisão em um pato, ao volume de um relincho pelo rabo. Uma retumbante, trombetista e altissonante eliminação de massa gasosa orgânica.

É elevado o número de possibilidades que se dá à imaginação para conceber o episódio, e mínima a possibilidade de sucesso social. No entanto, o fato é perfeitamente crível, e mesmo, romântico.

Em uma festa de aniversário em um bufê, Alexandre estava em um círculo na calçada composto de seis pessoas em pé, à porta do evento. Alguns fumavam, outros vinham tomar um ar fresco, caso do Alê. E como estavam na mesma roda de conversa os tais fumantes, os fãs de ar puro trocaram seis por metade de doze. A eles, nem a contemplação das estrelas servia de pretexto para a visita à via pública, tamanha era a luminosidade da avenida que anulava a luz celestial. Provavelmente, queriam fugir do jugo castrador dos adultos mais adultos que eles, reduzir a sensação claustrofóbica causada por paredes de concreto e verdades pétreas impostas.

O diálogo corria animado. Alexandre estava com seu primo, na celebração de vinte e um anos da prima. Falavam sobre mortos-vivos em seriados de televisão, daí para estórias de fantasma “reais”. Sempre fascinante, o sobrenatural ativa massivamente a imaginação, visualizando um mundo invisível, escondido, que ameaçando de morte e incutindo medo, imerge o ouvinte em impressões intensas, das que fazem o coração bater descompassado, o sangue correr, o corpo arrepiar, a garganta contrair, a boca se abrir. Em vidas tão regradas e monótonas quanto um mecanismo de relógio pode ser, qualquer emoção aguda as faz sentir o prazer esquecido de estarem vivas. Pois se você sente, ainda que sob imaginação distante, um temor iminente de morrer perante o desconhecido, isso o lembra de que está vivo; de que não é apenas uma engrenagem que gira, respirando enquanto dá voltas em torno de si, até que sua vida, já alquebrada e desgastada pelo tempo, se extingua.

Neste ínterim, uma moça sai do ambiente interno de música, folguedos e mesas e se junta ao grupo. Sua prima Jaqueline, aniversariante temporariamente fugida do próprio festim no interior do prédio, a apresenta a todos como Larissa, sua colega e amiga da universidade. Simpática, cumprimenta com um aceno e um sorriso a coletividade. O papo continua.

Alguns minutos depois, a imaginação da pequena assembleia estava em uma loira de vestido branco, na estrada que dava para uma chácara, de onde se via a dita cuja com suas vestes pálidas oscilando suavemente, à brisa de uma madrugada de lua nova. Quando o narrador direcionou os olhares do grupo a uma praça do outro lado da avenida, na outra quadra, afim de demonstrar a noção de distância do ser metafísico às testemunhas de sua aparição, um som característico foi anunciado entre os membros da sociedade do círculo à porta do festival natalício.

A reação ao ruído de um papel sendo rasgado durante a passagem de um calhambeque, que simpaticamente tocava uma buzina marítima velha, foi retardada por confusão mental; aquele lapso que acontece quando seu cérebro, interceptando um sinal do cosmos e comparando-o a seus arquivos de memória, imediatamente lhe identifica do que se trata, e ainda assim, sua percepção — nome deste processo de entendimento com o mundo que se apresenta — lhe tarda, por não crer, segundo as usualidades dinâmicas da etiqueta, que seja como lhe aparenta. Seu sistema nervoso lhe diz que há de ser um erro de concepção, uma falha de captação por distração ou poluição na comunicação. De fato, o som do festejo, em especial quando a porta se abria para entrada ou saída de convidados, permeou a situação sonora momentânea, tornando-a menos clara. Ao menos, ao que a conveniência social quer fazer acreditar ao raciocínio.

Tendo todos se virado, perceberam que outros reflexos acompanhavam os seus, o que imediatamente lhes dava dupla validação. Outros sistemas auditivos autônomos captaram o som, reduzindo a possibilidade aritmética de erro, ao passo em que lhes certificavam não decrescerem seu valor social ao nível de malucos. Em um segundo, todos já exprimiam comicidade e espanto, olhando-se mutuamente. Quem teria sido a origem da ruptura harmônica coloquial?

Enquanto os lábios se alongavam, alargando os sorrisos e relaxando as mandíbulas que iniciavam os gargalhares, as faces gradativamente mudavam sua fisionomia em uma cena que, gravada em câmera lenta, haveria de ficar hilária. Iam apresentando novamente expressão de surpresa, porém misturada ao asco e ainda ao riso, que não tivera tempo para se expandir de todo: após a audição e depois a visão, agora o olfato denunciava o mundo como ele é.

— Meus Deus do céu, quem fez isso? — perguntou uma moça, tapando o nariz.

— Caralho, a loira do vestido branco atacou a gente com o cu! — disse um.

— Mano, é o apocalipse zumbi, véio. Tem gente morta entre nós! — exclamou outro.

— I smell dead people, concluiu um quarto.

E então, leitor, agora deves imaginar, como diria o bandoleiro inquisidor a Papacu, “… e quem foi o cagão?”. Aí entra meu grande camarada, Alexandre. E ele não entra com o ânus, propriamente dito. Mas com uma atitude muito mais nobre e polida, por assim dizer. Acontece que ele percebeu quem fora o autor da heresia à paz social, em um momento de lazer num sábado à noite. E agora tu já deves ter percebido; fora a amiga da prima, a Larissa.

Você há de lembrar o que eu disse sobre meu brother. Depois disso, vi que como um bom macho, ele tem culhões. Levantou uma mão, pôs a outra sobre a barriga e anunciou:

— Me desculpem, não estou me sentindo bem.

