Ansiedade do Piloto do Ingá

O motivo da ansiedade que assola a modernidade são os desenhos animados. Todo dia você assistia, esperançoso, o Coiote tentar pegar o Papa-Léguas. E nunca conseguia! Tinha aquele episódio que ele quaaase conseguia… e nada.

E Caverna do Dragão? Eles nunca conseguiam voltar para casa. Chegavam na beirada, no limite, na beirola… e desistiam por causa do choro dum filhote de pônei com chifre, ou o dilema de escolher entre um animal de estimação ou um videogame, dum garoto que nunca ganhou um Playstation; ou por qualquer outra desculpa aleatória. E era sempre na hora de ir embora que surgia o problema. Não podia ser antes? Resolvia, e já era? “Fui”? Ou depois, cinco minutos depois. Dois minutos; dois minutinhos depois, só.

Foda-se. Por mim, podia fingir que não viu e ir embora. O que os olhos não veem, a consciência não sente.

Porque em todo desenho, o Bem vence o Mal. Todo mundo sabe disso. Veja “Os Smurfs”, por exemplo. O Gargamel aprontava toda hora e, no fim, os azuizinhos salvavam o dia (e nunca entendi porque só tinha uma mulher naquela aldeia, que todo mundo queria pegar e ninguém comia. Puta desenho machista e de pau mole, um monte de viagrazinha que não servia de porra nenhuma!). Desenho saudável é assim. O mocinho dá um cacete no bandido e deixa solto para ele voltar outro dia, senão não tem desenho! É tipo um namoro, tem que ter idas e voltas! Senão seria somente uma relação casual com uma menina chamada Shirley, que pensa que o teu nome é Claudinei.

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“Pô, Claudinei?”, o Julinho tá perguntando aqui. É claro. Se você falar o nome real, periga a pessoa te achar na internet. E se falar um nome bonito, a pessoa não te esquece. Rogério é um nome bonito e real, o que se torna um perigo em dobro. E é importante que a pessoa te esqueça, para seguir a vida em frente e fazer merdas diferentes, e ter outros tipos de arrependimento depois. O nome disso é “saber viver”, como diria o Maurílio.

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Outro desenho frustrante é o Corrida Maluca! Bem lembraaado, piloto Renan! Olha a informação aí! Seguindo a lei de que o Bem sempre vence o Mal, o único corredor do mal é o Dick Vigarista, que nunca vence. E o grande mal dele é ser muito burro, pois sempre que ele está ganhando a corrida ele para, para montar uma armadilha detalhada e demorada, a fim de que ninguém termine a corrida. A armadilha sempre dá errado, funcionando nele ao invés de funcionar nos outros, e ele não aprende! Nem a montar uma armadilha, nem a não montar mais armadilhas. É um caso perdido. Angústia aos litros, assistindo isso aí.

E olha o He-Man. O desenho já começa errado pelo nome. A tradução do inglês é “Ele-Homem”. Que porra de nome é esse?! Já dá para ver que ele é homem sem nem saber o nome, especialmente quando pega no objeto fálico do poder, engrossa a voz e fica bronzeado, só de tanguinha e um X no peito. Aí ele aponta a espada para o gato frouxo, e o gato vira uma fera na hora! E não muda nem a cor, que é verde e amarelo, só ganha uma sela mágica que cobre a cara dele e engrossa a voz também, igual ao dono. E ninguém percebe nada! Isso é um desaforo à inteligência do público infantil! Se os vilões são burros, os mocinhos são retardados. Será que ninguém viu que são a mesma pessoa e mesmo animal?

E o He-Man sempre dá um coro no caveira lá, que sempre volta para dar mais umas risadas e tentar executar um plano merda que não tem como dar certo. É outro que também não aprende. Teve um episódio em que o plano do ossudo era forjar um homicídio culposo na conta do He-Man. Nessa época não tinha nem polícia, e mesmo que tivesse, quem ia prender o He-Man? Não tinha pistola, nem metralhadora, nem calibre doze. Vai fazer o que? Dar flechada nele? Ia no máximo estourar uma espinha nas costas, que ele tem por causa dos esteroides que ele toma escondido do pai.

Mas aí, o He-Man acredita na farsa. Fica depressivo e decide largar a carreira de justiceiro que não mata — papel que, na minha opinião, o Batman desempenha melhor — e joga a espada de testosterona da masculinidade no precipício do castelo de Grayskull. É um absurdo! Imagine se cada vez que eu mato alguém — sem querer; é quando é sem querer que conta, no caso — eu ficasse depressivo? Já tinha jogado mais de meia dúzia de Sprinter no barranco! Porque de vez em quando acontece, é normal! O único jeito de nunca matar ninguém num automóvel, por exemplo, é ficar andando com ele só dentro da garagem de casa. Mas aí se você tiver filho pequeno, ele pode passar em frente o pneu sem que você veja, e causar um homicídio em casa, também.

