Gatos de Novo

Não gosto de gatos. Tudo bem, vá lá, não exageremos: é uma ausência de gosto por falta de amores de cair, mesmo. Gato é bicho; e tal como canários, papagaios, crianças, cabras e outros seres silvestres ainda menos compreensíveis que humanos adultos, há certa imprevisibilidade de atos, que podem ser violentos ou escatológicos.

Gosto de cães. Cavalos também apetecem, são bons camaradas. Mas os dogs têm seus defeitos… falhas. Falhas de produção. E de reprodução, também. Outro dia, presenciei um cão comendo o pneu dianteiro de uma motocicleta 125 cilindradas, estacionada em via pública, à luz de um meio de tarde. Entendo o canoso. Tarde tranquila em clima ameno sem nada para fazer dá um tesão, mesmo. Especialmente nas tardes de sábado, bom para fazer cachorrada com uma fêmea — ou mais. Sim; às vezes, acontece.

Mas daí a passar a vara em látex vulcanizado, em formato de pneu, já é “a mais”. E ele não deu uma só, não. Eu fui, voltei — estava a trabalho — e o danado lá, só dando um break e partindo para outra. Devia estar tirando o atraso. Ou um dia mais empolgado; você, homem, deve saber como é.

É claro, não com um pneu. Você me entendeu. Bem; tem de tudo, né? Ok, pode ser com pneu, também. Tem quem coma sofá, boneca inflável, esponja de pia envolta por filme plástico dentro de caneca e até cano de escapamento de carro. O que importa é gozar. Esse há de ser o lema dos sexólogos. Ou poderia ser.

Sei que das putas, é. Homem gozar é igual a dinheiro.

E cão é bobo. Renato Russo disse em uma entrevista, sobre os homens: “bobos, que nem cachorro”. É real. Como somos trouxas. Se o homem é um cachorro, a mulher é uma gata. Esperta e sedutora, que só.

Mas, os gatos! Você que leu Gatos, sabe que esses felinos olham a nós com desdém, como quem tem tudo e não se preocupa com nada.

Outro dia uma amiga gata me enviou uma foto de uma gatinha, perguntando se eu a queria. Segue trecho do diálogo:

— Essa

Brava

Quer???

(carinha sorrindo com gotinha de sem graça, porém animada)

Porque existem pessoas que não usam o maldito botão de descer uma linha, só conhecem o enter. E o telefone celular vira uma campainha de bordel, uma sirene de emergência, um alarme de vestibular da USP, vira o chamado para arremessar o Galaxy S4 na parede — que quando comprei, usado, ainda fazia as pessoas o olharem com interesse. Hoje, nem percebem que tenho um celular na mão. Melhor assim.

— Hum… com sal grosso, na brasa… (carinha pensativa)

— Nãaaaaaoooooo Lê

(carinha triste com cantos da boca e sobrancelhas arqueadas para baixo)

— Fica ruim? (carinha atenta, sem boca)

— É uma miau

(carinha com olhos de coração)

— Ah! Tem que ser marinado, depois cozido! (carinha sorrindo e mostrando as mãos).

Ela respondeu no dia seguinte. “Vixe. Dormi com o celular nas mãos.”

Mas o leitor vai me aliviar: o churrasquinho de cat é cultural, pô. Quem nunca comeu, não sabe como é bom. Bem, quem nunca soube que comeu, na verdade sabe que é bom, apenas desconhece o fato.

Os chineses comem cães. Os japoneses, peixes e baleias. E brasileiro, come até a mãe do amigo. Porra, a gente não nega comida.

Ah, e nem falei que entre uma bimbada e outra, o cachorro lambia a amante emborrachada. Isso é consciência ambiental. Depois dos cães que atravessam na faixa de pedestre, agora há o cão que não desperdiça leite.

Entretanto, aprecio animais. Ao modo como gosto de crianças: só os educados e os que não me mordem, arranham ou cagam sem nem ter a decência de avisar, para nos dar alguma opção. É questão de gosto, mesmo. Criança educada é o bicho: faz bom cartaz com a sociedade para o adulto que a acompanha, e é sucesso com a mulherada; já logo veem que você é capaz de perpetuar a espécie, assumir compromisso e prover a sobrevivência da família. E nem interessa tanto se você é ou não solteiro. Quando a biologia grita, não é um moralismo inventado que vai calar o clamor da genética. Estando com carrão, em cima de um palco, usando terno ou farda, de mãos dadas com mulher bonita ou com criança educada, mulherada cresce o olho mesmo; você pega dela fácil, na promoção, o kit Zuckerberg: Face, Insta e Whats, numa paulada só.

E há quem tenha cinco filhos, três cachorros, oito gatos, quatro peixes, duas tartarugas e um coelho, e tudo bem. É tudo comestível. Inclusive os filhos, depois dos dezoito. Dezoito, pela moral hodierna; porque pela lei, aos catorze já se pode degustar, contanto que não seja os próprios. A única certeza da vida é seu fim, e a única verdade é que alguém vai esfregar o pênis ou a vagina no rostinho lindo que você beija todos os dias com tanto amor e cuidado, em tantas madrugadas em claro, por tantos anos sofridos e amados.

No fim, tudo que é da paz tá em paz. Não curto quem me agride, seja adulto, criança ou animal, do mesmo modo que evito a companhia de uma árvore que me caia na cabeça. Em diversas situações — não em todas — somos maltratados porque aceitamos. Combatemos com palavras e expressões faciais o que deve ser resolvido com atitudes. E a principal é se afastar da origem agressora.

Fiquei mais forte e leve depois que cortei da minha vida as “âncoras”. Amo quem me ama, puxo para cima e impulsiono quem faz o mesmo por mim.

Quem anda com vampiros, vive fraco e acaba sem sangue.

Um carinho ou outro sempre rola nos gatinhos que esbarro nas calçadas. Pode ser girafa, guaxinim, pássaro ou uma figura obesa faminta comendo um Big Mac: não me mordendo nem rosnando, sempre vai rolar um “bom dia”, um sorriso e uma gentileza.

Gato quadrúpede é um espécime belo, elegante, estiloso, indiferente e sem um pingo de caráter. Ele não vai respeitar seu vaso chinês do século dezoito! Animais bonitinhos, mas ordinários.

E até em desenho animado de longa metragem, gato é filho da puta. Derruba o porta-retrato, regaça a cortina, rasga o sofá, acorda o dono com patadas na cara, vomita a bola de pelos e depois manda, miando, o dono ir limpar. A ficção do cinema pode ser assustadoramente real.

Fosse eu mulher, ou atraído por homem, o único gato que eu ia querer ter era o Brad Pitt. Sem um monte de filhos pequenos e de países diferentes ao redor, é claro. Fica realmente difícil transar, assim. Que função haveria ter o Brad Pitt, com dezenove crianças em volta? Como dizia o expert em casamentos, Chico Anysio, “O casamento é justificado pelo filho, mas é também o filho que acaba com ele. Não há sexo que resista ao ‘acho que o menino acordou. Pera aí, já volto’. Como vai voltar? Acabei vários casamentos por causa desse pera aí, já volto”. Sábio Chico. O que não o impedia de insistir no erro, infinitamente casando e dando trabalho às maternidades. Maravilhosa autodeliberação; o que vale é ser feliz, e não o dono da razão.

Vou ensinar meu cão a ir buscar o jornal. Primeiro, preciso assinar um. Voltarei à moda antiga. Maldito smartfone com Google e WhatsApp.

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