Livro Just Writing vol.2

The Just Writing vol.2 finalmente está pronto!

O valor do trabalho e suas relações, os abismos entre o egoísmo e a grandiosidade humana, por vezes tão largos quanto uma linha. A cultura do país de contrastes onde vive, as experiências da infância e as descobertas, alegrias e desapontamentos da vida adulta que lhe foi ensinada. Em seu segundo livro, Leonard Olivier devaneia ao encontro dos profundos de que se pouco fala. A natureza humana e suas paixões e temores, incoerências e sonhos, constituem a biosfera onde esta obra mergulha, sem pudor, à busca de descobrir um tesouro enterrado nas reentrâncias mais obscuras de sua própria humanidade.

Esta é uma história de estórias de uma pessoa desajustada ao mundo.

***

Em vinte três contos, crônicas, ensaios e poetismos, Just Writing vol.2 – Contos Crônicos de Ensaios Poéticos percorre jornada da infância até a vida adulta, uma exposição de descobertas e desencantos, em que o tempo é o principal ator – quando em vezes se queria que ele antecipasse e, em outras, nunca tivesse ocorrido. Esta obra marca a evolução na gramática, estilo e lirismo do autor, compondo, em relação ao primeiro volume, um livro quatro vezes maior em palavras e riqueza vocabular, e o mesmo tanto vigoroso em romantismo, senso crítico e profundidades.

Alguns excertos da obra:

“Um trator mais à frente discutia com o asfalto antigo, desejando sua remoção para substituição por um outro mais novo, virginal. O veterano petrolífero alinhava argumentos a seu valor ainda em vigor, que demandasse talvez reparos ocasionais. A máquina retornava seu ponto, em que os cidadãos decidintes cansaram de tal expediente, inclinando por fim ao implemento renovado por completo. O embate era caloroso, poeirento, ruidoso; os dentes da concha metálica chocavam o betume envelhecido, duro e rígido como somente os anos podem tornar as opiniões e certezas. A conclusão da disputa era óbvia, a força pertencia à razão e a razão era propriedade da força. Sob protestos, observado por transeuntes insensíveis ao clamor do piche imperfeito, este foi retirado, entulhado, carregado e transportado para onde ninguém o veria mais.”

Calceteiro, pág.66

“Minha avaliação estava finda. Restava agora servir de voluntário à execução terapêutica do colega, que ansiava por iniciá-la – é perturbador o que a necessidade de uma nota faz ao ânimo de um universitário. Deitei e abrandei a vigília, aquietei os pensamentos e entreguei os músculos à lassidão, ao progresso da massagem que se iniciava em decúbito ventral – de bruços – e pelos pés. Os dedos, sola, lateral, dorso, os tornozelos. Seria preciso muita preocupação, haveria de ser uma nevasca de tormenta que rebuliçasse minhas mais densas angústias de existência, para que não houvesse a consignação de células e fótons metafísicos que se sucedeu. Meu templo não era mais meu; mas de um deus, utilizando as mãos de outro mortal, manipulando-me as estruturas palpáveis e enredando-me ao cosmos, fazendo de mim deidade enquanto ligado à sua essência divina. Deitado, relaxei; gozei o presente. Segundo consta, método este aprovado por sexólogas e políticas públicas.”

Prova de Sexta à Noite, pág.84

“Será que você pode esperar um pouco? E já vem você falando de você, do homem, do homem! Dá um tempo, ô Tarzan. Eu estou pensando. Vem um monte de coisas na minha vastidão pensante. Se lá na minha dona, ou melhor, minha representante no mundo manifesto, ela já pondera mil coisas ao mesmo tempo, imagine eu que sou a própria inconsciência imensurável, infinitamente modificável e prevalecente? Há uma potência operacional de dados nesta graciosa existência abstrata que sou, que não é brincadeira, meu querido. Seu melhor computador não é páreo nem para o processamento, nem para a capacidade de memória, aqui. Ou você acha que eu não lembro da calça manchada que você vestiu ou do que você disse, no primeiro encontro? Lembro tão bem quanto o que você falou no sexto, e o que fez no décimo oitavo. Quer que eu diga, ou não precisa?”

Hair in Home, pág.92

“Dominada integralmente, ela vê-se submetida a volúpias diferentes das precedentes. Um erotismo impudico, um algo tão natural que não parece proibido. E de mesmo modo instiga-a, como se o fosse. Sobre as bordas de inox, pendulam os braços do invólucro corporal que, sendo seu, não lhe pertence, entregue encontra-se a um plano distante, onde deuses amam e sorvem néctares desconhecidos à humanidade; extratos elaboradores da natureza, reveladores a cada gole, que escorrem pelos lábios e ultrapassam a volta do queixo, indo pela garganta dimanar pelo peito e seios, permeando a pele em bálsamos e olores, de prazeres e ramos de flores.”