E saiu, a caminho do banheiro do bufê.

Ruborizada, ao anúncio rápido e oportuno do rapaz desconhecido, ninguém percebeu sua face corada (e talvez as palmas das mãos amareladas), quadro fiel à sua mais absoluta vergonha. Cinco pessoas se desmanchavam em rir, tão satisfeitas quanto chocadas, com algo tão banal como um flato, que se torna especial quando ocorrido na situação certa. O objetivo de terem ido à festança era a confraternização e a diversão, e tinham conseguido sucesso em seu propósito, ainda que de modo desagradável ao nariz. Alguém apontou para a autora do rompante escape inadvertido:

— Olha a Larissa, ela até ficou sem graça com a situação!

— Também, foi bem do lado dela! — retorquiu outro presente.

Rindo ainda mais, não sabiam que ali encontrava-se a vilã, enquanto o mocinho em breve ficaria famoso aos participantes da comemoração. A vários deles durante a mesma, a outros mais tarde, no caminho de casa, e para alguns durante a semana, conforme as conversas entre os membros das famílias e grupos de amigos fossem sendo postas em dia.

Logo a homenageada, ainda entre lágrimas mal secadas e risos reverberados, voltou para dentro, requisitada era sua presença entre os convivas festejantes. Dez minutos depois todos entravam. Mais tarde, a cerimônia dos parabéns foi realizada, o bolo foi cortado e distribuído e os doces, servidos.

Com um prato de bolo de chocolate nas mãos, aproximou-se de Alexandre uma moça certamente atraente, de beleza discreta e timidez evidente, devido à vergonha do ato odorífico praticado antes. Ao ver o bolo, meu parça, criminoso culpado, réu inconfesso do crime de falso testemunho autoacusatório — artigos 341 e 342 do Código Penal —, pensou que estaria perdido; os presentes o acusariam de reincidência dolosa, ausência de remorso, estirpe do delinquente contumaz. Se não fosse preso, seria pelo menos expulso, e teria uma parcela de sua saúde social comprometida para sempre entre algumas famílias. Pois lá vinha a bandida incriminadora, com um prato de munição, pronta para acabar de vez com a vida dele aos olhos de uma sociedade sublime, pura e que não peida fora de hora. O golpe de misericórdia seria ali, a meio caminho do centro do salão, em um ato digno de enquadramento em terrorismo biológico.

— O que você fez por mim foi muito legal. Eu estou morrendo de vergonha, mas tive de vir falar com você. Afinal, a vergonha que você deve estar sentindo é pior que a minha, por tantas pessoas pensarem que você fez o que outra pessoa fez. É assustador o quanto isso é embaraçoso, e ao mesmo tempo bonito, pois você não precisava fazer o que fez, e acho que ninguém talvez o fizesse por mim. Sabe, minha irmã mais nova está se tratando de uma meningite, e o médico achou melhor que a família tomasse antibióticos para prevenir que nos contagiasse. Nos meus pais não deu tanto efeito colateral, mas em mim… E olhe, este bolo é para você. Eu peguei um pedaço pequeno, para que evitar que façam piadas… você entende? Só que eu não quero que deixe de comer bolo por minha causa. Todo mundo está dizendo que está uma delícia.

Ao dizer a frase final, a encabulada jovem sorriu um pouco, revelando um pedacinho de seu jeito natural. É claro que Alexandre foi surpreendido pela segunda vez, com este acontecimento. Puxa, esta menina é cheia de surpresas! ele pensou. Ao menos, esta era agradável, um pouco mais discreta e ainda tinha bolo. Que, nas entrelinhas, ela disse não ter experimentado, por motivações evidentes.

Aí é fácil narrar o resto. Alexandre comeu rapidamente o bolo, e depois somente ingeriu bebidas durante a festa. Ele e a menina trocaram telefones, depois telefonaram e decidiram se encontrar. O Alexandre sugeriu uma lanchonete. Mas a Larissa queria mesmo ir a um bar. Seu tratamento acabava na quinta e ela precisava, de leve, se embebedar.

Depois disso, Alexandre, que tinha o simpático e comum apelido de Alê, passou a ser chamado de Alexandre Pato. Com o tempo, só Pato, mesmo. É que o som de um pato sendo pisado prolongadamente, era a onomatopeia que não saía da cabeça dos presentes naquela roda de invocação de espíritos, com cheiro de enxofre misturado com cocô de zumbi.

Para não dizer que foi uma estória de felizes para sempre, no fim, eles nem tinham tanto a ver, mesmo. Saíram poucas vezes e só. Talvez o impulso — muito justo, segundo meu amigo — de recompensar seu salvador a tenha motivado, porém ao constatar que não foram feitos um para o outro (senão, a letra da música no parágrafo anteanterior tinha ido até o final, ou pelo menos durado umas duas estrofes), ela percebeu que saíra com um cavalheiro, mas não o seu crush nem seu príncipe encantado. E Alexandre se encontrou algumas vezes com uma moça com quem se divertiu, mas não sentiu tantas saudades, afinal.

Enfim, essa é a estória de como comer uma mulher com um peido. Que nem seu era, vai vendo. Isso me leva a concluir que, modo geral, para se pegar uma garota interessante, é preciso sempre dar alguma coisa. Pois como sempre digo, já diz o livro: é dando que se recebe. Ainda que desintencionalmente, ele deu seu nome para servir a chacotas coletivas e ainda ser substituído por um apelido eterno, ao qual não fazia jus, em troca de uma vagina momentânea. O cu… ele dispensou.

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