Madeira no Reto

O casal entrou no setor de emergência do nosocômio. A maca os levou, até o ambulatório de atendimento médico. Diversos doutores se encaminharam, as enfermeiras assistiam o alvo escoar horizontal de jalecos e camisas sociais deslocando-se ao apelo da ciência, que necessitava de fontes e mentes para ser aplicada. O estabelecimento enfrentava hora tranquila, um clima de serenidade pairava, tensão superficial da água por toda a extensão de um lago, brisa de folga, sol com preguiça. Os que estavam livres iam, manada quase silenciosa que irrompia agitando toda a calmaria do lugar. Os que atendiam, operavam, escreviam papéis urgentes, esses sabiam — pelas enfermeiras, a rede de comunicações rápidas do hospital — o que acontecia e abreviavam, simplificavam habilmente o desenlace dos casos novelísticos da vida de alguns pacientes, afoitos por calor e atenção compreensiva. A curiosidade médica se indiscernia da humana, da sede pessoal de beber do fantástico, que banha o estar vivo em emoções inéditas, preenchendo momentos vazios existenciais. Pediam um tempo, um instante para beber água e ir ao banheiro, e furtivamente iam observar o evento clínico.

Nada mais constrangedor. Aos pacientes, o apuro de vergonha atingiu tal nível, que saturou sua sensibilidade e entorpeceu a razão da agressão ao pudor íntimo. Naquela altura, perceberam que isso não mais fazia diferença. O que valia, era a melhor e mais rápida ajuda. A dor era física, maior a mental. Que consequências os aguardavam, como seria a vida a partir e depois dali. Isso era proeminente, desamparo mais pujante à alma, e por extensão ao corpo.

O corpo medicinal debatia e batia-se com o desafio. Era preciso, a frieza requisitava importância máxima, a celeridade apresentava-se a seu lado. O raciocínio e a bibliografia, do outro. O pensamento sobre a documentação e divulgação de seu ineditismo à comunidade mundial, logo atrás. A celeridade tomava a palavra, afoita, observada e corrigida pelo raciocínio, de perto.

Um casal de homem e mulher estavam à sua frente, hidratados por soro intravenoso, numa romântica e confortável posição, dois “C”, como uma concha encaixando à outra. Uma concha de amor eterno, inseparável. Tudo devido à um equívoco, mínimo. Sucedia saudade, ansiedade, premência, casa em reforma, pouca iluminação e atenção a minúcias afora o objeto carnal em questão. Respiração anelante, olhos brilhantes, lábios mordidos, boca sedenta e molhada. Virilhas pulsantes. Não havia tempo para minúcias triviais.

O tratamento seria cirúrgico, decidiram. Não tão complicado, por fim. Discutidas as possibilidades rapidamente, os levaram à sala de cirurgia. O doutor à cabeceira os acalmava, junto de uma enfermeira dedicada.

— Isso é inédito, mas vamos resolver do melhor modo — disse o médico.

— Já vi tantas coisas diferentes, mas é assim mesmo. Fiquem calmos, nós vamos cuidar de vocês. Isso aqui é um lugar de consertar gente — concluiu a anja humana, com um sorriso compassivo no semblante.

Foram gastas algumas horas no processo. Em meio à riqueza da equipe, maior por necessidade científica de aprendizado, uma outra enfermeira registrou em vídeo o procedimento cuidado e trabalhoso. Ficariam marcas, o tratamento ainda se daria em dores e tempo, abstinências e dietas. E afinal, curados.

Tanto trabalho por um detalhe tão pequeno! Trocar um tubinho de lubrificante por um de adesivo líquido.

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