Praia Sem Filtro

É na praia que a maquiagem não vai, a compressão elástica moldadora de curvas ausenta. E a consequência da vida cíclica-financeira de satisfação social pelos bens adquiridos se materializa, saltando à vista.

Quanto corpo feio. Quanta feiura e tristeza de ver. Moleza glútea muscular em jovens de dezoito, como em pele de braço de idosa de oitenta e oito. Barrigas curvas, alguma lei as proíbe retas, magreza é pecado. Fila do pastel enorme, um carro de inox e óleo frito a cada cinquenta metros. Haaaja coração! Colesterol, cirurgia bariátrica, lipoaspiração. E roupa preta, para “parecer” menos gordo.

De algum refresco visual, sobram apenas as raríssimas e sempre altivas, plenas de si de tanta atenção, elogios baratos e propostas recebidas de passeio, sexo, namoro, casamento e até emprego: modelos de passarela, atrizes de novela, as sub-neo-pseudo-famosas de Insta-Face, as marias-chuteira, as gostosas de academia e as putas de luxo e de padaria.

Da preferência sexual de cada um, na estética corporal individual, nada no gosto alheio incomoda, não entravando o meu. Gosto não se discute, há paladar para tudo. Pois que ninguém morrerá virgem, há sol e tampas de panela para todos. Apenas rio do desentendimento na praça, entre a fala que despreza a saúde corporal, manifesta no discurso de “igualdade” na teoria das palavras que saem das bocas, e a desigualdade expressa nos fatos, pela atração dos olhos, desejos, proposições, disposições a sacrifícios financeiros e riscos matrimoniais nos cortejos para uns e umas, e não para alguns e outras.

“Ditadura?” Me pergunto se descuidar da saúde é saudável. Sobre meu tesão? Meu pau, minhas regras, paixão.

O tesão da rola. Gastemos um parágrafo sobre isso.

A boca pode mentir quanto for; o pênis é sempre sincero. A menos que esteja sob efeito de alguma pílula azul. Como amante irrevogável da liberdade própria, tenho aversão a drogas ou tudo que possa causar uma dependência escravizante e, portanto, não faço uso de esteroides ou azuloides. Amo a saúde que tenho e minha autonomia, acima de tudo. Por isso, fique tranquila. Eu sou sincero, sem dúvida. Mas meu pau, é transparente para caralho.

O caminho do amor pretendente sexual passa pelos olhos, confere pelas mãos, assina-se pelo sexo sentido.

Sobre a areia limítrofe ao mar não há bens, veículos, ângulos favoráveis, nem filtros; somente a música de tua voz, vossa personalidade, ideias, conhecimento, habilidades e corpo. Talvez a Beleza de tudo isso tenha ficado em casa, também; na lataria do carro, nos móveis da sala, nos batons e vestidos provocantes, na piscina, na página online, ou grudada numa imagem junto à Torre Eiffel.

De alguma forma, toda a harmonia parece estar no dinheiro e sua divulgação. Como verdadeiros “posts”, até os próprios filhos servem para divulgar à sociedade, habilidades e méritos dos genitores, e as correspondentes capacidades financeiras de aquisição de itens aos rebentos; são como certidões de bom pai, adulto maduro, gerador de filhos, cidadão feliz, etc. e toda a mesma estória de filme de sessão da tarde. Graças ao sistema educacional de mão de obra escrava como temos, por aqui há bastante gente que acredita na “happy family” do comercial de margarina na TV. A propaganda, que a sociedade do status de consumo usa, para apresentar papéis e valores às pessoas. E o curioso, é que elas aceitam esses papéis: de gente importante, ocupada, desejada, famosa, capaz, bem de vida, bonita, sarada, de sucesso, etc. Somos a sociedade que combate os rótulos que nós mesmos insistimos em ostentar o tempo todo.

Formamos a sociedade brasileira com mais informação de todos os tempos, e agimos como a mais incoerente de todas. A prova? Nunca houve tanta gente gorda e mole, nem a estética corporal foi tão importante, ao mesmo tempo. E jamais houve tanto consumo de comida hipercalórica e cerveja. Vivemos uma epidemia de surgimento ao infinito de academias de exercícios físicos criativos, clínicas de estética, cirurgias — para reduzir estômago, sugar gorduras ou simular silhuetas sinuosas, silicônicas musculaturas meio macias, mimetizando mal, machos mais ou menos — e estabelecimentos de fast-food (artesanal e industrial). E drogarias. E drogas: para dormir, combater a ansiedade, para aumentar a disposição. Para comer menos, hipertrofiar mais, perder gordura, reduzir a dor de cabeça, diminuir a depressão, para sociabilizar, para transar, para estudar, para aliviar algias quaisquer. Para combater a ressaca, que o gélido remédio líquido diminuidor momentâneo de vergonha e baixa autoestima causa, no dia seguinte.

Não há conteúdo, densidade, essência. Resta casca, superficialidade, aparência.

Às muito feias meu bom dia, mas para meu íntimo carnal, um mínimo de beleza e graça é fundamental. Apesar dessa concordância, não recito, como fez o ilustre poeta, receita feminina para atração masculina. Que o artigo quinto me permita, mulher feia é no inverno, um banho de água fria. O pau encolhe, se esconde, e não levanta nem rezando Ave-Maria.

À beira-mar, há mais enlevo e inspiração na natural aridez deserta da areia desocupada, que nos ruídos e andares torto-flácidos da praia empanturrada de espelhos deformados de Deus.

A vida é o que é.

O problema das pessoas não é serem quem são. É tentarem parecer o que não são. E de fato não são o que aparentam, nem são o que amam na alma, que demanda sacrifício e fé para sua realização. São uma sombra de alguma coisa, e uma fagulha de nada. Não brilham, não encantam, não admiram, não apaixonam por despertar paixões convictas. Cantam liberdades, sem o som dos espíritos livres. São mortos, que ignoram o fim da própria vida. São pilhas termodinâmicas, sendo sugadas.

O cerne da questão não está sobre a areia, tampouco reside nos corpos, de amor-próprio alijados. Está sobre o asfalto e entre concretos armados.

A praia é a cidade sem filtros.

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