Soneto da Própria Asa

I
Ganhei minhas asas, quero voar
Anseio paragens, depois do oceano
Assim o quer meu coração urbano
Em remansos inéditos trovar

Aqui é o ninho que não quis largar
Mesmo sob confesso amor, decepciono
Na pátria, o sonho não ambiciono
Hei de teu laço, me desembargar

O tormento é na presença, contenda
Infinita, impossível vencer
As correntes vou então rescindir

Leve-me asa, o âmago estenda!
Aos vivos, me consinta pertencer
E o signo da liberdade, brandir

– – –

II
Em carmim, rubro, a alma inflamar
Encontra-se o peito, no cotidiano
Desejando além do apenas mundano
Mergulhar em seu íntimo, e amar

Quero tesão, brilho, fogo no olhar
Apenas sendo eu mesmo, funciono
E pela autonomia, apaixono
A senda da alforria vou trilhar

Noutras terras farei minha lenda
Lá, outros verões irei conhecer
E novos verbos vão se escandir

Que a realidade, a ideia transcenda
Batam asas, façam resplandecer
O que em mim almeja expandir!