Biquíni e Fogão, pág.118

“— Tia! O Leonard e a Janaína estão se beijando debaixo da mesa!

Auê. Gritaria. Bruscamente, alertados pelo som que antecede a tempestade – um trovão desafinado entre sol e si, som laríngeo esganiçado de timbre infantil feminino –, rapidamente retrocedemos os movimentos o mais rápido que pudemos, de volta aos assentos vazios. Uma vizinha de mesa dera o alarme, talvez uma parte vencida no processo de distribuição de lugares realizado pelo tribunal docente, composto de membro único a envergar toga de cor anil destingido. Ou apenas pela novidade, mesmo; ‘because zoeira never ends’.”

O Primeiro e Segundo Beijos na Boca, pág.126

“Sempre fascinante, o sobrenatural ativa massivamente a imaginação, visualizando um mundo invisível, escondido, que ameaçando de morte e incutindo medo, imerge o ouvinte em impressões intensas, das que fazem o coração bater descompassado, o sangue correr, o corpo arrepiar, a garganta contrair, a boca se abrir. Em vidas tão regradas e monótonas quanto um mecanismo de relógio pode ser, qualquer emoção aguda as faz sentir o prazer esquecido de estarem vivas. Pois se você sente, ainda que sob devaneio distante, um temor iminente de morrer perante o desconhecido, isso o lembra de que está vivo; de que não é apenas uma engrenagem que gira, respirando enquanto dá voltas em torno de si, até que sua vida, já alquebrada e desgastada pelo existir, extinga-se.”

A Arte de Conquistar Uma Mulher Sem Esforço, pág.131

“Uma figura surgiu caminhando transversalmente, parando diante das peças ao solo. Virando-se devagar, ficou de frente ao túnel bloqueado e sem teto. Pernas afastadas, braços relaxados ao longo do corpo, e levemente distanciados dele. Dedos impacientes, movimentando-se em ânsia ao momento. A figura ofegava, recuperando o fôlego. A silhueta obscurecida pelo Sol poente às costas projetava-se adiante, aos pés do meninote posicionado em sinuca de quina. Conforme a diligência solar ocultava-se por trás do temido salteador, a penumbra avançava: milésimo por milésimo, centímetro por centímetro. A sensação era de que o astro-rei era absorvido pelo maléfico bandoleiro, que ia transformando energia clara e quente em uma sombra escura e fria, crescendo ao ritmo em que a própria fonte da vida universal era sugada por sua álgida alma.”

Faroeste Chinelo, pág.145

“À borda, observa a imensidão abaixo. O olhar perscruta onde vivem os pensamentos e os monstros, paragem à qual a luz de Apolo não chega. Aproxima um pouco o queixo do peito, buscando a profundeza vertical. Projetados além da firmeza do solo, seus dedos descalços são refrescados pelo vento que ascende; sente a aresta sob eles esfacelar em pedaços que rolam e despencam escuridão adentro. Quando o ar subinte para de se movimentar, sente por trás de si impulso fugaz em direção à amplidão, aragem diáfana tentando-o a prosseguir. Logo percebe que a brisa posterior fora apenas uma lufada suave, tepidez tênue de Zéfiro; a sensação que continua a contorná-lo é de algo a evaporar de si mesmo, como uma aura, que se esvai continuamente e sem pressa para o abismo.”

Abismo, pág.153

“Talvez aí a seta de Eros, perfumada e de entalhes esculpidos – ou simples formato silvestre e frugal; sua apresentação estética material é desconhecida –, atinja-me, transmutando-se, uma vez alojada no endocárdio, em bólido negro com gravuras longas em cores púrpuras, e caracteres ininteligíveis aos mortais, de tons escarlates escuros e brilhosos. O tiro da progênie de Afrodite trouxe somente intensão de energia, com a fagulha potencial de despertar tremores inertes do próprio ser atingido. O direcionamento, a intenção, é prontamente tomado por poderes maiores, dormentes que mantém vigília nas penumbras entre rochedos da natureza íntima, e banham-na em suas salivas grossas e abundantes, dando à centelha divina recebida sua própria luminescência, quente feito o sol e densa como magma.”

Demônios, pág.155

“Eram salsos alguns, e açucarados outros tantos. Havia recheados com derivados de carne, leite e condimentos. E os dulcificados, paixão tão inconfessa quanto incontida de seu coração. Aclamado, seu creme era méleo e quase imperceptivelmente picante, algo acre, amargor indefinível. Fluíam por ele fios e córregos cetrinos de frutas que escorriam, aos pedaços, de cima dos pães para o metal quente abaixo, quando trazido da cozinha para o balcão com a designação de importância e avidez que se tem quando um deus, renegado de seus iguais, traz sobre a mais fina prata porção subtraída ao banquete divino, para festa entre mortais no palácio real. Os olhos, alguns modorrentos, outros sociáveis e vivos, um ou outro taciturno pela chuva; todos renovavam o brilho quando viam, antecedidos pelo aroma, aqueles retalhos furtados de Céu, fragmentos, lascas pecaminosas do Paraíso.”

