Depois das Quatro, Perto de Vinte

São dezesseis e dezenove. Dá-se o aperto final, mais uma lambida para firmar. A mão procura a pederneira no bolso.

Tão importante quanto o horário, é andar na contramão.

De frente, se vê a vida. Tudo vindo, acontecendo, em sua direção ou passando ao lado: o que anima e te faz acenar, com um sorriso, e o que entristece e te faz jogar a quase guimba no canal, se preparando para abrir as pernas e pôr as mãos atrás da cabeça.

É um dia bonito, como quase todo dia é. A beleza resplandece no estado de espírito de quem a sente.

A violência autorizada passa na viatura, com um braço para fora, e por vezes um chapéu encimando um crânio adestrado. O olhar duro e certo procura um alvo, a razão de seu soldo ser pago, a salvação de uma sociedade tomada por corrupção, educação fraca: conhecimento de cidadania, filosofia, política e constituição federal quase inexistentes. Transita a carroça com capitães do mato à busca de digressores, alforriados contra ou pela própria vontade.

“Ele fuma erva”, “é psicotrópico”. “Um vagabundo, parasita”.

Cigarro de padaria é erva de fumo. Fode os pulmões e a conta do hospital público.

Cerveja, vodca, cachaça; psicotrópicos. Causa de grande parte do uso impulsivo de armas de fogo e veículos, de mortes em via pública e residências.

Vagabundo é quem não produz nada útil à sociedade. Estudante, artista e trabalhadores não o são.

Parasita é o que se alimenta de outro. Vereadores e seus assessores, deputados estaduais e federais, senadores, prefeitos, governadores, ministros e secretários, presidente(a) da república. Estes são as lombrigas draculianas da sociedade. A pobreza, a favela, a violência, os buracos nas vias, o descréscimo escolar, o nosocômio hiperlotado, os presídios, as obras que caem: eis as marcas do parasitismo antropológico.

Nada disso existe, onde a corrupção é erradicada.

Tudo isso passa. Como o vento ao meu redor, levando essas palavras e pensamentos para o nada, dispersos na atmosfera, junto ao aroma de erva queimada; que relaxa, e faz pensar. Pensar como crimes são cometidos sob ação de álcool, cocaína, ressentimento, exclusão social, miséria, maus-tratos gratuitos e fome.

Só que o Mal, armado, tem faro de perdigueiro e fome de poder. Poder “compensar” a própria frustração, sob a serventia ao próprio denegrimento institucional policial, perante o desgosto do aliciamento de equipe que o constrange, e cuja alternativa, no fim, é a própria demissão, por livre iniciativa; ou a aposentadoria da vida, por ação coletiva compulsória. Há necessidade no peito de extravasar o medo de ser morto em qualquer lugar, pelo inimigo de chinelo — ou de bota. Pelas contas que mal pode pagar, a esposa grávida que não pode abandonar, em caso de óbito involuntário causado por outrem. Tem o agente de segurança, de extravasar a raiva que transborda, quando o ódio e má-educação do contribuinte formam a gota que transborda seu cálice de ser humano, ansiante por respeito e um pouco de bom senso ao tratar com outros que, como cidadãos, impraticam a cidadania e a cortesia àqueles que se arriscam para defendê-lo.

Por capricho do ar em movimento, dedinho de Zéfiro com um sorriso leve de canto, não me abordaram. Pode ser que tenham percebido tudo, e estavam sem muita vontade no momento. Até o cão de rua tem um dia bom, de vez em quando, mesmo que “bom” seja só um dia menos pior. Pode ser que tenham tomado aquele café fresquinho na padaria, naquela em que vão ao caixa com a carteira em mãos, e não precisam pagar. E isso é triste, de diversas maneiras.

Sem muito plasma, hemácias e leucócitos nos olhos, nem rancor no miocárdio, deixaram passar. Eu estava sem chapéu de aba frontal ou mochila, em um deambular atlético, pouco malandreado, e com teor baixo de melanina na pele; é possível que eu não fosse o prato preferido deles.

O quão difícil é entender que disciplina é liberdade, se equilibrada, e um pouco a mais é opressão do gado que enriquece os fazendeiros?

E basta um símbolo para divisar exércitos adversários: uma bituca verde, para o mal. Um distintivo dourado ou bordado, para o bem.

E os senhores de engenho sorriem, satisfeitos.

E eu nem fumo. Mas sei que além de ir no contrafluxo, é bom dar uma olhadinha para trás, ocasionalmente. Há quem venha no sentido inverso só para te pegar desprevenido. É medíocre quem se dá ao trabalho de obter sentimento de vitória ao humilhar uma formiga em meio à selva amazônica.

Sociedade de capachos e capatazes. Sempre prontos a denunciar e chicotear, quem anda na contramão.

Só estou indo atrás de um tesouro, um achado perigoso: uma certa emancipação existencial.

Tão importante quanto o horário.

 


Nota temporária: querida leitora, estimado leitor, por um equívoco de manuseio, o texto “A Arte de Conquistar Uma Mulher Sem Esforço”, post anterior ao que acabaste de ler, foi primeiramente publicado de modo inadvertido. Então retirado e republicado na data desejada, no processo, não foi enviado email automaticamente para vossas leitorias. Também, já basta o primeiro email em falso… Assim, recomendo a apreciação ao inusitado conto Alexandrino. Que não se trata de versos dodecassílabos; só de uma estória sobre o Alexandre, mesmo.

https://thejustwriting.blog/2019/09/11/a-arte-de-conquistar-uma-mulher-sem-esforco/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.