Mas graças a essa grande quantidade de desenhos angustiantes, que a gente via antes de dormir — minha mãe gravava em cassete para eu assistir no quarto enquanto ela via novela com meu pai na sala — e principalmente quando acordava, fornecemos ao mundo uma geração inteira de pessoas ansiosas e frustradas, garantindo a profissão de milhares de estudantes de Psicologia e Psiquiatria das universidades brasileiras e mundiais, e o crescimento de dezenas de indústrias farmacêuticas. Isso é geração de emprego!

E também estimula a produtividade da economia, o que acaba incentivando o piloto de transporte alternativo a desempenhar melhor o seu trabalho, com mais agilidade e praticidade. Com mais agilidade, porque o passageiro só sai de casa se estiver atrasado, e entra na van já querendo descer, como se desse para percorrer 10 km no trânsito carioca em 10 minutos. E a gente sabe que dá para fazer no máximo em 12 ou 13 minutos, subindo calçada e pegando contramão, o que na verdade já é de praxe, então não tem porque querer fazer em menos tempo. Ainda mais porque o Uber, que é uma classe indecente, faz um percurso desse no dobro do tempo! Porque Uber, além de ficar mimando passageiro, ainda quer parar em todos os semáforos vermelhos, dar vez para pedestre em faixa e esperar ciclista passar. “Escravos do Código de Trânsito!”, gritou o Renan aqui, ao ler esse pedaço. E ele tem razão, olha a denúncia! É por isso que o trânsito não anda, é um absurdo esse negócio de Uber! Onde é que o trânsito vai parar, assim?

E a ansiedade do passageiro, além de estimular a agilidade, como eu disse, estimula a praticidade. Quando uma idosa — que não paga a condução, infelizmente eu tenho que falar isso aqui — vai buscar seu benefício numa unidade de esquina, a curva é feita sem parar, dando cavalo de pau e com a porta aberta, que é para eu já deixar a velha lá sentada na fila do INPS. Apesar de transportar de graça os aposentados, e de não parar no ponto para eles a maioria das vezes, como um piloto sério, eu não posso abrir mão do meu profissionalismo!

E agora vou para casa dirigindo enquanto assisto, pela terceira vez, o DVD pirata do Transformers 5, que na minha opinião, é um dos melhores da franquia. Não se entende nada, até algumas explosões vêm do nada, que geram outras explosões que parecem vir do nada, o que faz muito sentido. Porque filme, especialmente de ação, você não tem de entender nada além de quem é o mocinho e quem é o bandido, para saber em quem se tem que atirar! Se bem que neste, às vezes é difícil até saber quem é quem, mas é assim que um filme tem que ser! Ação e energia! Tiro, explosão, porradaria e umas piadas, porque ninguém é de ferro — quer dizer, só os Transformers. E se você quiser um sentido profundo para sua vida, vá ler um livro. Ouvi minha tia-avó dizer que aquele Cinquenta Tons de Cinza é bom. Tem de ser bom, porque cinza é uma cor que só tem dois tons, o cinza-claro e o cinza-escuro. E esse livro tem cinquenta! Olha a complexidade. Que, como quase toda complexidade, é desnecessária. Afinal, se for mais escuro que cinza-escuro, é preto. E se for mais claro que cinza-claro, é só um branco sujo. E por falar nisso, vou aproveitar a quarentena e ir na casa do Maurílio lavar a van que emprestei do Julinho por uns dias — que no original é branca, mas já está cinza —, porque a conta de água aqui em casa está muito alta. A minha Sprinter já ficou pronta na oficina, deu trabalho conseguir um bloco de motor barato, mas era só comprar um com a numeração raspada naquela rua que tem uns quinze desmanches, e deu tudo certo.

Enquanto o Maurílio lava a Sprinter, eu já tomo um suco de laranja com acerola e gengibre, que dizem que é bom para não pegar resfriado de pandemia. E evitar idoso. O que eu e os demais pilotos já fazemos há algum tempo; porque aqui, tem responsabilidade social.

E é isso. Cabou. Acabou o texto.

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(inspirado nesses caras aqui):

http://www.youtube.com/playlist?list=PLA2Gd9vTv5MWbT1N-RVoTO7MHkfjKkYVV

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