Porque Te Amo

O que eu quero é a presença da falta que tuas canções trazem quando te vais. E o afastamento de pensar que pode não mais ser, que o último, foi mesmo o momento derradeiro das repetições de tantas oportunidades virginais e fascinantes.

A aspiração à plenitude, à abundância e ao monopólio dos teus produtos e serviços, que os faço meus, em aquisição de ações por moeda afetiva, contrato de cláusulas e multas pesadas, sob prazo indeterminado.

O canto da garganta, as palavras e suspiros, as risadas e gemidos. Corpo, saliva, suor e outras águas. Tuas penas forram minhas asas, onde voas também. Somos um empreendimento de risco.

É porque amo-te. Que todo lampejo que cintila nos veios brutos de safira das tuas íris devem-me atravessar, iluminar alguns trechos de mar, mas o foco é em mim.

É que a curva me pertence, a rodovia completa, os atalhos, vicinais e secundárias. A pele, a manta, a seda, o asfalto. A cortina de perfumes, feita só de fios, amarrados em rabo, no alto. Grudando, pesados, quando o banho é total.

Não é por outra coisa que o faço, é porque te amo que te furto. Confisco teus lazeres particulares, quebro teus espelhos íntimos, invado teu quarto quando a solidão e a música encontram-se lá contigo. Dou-te o sol, e tiro-te a lua.

É por isso que te cerco, é assim que te investigo, outrossim que desconfio, a teu redor desço o domo de vidro.

É que é para mim. Que existes, foi feita, criada e encaminhada. Não por mim, mas pelo Pai. Tu és costela, e a seu todo és servil. É para mim, é para mim. Porque eu te amo.

Talho-te a voz, cubro-te a saia, tapo-te os olhos, amarro os pés e vigio as mãos. És minha, porque amo, e sua vontade só tem valor sob esta, em seu cumprimento.

É porque te amo que te roubo.

Serás cinza, beata, desconhecida ao teu reflexo, trarás consigo medo e gratidão.

E terás marcas, riscos e máculas de paixão. Escorrerá teus líquidos, todos eles, e tua areia, e as estrelas, até murchar. Feliz; pois se plena sem mim, ou em terceiro a encontrar, findar-te-ei sob o mais devasso olhar, junto à causa de tua potência, a cujo passamento assistirás.

É porque te amo. É porque te amo, que tua vida vou sugar. E com metais, linhos, gemas lapidadas compensação te comprar, para a existência que irei esgotar.

É porque te amo que lenta, e rapidamente, vou te matar.

Porque te amo.

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