 – Segunda Natureza, pág.158

“O equino que a conduzia venerava-a pela presença e amor, desvelado em afagos e carinhos por sons e gestos. Enfiavam-se pelo vento a correr, sua crina oscilando compunha dueto ao balançar das vestimentas reais, sob manchas esverdeadas e enfeitadas por carrapichos frescos. Quadrúpede; a ele a natureza pura constituía o ser. Embora estimasse a lealdade de homens que o tratassem bem, era ali no altar da cupidez humana que se desencaixava, e perdido, lutava a luta de lutar. Encontrou em sua alteza triste o convite à luz, que o chamava como um fio vespertino na escuridão. Com um relincho, seguiu-a. Fugiam repetidamente e voltavam, indo cada vez mais longe e retornando mais tarde.”

Tabuleiro, pág.161

“Um cachorro latiu à aproximação do automóvel verde-escuro que parou em frente ao portão. O condutor saiu do veículo e os latidos, agora duplos, que começaram a entonar ansiedade quando o ruidoso móvel metálico embicou sobre a calçada, adquiriram o sonido do mais puro desespero de sofreguidão feliz, causando agitação intensa nos seres caninos. Ambos ladravam com veemência, saltavam e giravam, ganiam, balançavam as caudas como se fossem sobrevoar o portal de madeira à força de motor traseiro. Os olhos brilhavam como estrelas rentes ao chão, a saliva escorria e pingava em direções diversas como gotas de chuva quente.”

Olhar Nuvens, pág. 192

“Entraram para casa a galope, pois dona Marta já os chamava pela terceira vez, auxiliada pelos perfumes de café, milho e pão. Criança quando se diverte no quintal, encontra-se face a dilema moral irresistível: continuar correndo, pulando, fugindo, jogando coisas e a si mesmo com os outros até não aguentar mais, ou abandonar tudo e partir em disparada para abastecer-se de delícias comensais, prazeres que serão infindos enquanto o estômago não enche? Na dúvida, geralmente continuam onde estão, embora as reinações e arteirices tenham certa prevalência nos corações infantis. Todavia, muitas não decidem, vão curtindo até que algo ou alguém as faça parar uma atividade prazerosa para iniciar outra. Fosse lanche, seria a fome saciada; sendo lançamento de avião de papel, haveria a chuva; sendo bola, a facada da vizinha na pobre esfera inflável. A diversão não se interrompia, transmutava apenas. É o que há de bom: ser criança com amor, quintal e comida.”

Olhar Nuvens, pág. 198

“Marta agonizava. O impulso era abraçar seu filho, colocá-lo no colo, dar-lhe esperança e calor, consolo e amor. Dizer-lhe que essas coisas iam passar e tudo ficaria bem. Estava visivelmente emocionada, e na mesma posição mantinha-se, resoluta. Não poderia agir assim e negar a seu filho a possibilidade de sentir o amargor da existência, de saborear e degluti-lo com uma colherada da própria mão. Evitar isso seria manter seu maior motivo de orgulho pessoal como eterno infante, incompleto ser a atravessar o continente da própria história caminhando escorado por outros; se não em recursos materiais, em proventos psicológicos. Apoiada pelo carinho de Alfeu e pelo outro lado de seu próprio amor — aquele que quer o melhor para o amado antes que para si mesmo —, impávida continuou em seu lugar.”

Olhar Nuvens, pág. 206

— Lutar para ser livre?

— Claro. Essa agonia que chega a te levar às lágrimas é sua própria prisão, é o mundo que você mesmo carrega nas costas. O mais perto que podemos chegar da liberdade é realizar nossos sonhos, anseios particulares e talentos. E isso exige muita, muita dedicação de energia e tempo. Você tem de querer muito isso, obstinadamente. E não dar ouvidos ao “não” de ninguém, nem de você mesmo. É “sim”, e muito trabalho duro, todos os dias. E assim se cria disciplina. Você pode conseguir tudo que realmente deseja através do seu trabalho duro e disciplina. Para libertar-se da opressão e dos males sobre você, é preciso pagar por isso. Com paixão, sofrimento e tempo — pois leva tempo. Ser livre tem um preço. Ser servil, também.

Olhar Nuvens, pág. 215

https://www.eviseu.com/pt/livros/2478/just-writing-2/

Just Writing vol.2

1ª edição, 2021 – 238 páginas

Editora Viseu (www.eviseu.com)

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