Quase Uma Hora

Cinquenta minutos. O tempo ajustado ao timer no painel digital do fogão, eletrodoméstico de beleza inoxidável e funcionalidade potente. Brinquedo saturdino ou dominical, para momentos raros e deleitosos de celebração social íntima. Neles, se experimenta a intensidade marcante que ocupa o tempo e o espaço da mente, rebulindo-a, enérgica, criando e revisitando arquivos de vida e arte na memória: filmes, falas, músicas e letras, tons, detalhes e terras, experiências incomuns à língua, pitoresquidades viajantes de culinária, sexo e locais. Instantes de execução criativa da perícia de cozinhar entre amigos, com bebidas, petiscos, canções e danças, poesia, reinações. Facas e cutelos afiados, pratos brancos limpos lavados, som de fervura e metais. Risos, risos, sorrisos. Cantos, e improvisos.

Quase uma hora, mas só cinquenta minutos; o tempo para as meias cervejas gelarem no freezer. Uma preta, adocicada. Uma amarela, leve. Uma hipocolor, vodca com limão engarrafado. Ice on ice. Seria cerveja, não fosse destilada.

Um primeiro tempo com cinco minutos de prorrogação. O intervalo para escrever este texto, no calor quente de verão em janeiro. Ar condicionado é caviar a mim; por outro lado, dois ventiladores grandes, potentes. Não dão conta. Esguicho água no corpo como a uma samambaia, desnudo e despido no silêncio da noite de semana.

Uma mão de dezenas de minutos. Ao teclado e tela, em divagação abstrata através de paredes sólidas e redes digitais, vou da privação africana ao sexo em casa, da leitura de Lavoura Arcaica à pesquisa de monges autoflagelantes ígneos. Tudo no pensamento, da retina ao cérebro, do encéfalo aos dedos.

Uma parranda de minutos que não somam uma hora; mas agora faltam vinte e nove. Molho-me na pia do banheiro, zanzo defronte às janelas. Vizinhança idosa, ainda hei de matar uma velha do coração, nu com este corpão. Independente de beleza ou educação, tenho a impressão que em minha região as moças, por padrão, empinam o nariz e encenam simpatia tão autêntica quanto relógio de camelô. Postura de defesa forte contra violência frequente e grosseria masculina banal? As mulheres mais experientes costumam responder melhor a uma abordagem cortês e fina, daquelas sem pedidos, constrangimentos ou exigências. Talvez elas já saibam o valor dos raros homens educados e bem-humorados, um tanto misteriosos e levemente provocantes, e aproveitem o que há de bom enquanto há vida. Ou porventura tenham agora menos opções aprazíveis que quando mais novas, e decidam usufruí-las enquanto ainda ocorrem. Quem sabe aquelas primeiras tenham sido, pelos machos da espécie, desde cedo destituídas à força, da capacidade de confiar minimante em alguém com quem não se trocou um vocábulo, ainda? Vá saber…

Cinco sextos de hora. O refresco adulto que o gogó envolto em calor aguarda, em pelo e desejo de seu preenchimento arrefecedor ao tubo digestório, reduzindo a quentura desta terça-feira. Espero o apitar simples, que demarca um minuto restante, linha dos quarenta e nove. Desrosquearei teu metal, a trarei à sala e voltarei à leitura. Deliciar-me-ei na negra, depois a loira e a transparente. Quase congelantes.

Se o fogo é do coração e do ambiente, o refrescarei com paixão das mulheres líquidas, que tudo envolve e fascina com aromas, vapores frios e formas vítreas, gelidamente cativantes. Pois que quando a mulher de curvas não se encontra ao alcance, inundo-me indecoroso de teu refrigerado romance.

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