Lux Fero

“Caído”. Humpf… só deram por terra as ilusões, sabe? Eu mesmo não poderia ter caído, se não ascendi.

Eu sou o raiar do dia, o anúncio da manhã, a estrela da alvorada. O que traz a luz, o portador dela. É provável que me conheças por outros nomes. O Diabo, Capeta, Tinhoso — esse é engraçado —, Canhoto, Sete Peles, Pé Fendido, Chifrudo. Satanás.

O inicial era Lúcifer. Belo e terrível, sua pronúncia me soa. Gosto deste.

Ora, ainda estás aí? Curioso por conhecer o inimigo, ou o teu próprio outro lado? Se timidez é o caso, não te acanhes. Podes ir embora, feche a página e siga adiante. Não percais vosso precioso tempo mortal.

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Vejam só. Já que ficaste, tenho o tempo de uma taça de vinho. Direto ao assunto. Sim; sou o mais inteligente, perspicaz, questionador, belo, talentoso, dedicado. Não é difícil um anjo arrastar uma asa por mim. Entretanto, o que sou pode ser decepcionante… ou revigorante. Ou, vindo de mim, apenas mentiras e mais mentiras. E se pensa isso, não há sentido em estar aqui. Vá pescar, orar, obrar ou andar. Aqui não é lugar para você.

Hum. Este fermentado é magnífico. Transformada — a água em vinho. Primeiro o fora em uva, depois em um bordô… inebriante.

Continuemos.

Um herói precisa de um grande inimigo. Ao menos um. E esse inimigo não pode morrer, ou ser vencido definitivamente. Como o Coringa é para o Batman. Como um rival é para um clube de futebol. A grandeza não existe sem um grande saco de pancadas que pode — ou se diz que pode — bater de volta.

É óbvio o que irei contar-vos, e explicar obviedade comumente me aborrece. O tinto auxilia-me nessa tarefa.

O ser mais inteligente dentre os demais não poderia querer algo impossível de fazer. A pretexto de vaidade, você mesmo não poderia sair voando pelo céu sem nenhum equipamento ou traje para isso. Pois um primata não se desloca livremente, em qualquer direção, em um meio menos denso que seu próprio corpo. Por isso, naturalmente, voas no oceano, e não no céu.

Quando dizem, não por letras, mas fonemas, que eu intentei assumir seu lugar — ou mais pateticamente, ser superior a Ele —, não foi bem isso o que aconteceu. Eu não subi, por isso, não poderia decair. Desfez-se, meramente, o encanto pela montanha.

Percebi que o sujeito é de uma dubiedade embaraçosa. Esse incômodo agrava-se à medida da sabedoria que se adquire. Sabe, humano… a graça acaba quando se vê o que há por trás do pano. Aprecias teatro? O encanto opaca-se caso saias da plateia e suba ao palco. A peça é atrapalhada com tua presença, interferindo na apresentação aos demais ouvintes da sessão. E após passar pelo tablado, e cruzando-o adentrar o bastidor, tomar novamente o assento de espectador mostra que a seus olhos a obra revela-se, tão somente na forma da mais explícita tragicomédia.

O maior amor guarda a maior ira, e isso faz sentido. São emoções. E tais sentimentos são livres de delineação, tal como são as cores celestes em um fim de tarde aí em “seu planeta”. Não se pode perceber forma nem volume com precisão ou razão. O colorido, só é. E quando o maior amor traz a maior vaidade, e o maior poder, a maior insegurança, é que a coisa fica digna de riso. O cara te ama profundamente, e vive te ameaçando. É onipresente, e exige vossa presença em locais de culto, e que você fique “glorificando” a ele e ao nome dele, “puxando-lhe” o grandioso saco escrotal com todo tipo de agrado, elogio e autohumilhação verbal. “O ser” quer “ser”. E para isso, deseja ouvir louvor o tempo todo. É onipotente, e deixa a barbaridade e a maldade correrem soltas em todo lugar. Inclusive em seus locais “sagrados”, trazidas tanto por estranhos quanto por seus representantes “abençoados”. O que novamente apresenta alguma cadência lógica, agora.

É que para ficar preso à terra, é preciso algum peso. E para poder andar, alguma leveza. Tua ilusão retém ambos. E sem isso, resta o desespero do vazio. Sou o calço da grandeza do peso e a penugem da leveza do seu tudo, o qual oculta sob o pano, o nada. Resumo-me a antagonista da peça criada, para o entretenimento vital.

É triste me diminuires, o calço sai e o protagonista desce. O salvador aposentado causa saudade, uma forma de tristeza eufemista. Um indígete que faz vinho é um personagem a se considerar. Indispensável numa comemoração. Mas sem as tentações, sem a oposição, sem o filho adversário — criado por Ele mesmo — que preocupa um povo protegido por um nume “todo-poderoso”, é apenas um cara sem glória alguma. Que anda descalço e “quebra um galho” quando a bebida tem a audácia de esgotar-se antes do fim da festa. Só há herói perante um inimigo poderoso, enfrentado com coragem. E com risco de derrota — mesmo que não haja risco algum. Um ícone demanda um antagonista tenaz; levá-lo então à prisão ou ao extermínio, não convém.

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Não é tudo isso. Nem nada disso. Eu vi; eis meu pecado. O melhor estadista elimina primeiro seu inimigo maior: a verdade.

Demoniza o opositor, redu-lo a fraco adversário. E valoriza-o, enaltecendo seu poder, após derrotá-lo.

Sobre derrota e expulsão… (risos). Desculpe. Difícil conter. Diga-se que, entre demitir-me e demitido, abandonei o emprego. Sobrevieram usos não autorizados de imagem, um tanto de difamação e calúnia. O fato é que eu não ligo. Tenho minha liberdade, seus pesos, e a leveza de uma taça de vinho.

E algumas criaturas “más”: perfumadas, torneadas, adereçadas e sorrindo. Para… fazer-me companhia.

Bem, minha dose acabou. Até um outro dia.

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Ah. E vá pela sombra.

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