Postando Legal

Um cidadão faleceu. Besta, besta; morte de filme ruim, mesmo. Num percurso de vida dedicado, seu término pode ser insólito, tão bobo que se torna indigno de nota. Não apenas sarcástico, também sacana e sem graça.

E vamos ao velamento, às despedidas e honras à vida finda. Valor à personalidade e suas obras. Validação da vida, consolo à perda, justificativa ao próprio e inevitável fim.

E eis que o desfile perante o corpo e a memória ocorre por propósitos outros. Fotografar pessoalmente o inanimado protagonista. Se injustifica; as fotos autorizadas, profissionais, rodam os canais de comunicação. O motivo de fazê-lo se esclarece na composição gráfica: figurar o autor da captura na própria postagem, com a estrela ao fundo. É preciso unir-se ao hype, acompanhar os holofotes onde eles estejam.

Após seu óbito, a página da famosa personalidade recebeu mais de um milhão de novos seguidores. Décadas de carreira, realizações e conhecimento público — e depois que morre, uma multidão vem segui-lo. Não a pessoa, pois esta já se foi; a imagem, que está em voga.

A necessidade de fama e relevância aproxima-se do ápice. Na sua ausência, andar próximo de quem a tem para pegar respingos, partículas de purpurina que possam cair, e ser interceptadas a caminho do chão, por pessoas desesperadas por um prazer, um porquê.

As condolências movimentam o mar virtual. Pêsames de quem sequer assistia, se importava ou considerava importante, o trabalho televisivo do póstumo homenageado. E sua página, inflada, silenciará como um balão furado, tão rápido que nem se perceberá.

Há uma corrida que nem se sabe ao certo para que, afinal. A vida em você e à sua frente, e olhas sempre para fora e para longe.

Talvez não seja para onde se corre, mas de onde. Se corre de onde se está, com a angústia fungando em seu calcanhar.